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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Paradise Lost - Obsidian (2020)


Paradise Lost - Obsidian (2020)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)


01. Darker Thoughts
02. Fall from Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear the Night (bônus track)
11. Defiler (bônus track)

“Você não é todo mundo!”. O caro leitor deve estar se perguntando o que a frase dita por 10 entre 10 mães no mundo faz em uma resenha crítica a respeito do novo álbum do Paradise Lost. Realmente, é uma forma pouco usual de se começar uma resenha, não posso negar, mas logo ela terá sua razão de estar aqui. Surgido em 1988, em Halifax, Inglaterra, o quinteto escreveu seu nome na história do Metal com uma carreira sólida e recheada de álbuns de grande qualidade, fora o mérito de serem considerados por muitos, o responsável pela criação do Gothic Metal como o entendemos hoje. Com tudo isso, e com mais de 3 décadas de estrada, qualquer banda se acomodaria nos louros da vitória e se limitaria a zona de conforto, fazendo apenas o feijão com arroz. Mas o Paradise Lost não é todo mundo. Não é, nunca foi e provavelmente nunca será.

Tudo nessa vida é mutável, e uma atitude que possamos vir a ter hoje, vai ter reflexos lá na frente. É algo que não só afeta a nossa vida, mas também a das pessoas em nosso entorno. Viver não é  estático, e tudo sempre está em constante mudança. Porque então a carreira do Paradise Lost deveria ser diferente? São 32 anos se reinventando álbum após álbum, se recusando a cair na estagnação e no apego ao passado de muitos outros nomes de sua geração. Elementos do passado sempre podem, e são resgatados, mas o foco é sempre seguir adiante, e é isso que fazem em Obsidian, sem 16º álbum de estúdio, que será lançado no dia 15 de maio pela Nuclear Blast, e que sairá no Brasil através da parceria com a Shinigami Records.


Uma coisa que sempre me chamou a atenção no Paradise Lost é a sua capacidade de soar único. Você consegue se deparar com bandas que emulam até o talo nomes como Metallica, Black Sabbath, Led Zeppelin ou Iron Maiden? Sim, e exemplos temos aos montes por aí. Normalmente elas ultrapassam o limite da influência e acabam soando com cópia dessas lendas do Rock/Metal. Isso já não ocorre com o Paradise Lost, já que não encontramos que consiga emular sua sonoridade. Claro, temos diversos nomes onde a influência do quinteto de Halifax se torna evidente, mas nenhum que soe idêntico. Isso se dá por um motivo simples, Nick Holmes e Gregor Mackintosh são músicos únicos. Eles são os alicerces sobre os quais se levantam as estruturas muscais da banda. A voz de Holmes, além de variada, soa marcante, sombria e escura, enquanto Gregor é um guitarrista com uma identidade única. Você sabe que é ele na primeira nota, e todo o clima melancólico presente na obra da banda é oriundo disso. É essa sua capacidade ímpar que consegue ligar álbuns aparentemente díspares como Gothic (91), Host (99) ou Faith Divide Us – Death Inite Us (09). Vale deixar claro que isso de forma alguma tira a importância e o brilho dos demais integrantes. Sem a brilhante guitarra rítmica de Aaron Aedy, Mackintosh não estaria livre para mostrar sua genialidade, sem a força do baixo de Stephen Edmondson e da bateria de Waltteri Väyrynen, muito se perderia. Preste atenção no desempenho dos mesmos em Obsidian, caso tenha alguma dúvida a respeito disso.

Vindo de dois álbuns que mergulharam fundo nas suas raízes Death/Doom, The Plague Within (15) e Medusa (17), o Paradise Lost optou por uma leve mudança de rumo em Obsidian, dando mais variedade as suas músicas. Trazendo para o centro do palco elementos não só do Gothic Metal de outrora, como da cena gótica dos anos 80 – sim, estamos falando de The Sisters of Mercy, The Mission e afins –, entregam aos seus fãs um trabalho mais refinado e com mais melodias, mas que em momento algum abre mão do peso e do clima sombrio que lhe é inerente desde Lost Paradise (90). Partindo dos vocais e passando pelas guitarras, tudo aqui soa mais diversificado, intenso e emocional que em seus antecessores, se é que isso é possível considerando a qualidade dos mesmos. Reparem também na força do baixo de Edmondson e em como Waltteri Väyrynen é um baterista muito, mas muito acima da média.

A abertura se dá com “Darker Thoughts”, e já digo, não se deixe enganar com os dedilhados de violão, os violinos e os vocais suaves de Nick, pois lá pelos 2 minutos de canção ela explode em peso e rosnados nervosos. Com um refrão fortíssimo, segue alternando entre passagens mais suaves e mais pesadas, criando uma atmosfera etérea. Já tendo sido lançada como single, “Fall from Grace” é a música que mais se aproxima do que o Paradise Lost fez em seus últimos álbuns, esbanjando peso e agressividade, obstante a boa dose de melancolia que é adicionada nos momentos em que os vocais limpos surgem. O solo de Gregor é outro fator de destaque. A faixa seguinte, “Ghosts”, é um mergulho no submundo dos clubes góticos de proliferavam no underground londrino dos anos 80. Seus riffs, sua guitarra atmosférica, o refrão grudento, tudo remete a cena gótica do período. É a prova da capacidade única que o Paradise Lost possui de mesclar suas influências de Pós-Punk e Goth Rock com Metal. “The Devil Embraced” alterna muito bem vocais limpos nos versos com os rosnados de Nick no refrão, gerando assim um clima bem sombrio e melancólico. Se prestar atenção, você vai conseguir sentir um pouco daquela aura do Gothic aqui.


“Forsaken” vai remeter o ouvinte diretamente aos tempos do Draconian Times com seus riffs fortes e marcantes, clima gélido e um trabalho de bateria que beira o primoroso. Na sequência, uma das músicas mais brutas do álbum, “Serenity”, um Death/Doom com guitarras pesadas e vocais intensos, que vai agradar aos mais saudosistas. Mostrando que o comodismo não é algo que faz parte do seu DNA, o Paradise Lost não tem medo de buscar novos caminhos para sua música, e observamos isso de forma bem clara em “Ending Days”. Por mais que ela tenha todas as características que marcam sua sonoridade, ela não se encaixaria em nenhum trabalho anterior, com seu clima sombrio e sufocante. Aqui, mais uma vez, o baixo e a bateria brilham. Sabe aquele clima Goth Rock de “Ghosts”? Ele ressurge com força na ótima “Hope Dies Young”, com um que de The Sisters of Mercy, e se encaixaria tranquilamente em um álbum como One Second (97). Encerrando a versão padrão do álbum, temos a épica “Ravenghast”. O piano da introdução já dá o tom fúnebre da canção. Com riffs desoladores e clima angustiante, é sem dúvida alguma a faixa mais pesada de todo álbum, e não soaria deslocada no Medusa, por exemplo. Na versão em digipack, temos mais 2 faixas, “Hear the Night” e “Defiler”, que seguem a mesma linha do álbum, abusando do peso e da melancolia.

Podemos dizer sem medo que o Paradise Lost encontrou em Jaime Gomez Arellano o seu parceiro perfeito, já que ele parece entender a sonoridade da banda como poucos produtores nesse mundo. Mais uma vez ele, ao lado da banda, foi o responsável pela produção, e o resultado é simplesmente ótimo. Cada mínimo detalhe pode ser notado, todos os instrumentos estão perceptíveis, tudo claro e cristalino. Ainda sim, não temos aquela sonoridade plastificada e artificial, já que é um álbum bem orgânico nesse sentido. Sombrio, escuro, intenso e melancólico, Obsidian comprova de uma vez por todas que o Paradise Lost não só se encontra em seu auge criativo, como está muito a frente da concorrência. Vivemos uma época tão dura e de tantas incertezas, e que agora tem sua trilha sonora. Uma experiência catártica, e sem dúvida, forte candidato a melhor álbum de 2020.

NOTA: 94

Formação:
- Nick Holmes (vocal);
- Gregor Mackintosh (guitarra);
- Aaron Aedy (guitarra);
- Stephen Edmondson (baixo);
- Waltteri Väyrynen (bateria)


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Deathwhite - Grave Image (2020)


Deathwhite - Grave Image (2020)
(Season  of Mist - Importado)


01. Funeral Ground
02. In Eclipse
03. Further from Salvation
04. Grave Image
05. Among Us
06. Words of Dead Men
07. No Horizon
08. Plague of Virtue
09. A Servant
10. Return to Silence

Para quem não conhece o Deathwhite, se trata de um coletivo de músicos que se reuniu em 2012, com o intuito de criar um projeto de estúdio, e que optou por manter as identidades de seus membros em segredo. O que se sabe é que são americanos, oriundos de bandas de vertentes mais extremas do Metal, e que todos são apaixonados pelo Discouraged Ones, do Katatonia. Musicalmente, como o leitor pode imaginar dada a última afirmação, se enveredam pelos campos do Doom/Gothic Metal, com elementos de Post Metal, gerando assim uma mistura bem interessante.

Seu debut, For a Black Tomorrow, foi um dos melhores lançamentos de 2018, o que gerou em mim uma certa ansiedade por esse novo trabalho. Conseguiriam manter o alto nível de qualidade apresentado, ou sucumbiriam a maldição do segundo álbum, que já vitimou vários nomes promissores na história da música pesada? A resposta veio através de Grave Image, que não se limita a ser uma simples repetição do seu antecessor, mas se mostra uma continuação natural do mesmo. A inclusão de um segundo guitarrista na formação, deixou seu som um pouco mais pesado e sofisticado se comparado com a estreia, e o que já era muito bom, se tornou ainda melhor.

Mas não é só o maior peso que chama a atenção de cara. Grave Image também se mostra mais sombrio, um retrato dos tempos atuais, a era da pós-verdade, onde esta é distorcida diariamente, e os saberes são contestados por achismos de pessoas que mal possuem coordenação motora para andar e respirar ao mesmo tempo. As composições também se mostram mais ricas e coesas, e com belas melodias, que vão agradar em cheio aos fãs de nomes como Katatonia (óbvio), Paradise Lost, My Dying Bride, Swallow the Sun, Anathema e afins. As canções são altamente imersivas, e criam um jogo de luz e sombra muito interessante, já que, ao mesmo tempo que apresentam paisagens sonoras desoladoras e depressivas, conseguem te fazer sonhar profundamente.


Esse é um trabalho bem homogêneo, e um fio de melancolia perpassa cada uma das canções aqui. A abertura se dá com a forte “Funeral Ground”, de atmosfera taciturna e fria, com guitarras sombrias e boas melodias vocais. “In Eclipse” já mostra suas armas logo de cara, com riffs pesados, forte carga gótica e refrão que te pega com facilidade. Na sequência, temos a elegante e pesada “Further from Salvation”, um “doomzão” com cara de My Dying Bride, algo que também podemos observar na ótima “Grave Image”, com bom peso e melodias sombrias. “Among Us” tem uma vibe que remete ao Katatonia e um trabalho bem interessante de guitarras; “Words of Dead Men” tem um ar sofisticado e alternativo, e “No Horizon” se destaca principalmente pelos ótimos vocais e um bom desempenho da dupla guitarra/baixo. “Plague of Virtue” é uma homenagem declarada da banda ao já citado álbum Descouraged Ones, do Katatonia, e tudo aqui remete ao mesmo. Na sequência final, a emotiva “A Servant” e a sombria “Return to Silence”.

A produção e mixagem ficaram novamente por conta de Shane Mayer, com masterização de ninguém menos que Dan Swanö (Bloodbath, Katatonia, Novembers Doom, October Tide, Opeth, Pain of Salvation, Rage). O resultado é não menos do que ótimo, com tudo muito claro e audível, mas ainda sim pesado. A capa, candidata a uma das mais belas de 2020, foi obra de Jérôme Comentale, e conta com a imagem da estátua de Giordano Bruno, matemático, filósofo e cosmólogo italiano medieval, que foi queimado pela Inquisição Católica. Cabe dizer que a mesma se encontra localizada no Campo de 'Fiori em Roma, Itália, local exato onde foi executado. Altamente emocional, sombrio, imersivo, e mesclando escuridão e beleza como poucos, o Deathwhite entregou um dos grandes álbuns do ano. Para se ouvir sentando na sala, de luzes apagadas, com uma bebida em mãos e refletindo a respeito dos tempos escuros que vivemos.

NOTA: 88

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terça-feira, 21 de abril de 2020

Alcest – Spiritual Instinct (2019)



Alcest – Spiritual Instinct (2019)
(Nuclear Blast/Shinigami Records – Nacional)


01. Les Jardins De Minuit
02. Protection
03. Sapphire
04. L'île Des Morts
05. Le Miroir
06. Spiritual Instinct

Quantos artistas podem se orgulhar de serem percussores em um gênero ou subgênero da música? Poucos, muito poucos. Surgido como um projeto solo de Neige – e que desde 2009 conta com o baterista Winterhalter –, o Alcest é um dos raros nomes a poder se orgulhar de tal feito. Com sua mistura de Post Black Metal e Shoegaze, foi responsável direto pelo surgimento do Blackgaze, além de ter se tornado um instrumento de fuga da realidade por parte de seu idealizador, onde ele mergulha em sua espiritualidade e sonhos de infância. Sua sonoridade, altamente imersiva, e que trafega entre o agressivo e etéreo, mergulha o ouvinte em uma experiência musical única, e que acabou não só por atrair uma parcela de fãs do Metal, como também de fora desse meio.

Do início, com a demo Tristesse hivernale (01) até os dias de hoje, o Alcest foi construindo sua sonoridade, uma identidade única e que permite ao ouvinte perceber que se trata da banda já nos primeiros acordes. A cada lançamento, os elementos Black iam perdendo um pouco mais de espaço para o Post e o Shoegaze, até chegar a Shelter (14), onde eles se tornaram inexistentes. Em Kodama (16), para a surpresa de alguns, esses elementos retornaram a sonoridade do Alcest, e continuam fortes em Spiritual Instinct.

Apesar de ser uma continuação natural de Kodama, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato de esse ser um trabalho menos introspectivo que os 2 últimos lançamentos da banda, já que Spiritual Instinct soa levemente menos escuro e mais direto que os antecessores. Aquela dose de complexidade que estamos acostumados a escutar em um álbum do Alcest se faz fortemente presente, com camadas de sons e melodias que se sobrepõem e geram paisagens sonoras que são fortes e exuberantes, tudo isso acompanhado de vocais que mesclam cantos quase litúrgicos de Neige, com aqueles gritos desesperados do Black Metal. Não vou negar que em alguns momentos, as coisas tendem a ficar um pouco parecidas, mas isso é o tipo de coisa que não incomoda de verdade um fã da banda. Já alguém mais acostumado a sonoridades mais tradicionais e dentro de um padrão, podem vir a estranhar tal proposta.


De cara já temos um dos grandes destaques do álbum, com a belíssima “Les Jardins De Minuit”, faixa que mescla a rispidez e frieza dos riffs típicos do Black, com vocais mais etéreos, por mais que em determinado momento as vozes mais ríspidas surjam. O trabalho de bateria também se destaca. Angústia e esperança se misturam, despertando sentimentos únicos. Por falar em bateria, ela surge imponente no início de “Protection”, faixa seguinte. Enérgica, pesada e bem dinâmica, possui riffs que pendem para o Progressive Black Metal e um ótimo trabalho vocal. Tem uma atmosfera mais viajante, que vai te levar longe enquanto a escuta. “Sapphire” mantêm essa vibração mais progressiva, e possui uma queda maior para o Post Metal, com destaques principalmente para as belíssimas melodias e o refrão que te pega fácil. “L'île Des Morts” tem um instrumental simplesmente fenomenal, e com cerca 9 minutos, se mostra não só a maior canção do álbum, como a melhor. Sabe aquela mescla de sons e sensações que só o Alcest consegue despertar no ouvinte? Está aqui. “Le Miroir” é uma canção altamente imersiva, e que vai fazer você mergulhar profundamente em seu interior. A sensação de solidão aqui é inevitável. Encerrando, temos “Spiritual Instinct”, com sua pegada mais melancólica e um que de ritualístico. Aqui, tempos aquela dualidade entre alegria/tristeza, ordem/caos, horror/beleza, se tornando a escolha perfeita para finalizar o álbum.

Gravado no Drudenhaus Studio, o álbum teve mais uma vez a produção e mixagem realizadas por Benoît Roux, e a masterização por Mika Jussila. O resultado, como de praxe, é ótimo, e permite ao ouvinte usufruir com perfeição de toda a experiência que é escutar um álbum do Alcest. A capa, assim como em Kodama, foi obra de Førtifem, duo formado por Adrien Havet e Jessica Daubertes. Se por um lado, musicalmente falando, esse seja o álbum mais direto e menos introspectivo dos franceses, liricamente talvez seja o mais pessoal de todos, já que Neige não teve medo de se expor nesse sentido. O resultado é um trabalho que apesar de ter sido lançado em 2019, acaba se encaixando com perfeição nos dias atuais, já que consegue mostrar que mesmo meio a maior escuridão, ainda sim há esperança.

NOTA: 88

Alcest é:
- Neige (vocal/guitarra/baixo/teclado)
- Winterhalter (bateria)

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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Cirith Ungol – Forever Black (2020)

Cirith Ungol – Forever Black (2020)
(Metal Blade/Hellion Records – Nacional)


01. The Call
02. Legions Arise
03. The Frost Monstreme
04. The Fire Divine
05. Stormbringer
06. Fractus Promissum
07. Nightmare
08. Before Tomorrow
09. Forever Black

Existiu um tempo onde o Cirith Ungol foi tachado – de forma totalmente injusta – de “pior banda de Heavy Metal do mundo” por alguns setores da crítica especializada. Pasmem, isso ocorria por um motivo que hoje pode parecer bizarro, a sua originalidade. Surgido em 1972, na cidade de Ventura, na California, os americanos apresentaram em seu debut, Frost and Fire (81), uma sonoridade carregada de particularidades. Musicalmente, mesclavam elementos de bandas de Hard Rock dos anos 70, com NWOBHM e Black Sabbath. O resultado foi uma espécie de Proto-Doom, um Epic Heavy Metal com letras baseadas em fantasia, e estrutura musical oriunda da música clássica. Você leitor vai dizer que isso é algo extremamente comum atualmente, mas acredite, em 1981 não era. Fora isso, outros dois fatores tiveram peso: a escolha de timbres feita pela banda, que era bem peculiar e fugia do padrão usual na época, e o vocal bem distinto de Tim Baker, grave, agudo e anasalado, na linha “ame ou odeie”.

Foram 4 álbuns lançados, o já citado Frost and Fire, King of the Dead (84), One Foot in Hell (86) e Paradise Lost (91), mas quase nenhum sucesso comercial no período. Foi o preço pago por fazer o que queriam, e não o que era comercialmente aceito. Mesmo assim, podemos dizer que lançaram as bases não só do que viria a ser o Doom Metal, como também do Epic e do Power Metal tipicamente americanos, de bandas como Liege Lord, Brocas Helm, Omen, Tyrant e afins. Ironicamente, só após o seu término é que passaram a receber o devido reconhecimento, ganhando uma aura de cult e injustiçada. Quase 25 anos depois do término, em 2015, o baixista do Night Demon, Jarvis Leatherby, organizou um ensaio ao lado do baterista Robert Garven e do guitarrista Jim Barraza, e contando com a presença de Tim como espectador. Com vários convites para participação em festivais, a chama do Cirith Ungol reacendeu e resolveram retornar. O guitarrista Greg Lindstrom aceita participar da volta, mas o baixista Michael "Flint" Vujejia declinou, e seu posto passou a ser ocupado, merecidamente, por Jarvis. O quinteto então cai na estrada para uma série de shows, incluindo aí uma passagem no Brasil, onde encerraram o último dia da edição de 2019 do Setembro Negro.

A cobrança por parte dos fãs de um novo álbum de inéditas se tornou algo comum, e sem medo de arriscar o seu legado, o Cirith Ungol resolveu atender o anseio dos mesmos. Eis que agora temos em mãos Forever Black, o 5ª trabalho de estúdio dos americanos, após um longo hiato de 29 anos. A primeira coisa que chama a atenção é a atemporalidade de sua música, já que você nem se dá conta de que se passaram quase 3 décadas desde Paradise Lost. É como se estivéssemos novamente nos anos 80, a era de ouro do Heavy Metal, uma verdadeira viagem no tempo. O vocal de Tim continua único, e pode causar estranhamento em uma época onde os vocalistas são quase padronizados. Os fãs vão amar, os detratores continuarão a criticar, o mundo continuará girando e Cirith Ungol continuará sendo Cirith Ungol. As guitarras de Jim e Greg são absurdamente boas, pesadas, e entregam não só riffs esmagadores, como solos de muita qualidade, enquanto o baixo de Jarvis faz um ótimo trabalho. Já a bateria de Robert continua sendo o ponto de equilíbrio da banda, o centro da sonoridade do Cirith.


Como esperado, um clima épico perpassa todas as canções aqui presentes, que como de praxe, soam sombrias e diversificadas. Após uma breve introdução instrumental, temos a espetacular “Legions Arise”, veloz, enérgica, com riffs fortes, baixo galopante e tudo mais que um fã espera da banda. Na sequência, “The Frost Monstreme” tem boa cadência, um certo ar setentista, ótimo trabalho de bateria e a epicidade que todos adoramos. “The Fire Divine” é dura, com um ótimo refrão, bélica e vai te fazer se sentir em um campo de batalha, enquanto “Stormbringer” é aquela “balada” épica e pesada, com as guitarras se destacando e um dos solos mais bonitos de todo álbum. “Fractus Promissum”, tem uma queda para os anos 70, e traz em si a essência do que é o Heavy Metal; “Nightmare” é pesada, sombria e épica, e “Before Tomorrow” esbanja peso. Encerrando o trabalho, a cruel, opressiva e venenosa “Forever Black”.

Gravado no The Captain's Quarters, com produção da banda e de Armand John Anthony (Night Demon), o resultado é bom, pois deixa tudo claro e audível, mas com aquela crueza que sempre foi característica das produções passadas. Na capa, mantendo a tradição, mais uma vez temos Elric de Melnibone, personagem criado por Michael Moorcock, e que não só adorna as capas dos álbuns, como se faz presente em diversas letras durante toda a carreira. Você pode argumentar que em Forever Black, o Cirith Ungol apenas se limitou a fazer aquele mesmo som do passado, mas sinceramente, quem aqui queria ouvir algo diferente disso? Os fãs queriam o bom e velho Cirith de volta, e é exatamente o que eles encontram aqui, e em sua melhor forma. Se a ideia era abrir um sorriso enorme no rosto de todos os seus fãs, devo dizer que obtiveram êxito nessa missão. Um dos melhores álbuns que você escutará em 2020.

NOTA: 91

Cirith Ungol é:
- Tim Baker (vocal)
- Greg Lindstrom (guitarra)
- Jim Barraza (guitarra)
- Jarvis Leatherby (baixo)
- Robert Garven (bateria)

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Enemynside - Chaos Machine (2019)


Enemynside - Chaos Machine (2019)
(Rockshots Records/Shinigami Records - Nacional)


01. Faceless
02. Black Mud
03. Suffered Defeat
04. Frozen Prison Cell
05. Deadline
06. System Failure
07. The Terror
08. Shitstorm
09. No God in Kolyma
10. Devoured

Durante certo período, a Itália ficou marcada como um celeiro de bandas de Heavy Metal Melódico, por mais que fosse muito mais do que isso. Esse fato acabou por ficar marcado no inconsciente de muitos bangers, e talvez por isso, alguns se surpreendam quando alguma banda de outra vertente metálica surja pelos lados da “bota”. Pois é de lá que vem o Enemynside, banda surgida em 1994 com o nome de Scapegoat, e assim se manteve nomeada até 1999, quando alteraram para a denominação atual.

Como Enemynside, lançaram 3 álbuns, Let the Madness Begin...(03), In the Middle of Nowhere (08) e Whatever Comes (12), antes de entrar em um hiato que entre os anos de 2013 e 2016. Após o retorno, lançaram o EP Dead Nation Army em 2018, e ano passado soltaram seu 4º trabalho de estúdio, Chaos Machine. Musicalmente, o que temos é um Thrash Metal que não esconde sua admiração pela Bay Area e por nomes como Testament, Death Angel, Metallica, Forbidden, Heathen, Exodus, Vio-lence, e afins.

Apesar de deixar suas influências mais latentes, e de apostar em um estilo que teve o seu auge décadas atrás, de forma alguma a música dos italianos soa como uma simples emulação, ou mesmo datada. O quarteto formado por Francesco Cremisini (vocal/guitarra), Matt Bellezza (guitarra), Andrea Pistone (baixo) e Fabio Migliori (bateria) consegue não só imprimir sua personalidade em cada uma das canções aqui presentes, como as faz soarem atuais. Imagine uma banda da Bay Area dos anos 80 lançando um álbum em 2019. Certamente soaria como o Enemynside.

Apostando em canções velozes, com riffs pesados, agressivos, boas melodias e uma bateria avassaladora, entregam um trabalho bem homogêneo, com músicas que conseguem manter um bom nível de qualidade. Faixas como “Faceless”, “Black Mud”, e “System Failure” primam pelos riffs de qualidade e pelo vigor, enquanto “The Terror” e “Shitstorm” esbanjam força e boa técnica. “Deadline” se mostra mais variada e com um bom solo, e “No God in Kolyma” é verdadeiramente estrondosa. Mas os grandes destaques do álbum ficam por conta de “Suffered Defeat”, forte, técnica e altamente enérgica, e “Frozen Prison Cell”, feita sob medida para se bater cabeça.

Gravado no 16th Cellar Studios, com todo o processo de produção, mixagem e masterização capitaneados por Stefano Morabito (Ade, Decrepit Birth, Fleshgod Apocalypse, Theatres des Vampires), conseguiram um resultado muito bom, já que a sonoridade soa clara, limpa, moderna, mas ainda sim pesada, agressiva e longe de soar artificial. Já a belíssima capa, que deixa bem claro o conteúdo do álbum, é obra de Mario Lopez (Evil Invaders, Fabulous Desaster, Skeletal Remains, Them). O Enemynside não revoluciona o estilo, já que se utiliza de uma fórmula que já foi massificada, mas consegue dar uma cara própria a sua música, e com peso, riffs afiados, bateria veloz e energia de sobra, vai agradar em cheio aos fãs de Thrash, que terão torcicolo de tanto bater cabeça.

NOTA: 81

Enemynside é:
- Francesco Cremisini (vocal/guitarra),
- Matt Bellezza (guitarra),
- Andrea Pistone (baixo),
- Fabio Migliori (bateria)

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terça-feira, 7 de abril de 2020

Chelsea Wolfe - Birth of Violence (2019)


Chelsea Wolfe - Birth of Violence (2019)
(Sargent House – Importado)


01. The Mother Road
02. American Darkness
03. Birth of Violence
04. Deranged for Rock & Roll
05. Be All Things
06. Erde
07. When Anger Turns to Honey
08. Dirt Universe
09. Little Grave
10. Preface to a Dream Play
11. Highway
12. The Storm

Apesar de não se enquadrar estilisticamente dentro do Heavy Metal, Chelsea Wolfe sempre chamou a atenção daqueles bangers mais afeitos a sonoridades soturnas e melancólicas, já que suas canções sempre foram perpassadas por um clima sombrio e escuro. Seus dois últimos álbuns, os ótimos Abyss (15) e Hiss Spun (17) reforçaram ainda mais essa tendência, dado o maior peso que foi incorporado aos mesmos, que em alguns momentos, chegam a beirar o Doom no que tange o instrumental. Sendo assim, existia uma expectativa maior a respeito de seu novo trabalho de estúdio, e da direção que sua música tomaria com Birth of Violence.

Após o lançamento de Hiss Spum, se seguiu uma estafante turnê, que levou Chelsea ao seu limite. Esgotada, optou por se isolar de todo o mundo, em sua casa no norte da Califórnia, e foi durante esse período que se deu todo o processo de composição e gravação de Birth of Violence. Após tamanha intensidade nos últimos anos, Wolfe optou por seguir um caminho mais introspectivo, mergulhando fundo em seu lado mais Folk, apresentando um trabalho que remete mais ao seu passado do que o presente recente. Mas não pense que por seguir uma linha mais acústica, que isso torna seu trabalho mais acessível, porque nada pode ser mais enganoso que isso.


Birth of Violence é um trabalho denso, e seu peso se encontra no clima opressivo que ele acaba por gerar. O violão é o elemento central das canções, mas ele vem muito bem acompanhado do piano, sintetizadores e belos arranjos de cordas. Os vocais de Chelsea estão simplesmente maravilhosos, soam etéreos e dão um ar ainda mais transcendental as canções. Tudo isso junto, em muitos momentos, passa uma sensação ritualística ao ouvinte, e torna a audição uma experiência reflexiva, quase espiritual. Melodias simples se unem a arranjos sofisticados e a altas doses de melancolia, dando não só um clima bem escuro as canções, como também as torna um tanto quanto poéticas. É uma beleza capaz de entorpecer o ouvinte, o fazendo mergulhar profundamente em seu interior. Birth of Violence te faz refletir sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta.

A dinâmica e profunda “The Mother Road”, é uma espécie de Folk Atmosférico, que me remeteu aos momentos mais acústicos do Led Zeppelin, sendo seguida de “American Darkness”, uma canção sombria e assustadora, que soa como um retrato perfeito do álbum. Os sintetizadores, bem encaixados, dão um ar de escuridão a obra. “Birth of Violence” é muito densa e tem uma profundidade que vai além das demais músicas, pois Chelsea trabalha muito bem a dualidade luz/escuridão, algo que ela faz como poucos artistas nesse mundo. “Deranged for Rock & Roll” foge um pouco do Folk e soa levemente mais pesada, com os sintetizadores e vocais dando intensidade a mesma. “Be All Things” soa altamente melancólica e emotiva, enquanto “Erde” tem uma aura perturbadora e assustadora, com destaque para os vocais de Wolfe. “When Anger Turns to Honey” possui melodias bem delicadas e um ar sombrio; “Dirt Universe” soa triste e tem um certo psicodelismo presente; “Little Grave” tem uma atmosfera de fragilidade, sendo muito emocional. “Preface to a Dream Play” é hipnótica, e apesar de sua suavidade aparente, consegue soar bem assustadora. “Highway” é uma dessas canções onde a tristeza é pungente e transborda por todos os lados, e “The Storm” é o epílogo perfeito para o trabalho, já que se trata exatamente disso, o som da tempestade caindo.


Como de praxe, a produção ficou a cargo de Ben Chisholm e de Chelsea, com mixagem do primeiro e masterização realizada por Heba Kadry (The Body, Wrekmeister Harmonies). O resultado é ótimo, já que permite escutar cada mínimo detalhe das canções, mas sem as deixar polidas em excesso. Já a foto que ornamente a capa, é de Nona Limmen. Wolfe é uma artista única na atualidade, e sua sonoridade não encontra muitos paralelos em outros artistas. Sua música é uma espécie de pintura que retrata o lado mais obscuro do ser humano, e mesmo quando a leva mais para o Folk, consegue manter a intensidade e uma violência quase opressiva, provando que não se necessita de guitarras para que um trabalho seja pesado. O peso aqui totalmente emocional, e fustiga fundo em nossas almas. Birth of Violence é Chelsea Wolfe em seu estado mais bruto.

NOTA: 91

Chelsea Wolfe é:
- Chelsea Wolfe (vocal, violão)
-  Ben Chisholm (demais instrumentos)

Musicos convidados:
- Jess Gowrie (bateria nas faixas 1, 2, 4, 6, 8 e 10)
- Ezra Buchla (viola nas faixas 1, 2, 5 e 9)

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Doom:VS - Earthless (2014/2019)


Doom:VS - Earthless (2014/2019)
(Solitude Productions/Cold Art Industry - Nacional)

01. Earthless
02. A Quietly Forming Collapse
03. White Coffins
04. The Dead Swan of the Woods
05. Oceans of Despair
06. The Slow Ascent

Se o Doom Metal já é um estilo difícil para alguns, dada as suas características como o andamento mais lento, uma certa tendência a soar repetitivo e depressivo, imagine só o Funeral Doom, com seu ritmo ainda mais arrastado e todo o clima de tristeza e desesperança que traz junto de si. Dito isso, fica muito claro que o Doom:VS não é uma banda indicada para os que não apreciam esse estilo tão maldito. Para quem não conhece, se trata de um projeto paralelo do guitarrista do Draconian, Johan Ericson, e Earthless, lançado em 2014, é seu 3º e mais recente álbum, que desde o ano passado está ao alcance dos fãs brasileiros, através de um relançamento da Cold Art Industry.

Vindo de 2 trabalhos que são considerados clássicos do estilo - Aeternum Vale (06) e Dead Words Speak (08) -, a missão de Earthless era um tanto ingrata, já que deveria ao menos manter o nível de seus antecessores. Pois bem! Para Johan Ericson, missão dada é missão cumprida. Fugindo da armadilha da repetição excessiva, ele consegue imprimir boa variedade as canções, que apesar de bem pesadas, possuem ótimas melodias. Os vocais guturais ficaram a cargo de Thomas A.G. Jensen, do Saturnus, com Johan fazendo os vocais limpos. Esses, quando surgem, são muito bem encaixados, e acabam enriquecendo o trabalho. O trabalho de guitarra é não menos do que espetacular, sendo a grande força motriz de Earthless. Os riffs lentos, sombrios e gélidos, as melodias melancólicas, tudo isso penetra fundo na alma do ouvinte, suga toda a sua alegria, espalhando tristeza e devastação por todos os lados.

O piano na abertura de “Earthless” dá ao ouvinte uma ideia do que ele encontrará pela frente. Paisagens escuras e fortes emocionalmente, daquelas capazes de exterminar a esperança dos mais otimistas, tomam conta de toda a canção, graças as ótimas e sombrias melodias despejadas pelas guitarras. A bateria pesada e lenta ajuda muito nessa percepção. A devastação continua com a desoladora “A Quietly Forming Collapse” e seus riffs pesados, e a fria “White Coffins”, de causar arrepios em qualquer amante de Funeral Doom. “The Dead Swan of the Woods” é carregada de melodias sombrias e ótimos riffs; “Oceans of Despair” soa assombrosa, com destaque para os vocais limpos, muito bem colocados, e “The Slow Ascent” encerra o álbum com ótimas guitarras e exalando melancolia por todos os poros.

Gravado no Dead Dog Farm Studios, em Säfle, na Suécia, teve todo o seu processo de produção realizado pelo próprio Johan Ericson, com resultados mais do que condizentes com o estilo, já que apesar de estar tudo claro e limpo, não ficou polido demais, mantendo assim aquela aura de melancolia e desespero que a música pede. Como já dito, Earthless é um trabalho com forte carga emocional, desses capazes de penetrar fundo no inconsciente do ouvinte, invadindo regiões ainda inexploradas e colocando para fora aquela tristeza que é inerente a todo ser humano, mas que muitos, às vezes até de forma inconsciente, optam por esconder, fingindo felicidade. Relembrando que ano passado o álbum foi relançado em versão nacional pelas mãos da Cold Art Industry, limitado a apenas 300 cópias. Uma aquisição obrigatória para qualquer fã do estilo.

NOTA: 89

Formação:
– Johan Ericson (todos os instrumentos e vocais limpos)

Participação especial:
– Thomas A.G. Jensen (vocais guturais)

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Cold Art Industry

Biff Byford - School of Hard Knocks (2020)


Biff Byford - School of Hard Knocks (2020)
(Silver Lining Music/Hellion Records - Nacional)


01. Welcome to The Show
02. School of Hard Knocks
03. Inquisitor
04. The Pit and The Pendulum
05. Worlds Collide
06. Scarborough Fair (Simon & Garfunkel cover)
07. Pedal to The Metal
08. Hearts of Steel
09. Throw Down the Sword (Wishbone Ash cover)
10. Me and You
11. Black and White

O status de lenda que Biff Byfford possui é indiscutível, e os mais fanáticos por determinada donzela que me perdoem, mas se tem uma voz que representa a NWOBHM em toda a sua essência, essa é a dele. Dada toda a sua importância e carreira frente ao Saxon, é surpreendente que seu primeiro álbum solo tenha demorado mais de 40 anos para ser lançado. O momento para isso é bem sintomático, já que ano passado o vocalista descobriu uma doença cardíaca e teve que passar por uma operação de emergência.

School of Hard Knocks é uma expressão idiomática que se refere ao conhecimento que adquirimos com as dificuldades que vivemos em nossa existência. É a famosa “escola da vida”, aquelas coisas que você não aprende na educação formal, mas apenas tomando as pancadas diárias que a existência nos proporciona. Um título perfeito para um trabalho onde Biff Byford não só reflete sobre a sua vida e experiências, como também fala um pouco da história do norte da Inglaterra, região onde nasceu, cresceu e vive. Musicalmente, por mais que em muitos momentos ele finque os pés de maneira firme naquela sonoridade clássica do Saxon, não tem medo de arriscar e sair dessa fórmula padrão, expandindo as fronteiras de sua música. Para isso, se cercou de músicos de inegável talento, contando com o apoio do guitarrista Fredrik Åkesson (Opeth), o baixista Gus Macricostas (ex-Battleroar) e o baterista Christian Lundqvist (The Poodles), além das participações especiais do guitarrista Phil Campbell (Motörhead, Phil Campbell & The Bastard Sons), do baixista Nibbs Carter (Saxon), do tecladista Dave Kemp (Wayward Sons) e dos bateristas Alex Holzwarth (Rhapsody of Fire and Turilli / Lione Rhapsody) e Nick Barker (Brujeria, ex-Cradle of Filth, ex-Dimmu Borgir).


O álbum abre com a ótima e animada “Welcome to the Show”, que certamente vai fazer a alegria dos fãs de Saxon. Na sequência, ainda nessa mesma vibe, temos “School of Hard Knocks”, que conta com Phil Campbell na guitarra, além de ótimos riffs e solo, e um refrão que pega fácil. Após uma breve vinheta acústica, intitulada “Inquisitor”, Biff mostra que não tem medo de experimentar, e se envereda pelos lados do Prog Metal, com a pesada “The Pit and The Pendulum”, recheada de boas harmonias e mudanças de tempo, e a intensa “Worlds Collide”, outra que se destaca pelo peso dos riffs, além de possuir um ótimo solo. Em ambas, a parte rítmica é formada por Nibbs Carter e Nick Barker. “Scarborough Fair” é uma antiga música folclórica de Yorkshire, que ganhou fama com a dupla Simon & Garfunkel. Biff faz um ótimo trabalho, com destaque para a parte vocal, que transmite muita emoção. A direta e intensa “Pedal to The Metal”, com participação do baterista Alex Holzwarth, soa como um encontro entre Saxon e Judas Priest, enquanto “Hearts of Steel” poderia estar em qualquer trabalho da banda de Bifford nos anos 80. “Throw Down the Sword”, cover do Wishbone Ash – uma banda que se o leitor não conhece, vale a pena correr atrás –, se destaca principalmente pelas ótimas melodias, enquanto a balada “Me and You” se mostra introspectiva e agridoce. Encerrando, temos a pesada e cadenciada “Black and White”.

Não se limitando a fazer o usual, e explorando novos territórios, Biff Byford entrega um trabalho que prima pela solidez e por divertir o ouvinte. Os fãs de Saxon certamente não irão se decepcionar, já que vários são os momentos de conexão com a banda, mas School Of Hard Knocks não é indicado apenas para esses, mas sim para todos que amam boa música. Na escola da vida e do Heavy Metal, Biff Byfford é daqueles professores com pós-doutorado, com muito a ensinar aos que estiverem dispostos a aprender.

NOTA: 88

Formação:
Biff Byford (vocal/guitarra)
Fredrik Åkesson (guitarra)
Gus Macricostas (baixo)
Christian Lundqvist (bateria)

Participações especiais:
Phil Campbell (guitarra na faixa 2)
Nibbs Carter (baixo nas faixas 4 e 5)
Nick Barker (bateria nas faixas 4 e 5)
Alex Holzwarth (bateria na faixa 7)
Dave Kemp (teclado e sax na faixa 10)

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Ozzy Osbourne - Ordinary Man (2020)

Ozzy Osbourne - Ordinary Man (2020)
(Epic Records - Importado)


01. Straight to Hell    
02. All My Life
03. Goodbye
04. Ordinary Man (Feat. Elton John)
05. Under the Graveyard    
06. Eat Me
07. Today Is the End        
08. Scary Little Green Men
09. Holy for Tonight
10. It's a Raid (Feat. Post Malone)
11. Take What You Want (Feat. Post Malone & Travi$Scott)

2019 não foi um ano fácil para Ozzy Osbourne. Problemas de saúde o deixaram fora de combate, causando o cancelamento de todos os seus shows programados, e o impedindo de fazer o que mais gosta, estar no palco. Para agravar mais a situação, logo no início de 2020, a notícia de que havia sido diagnosticado com Parkinson. Foi dentro desse contexto tão pesado, que ainda em 2019, sua filha Kelly chegou até ele, perguntando o que ele achava de gravar uma música com o rapper Post Malone. Essa união, a princípio bem esquisita, acabou sendo amarrada pelo produtor de Post, Andrew Watt, e resultou na música “Take What You Want”, que também contou com a participação de outro rapper, Travi$Scott. Pela primeira vez em 30 anos, um single contando com Ozzy, voltou a figurar no Top 10 da Billboard.

Voltar a ter esse contato com a música reacendeu a chama em Ozzy, que após conversar com Andrew Watt, resolveu entrar em estúdio e gravar um álbum. Antes de tudo, preciso abrir um parêntese aqui. Ao leitor, pode causar certa estranheza o fato de um produtor de artistas pop tenha participado desse processo, mas nem tudo é o que parece. Apesar de nos últimos 5 anos vir trabalhando com artistas como Justin Bieber, Selena Gomez, Camila Cabello, Cardi B, Lana Del Rey, e vários outros nomes famosos do mundo Pop, sua carreira começou no Rock. Aos mais esquecidos, Andrew era o guitarrista do California Breed, projeto capitaneado por ninguém menos que Gleen Hughes e Jason Bonhan, e que lançou um ótimo álbum autointitulado em 2014. Nele, além de mostrar um talento absurdo, apesar da relativa pouca idade (tinha apenas 23 anos), mostrava possuir influências de nomes clássicos da história da música pesada, como Hendrix, Page, dentre outros. Essa informação pode ajudar a entender muito do que acabamos por escutar em Ordinary Man, o 12º trabalho de inéditas do Príncipe das Trevas, que surge após um hiato de 10 anos.

Para a gravação de Ordinary Man, o Madman em vez de trazer sua banda para o estúdio, resolveu se cercar de bons amigos. Sendo assim, as guitarras ficaram a cargo de Andrew, o baixo foi todo gravado por Duff Mckagan e a bateria por Chad Smith. Amigos de peso, não é? Não satisfeito, ainda convidou Slash, Elton John, Tom Morello e Post Malone, para participações especiais. Convenhamos, não é uma mistura das mais homogêneas, mas o resultado acabou sendo surpreendentemente bom. Musicalmente, temos uma viagem por toda a carreira de Ozzy, partindo do Sabbath setentista, passando por sua carreira solo, e terminando no ponto onde 13 – o último trabalho do Black Sabbath – parou. Fora isso, em algumas canções, sua música é transposta para os dias de hoje, com um toque mais moderno na produção.


A abertura se dá com a já conhecida “Straight to Hell”, pesada, com bons riffs, refrão forte e que fecha com um ótimo solo, cortesia de Slash. “All My Life” é densa e tem guitarras bem pesadas, além de um refrão bem fácil de pegar, sendo seguida pela igualmente densa e sabbathica “Goodbye”. Sinceramente, para reclamar de “Ordinary Man”, a pessoa tem que estar de muita má vontade. Reflexiva e melancólica, e uma das baladas mais bonitas do álbum, e a participação especial de Elton John só deixou tudo melhor. Destaque para os dois belos solos de Slash. “Under the Graveyard” é uma semibalada muito bonita, e que poderia estar no 13 sem qualquer estranhamento. “Eat Me” é forte, pesada, bem grooveada e com uma pegada bem moderna, além de ser bem legal;

“Today Is the End” é mais cadenciada e densa, e sinceramente, não empolga, sendo um dos pontos fracos do álbum, enquanto “Scary Little Green Men” volta a elevar a qualidade, apesar de soar um pouco mais atual, muito disso devido ao bom trabalho de guitarra. “Holy for Tonight” é outra bonita balada, com um ar bem saudosista, com uma bela melodia, corais e um solo bem legal. Tem algo dos anos 70 aqui, mas trazido para os dias de hoje pela produção. A sequência final conta com a veloz e pesada “It's a Raid”, com suas guitarras distorcidas e participação de Post Malone nos vocais, algo que não atrapalha em nada a canção, por mais que também não acrescente nada, e a culpada por Ordinary Man existir, “Take What You Want”, música de Malone que foi responsável por Ozzy e Andrew se aproximarem. Só isso justifica sua presença aqui, pois musicalmente ela soa totalmente deslocada de todo o contexto do álbum.

Se você é fã da carreira de Ozzy Osbourne, esse é um álbum feito sob medida para você, dada as diversas referências contidas nele a carreira do Madman, tanto no período do Black Sabbath quanto na sua fase solo. Nesse ponto, o fato de Andrew ter não só produzido o trabalho, como também co-escrito, com a ajuda de Ozzy, Duff e Chad, ajudou muito no resultado, já que fez com que o Príncipe das Trevas saísse de sua zona de conforto dos últimos trabalhos. É o melhor álbum de sua profícua carreira? Sinceramente não, mas é digno de toda a sua importância na história da música pesada, e se significar o final de sua caminhada musical – ao menos em estúdio -, terá sido um belo ponto final!

NOTA: 84

Formação:
- Ozzy Osbourne (vocal)
- Andrew Watt (guitarra)
- Duff McKagan (baixo)
- Chad Smith (bateria)

Participações especiais:
- Slash (guitarra nas faixas 1 e 4)
- Tom Morello (guitarra na faixa 8)
- Elton John (vocal e piano na faixa 4)
- Post Malone (vocais nas faixas 10 e 11)
- Travis Scott (vocal na faixa 11)
- Charlie Puth (teclado na faixa 1)
- Nathan Perez (teclados nas faixas 5 e 8)
- Louis Bell (teclado na faixa 10)

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Anvil - Legal at Last (2020)


Anvil - Legal at Last (2020)
(AFM Records - Importado)


01. Legal at Last
02. Nabbed in Nebraska
03. Chemtrails
04. Gasoline
05. I'm Alive
06. Taking to the Wall
07. Glass House
08. Plastic in Paradise
09. Bottom Line
10. Food for the Vulture
11. When All's Been Said and Done
12. No Time (bonus track)

Lá se vão 42 anos de história – desde que surgiram com o nome de Lips, em 1978 –, e uma carreira marcada pela resiliência. Forjado no fogo do Hard’n’Heavy, através das mãos de Steve "Lips" Kudlow (vocal/guitarra) e Robb Reiner (bateria), o canadense Anvil lutou contra todas as adversidades possíveis, e forte como o aço, nunca renunciou a suas convicções musicais. O documentário Anvil! The Story of Anvil, de 2009, mostrou a todos que a vida nunca foi um mar de rosas para a banda, mas, ao mesmo tempo, ajudou a popularizar o seu nome, os colocando finalmente na posição de destaque que sempre mereceram. Desde então, o trio – completado atualmente pelo baixista Chris Robertson -, lançou quase um álbum a cada 2 anos.

Inevitavelmente, dado o curto espaço entre os lançamentos, e ao fato de dificilmente o Anvil mudar sua sonoridade, uma variação de qualidade acabou ocorrendo entre os trabalhos, e por mais que nenhum deles tenha sido efetivamente fraco, alguns não empolgaram tanto os fãs. Agora, com seu 18º álbum de estúdio, Legal at Last, o trio canadense quer mostrar que ainda continua forte, e que as décadas de carreira não foram o suficiente para arrefecer a paixão que possuem pelo Metal. Como já dito, não se trata de uma banda de ousar muito em sua sonoridade, então espere apenas o Anvil sendo Anvil, apresentando um Hard/Heavy com pitadas de Speed, pesado, básico e muito bem-feito. É mais do mesmo? Sim, mas não é exatamente isso que seus fãs esperam escutar?

O álbum abre a velocidade do som, com a rápida e pesada “Legal at Last”, onde flertam fortemente com o Speed e o Motörhead. Na sequência, a pesada e cativante “Nabbed in Nebraska”, dessas canções moldadas para você cerrar o punho e cantar junto o refrão. Destaque para o ótimo trabalho da parte rítmica. Com as guitarras permanentemente plugadas no talo, voltam a acelerar com a forte “Chemtrails”, sendo seguida pela cadenciada “Gasoline”, onde a guitarra de Lips não nega a influência de Black Sabbath em momento algum. Um álbum do Anvil não é um álbum do Anvil, se não tiver uma daquelas músicas que escancara tanto as influências da banda que chega a soar como um plágio. Sendo assim, tente não pensar em “Cat Scratch Fever'”, de Ted Nugent, ao escutar o riff da rocker e divertida “I'm Alive”. Lips deveria pagar royalties por essa. 



“Taking to the Wall” é uma das canções mais pesadas do álbum, e chega com a força de um juggernaut, passando por cima de tudo; “Glass House” possui um dos melhores riffs de todo trabalho e um ótimo refrão, mas falta um pouco de força nos vocais, enquanto “Plastic in Paradise” é outra a contar com riffs sabbathicos. “Bottom Line” esbanja energia, e tem alguns ecos de Motörhead aqui e ali, algo que também podemos observar na ótima “Food for the Vulture”, uma dessas canções 100% Anvil, e que deixa escancarado o DNA da banda. A idolatria pelo Black Sabbath se mostra mais forte do que nunca em “When All's Been Said and Done”, penúltima faixa do trabalho, que encerra com uma faixa bônus, “No Time”, veloz, rápida e verdadeiramente empolgante.

No quesito produção, mais uma vez a banda voltou a trabalhar com a dupla Martin "Mattes" Pfeiffer e Jörg Uken (responsável pela mixagem), com resultados muito bons, já que tudo ficou muito claro e audível. Alguns fãs mais antigos se incomodam com tamanha polidez, e certamente preferiam um som um pouco mais sujo, mas sinceramente, não penso que esse seja um fator comprometedor. A capa, em parte inspirada no fato do Canadá ter modificado a sua legislação com relação a maconha, em parte querendo dizer que hoje em dia não tem mais nada de errado em gostar de Anvil, é obra de W. Cliff Knese. Sem inventar, Lips e cia entregam o esperado, através de um Heavy Metal básico, pesado, simples e enérgico. Se você é fã, não tem erro, pode quebrar seu cofre, contar libra por libra, e adquirir esse trabalho para sua coleção, mas se você faz parte daquela turma que reclama do trio lançar sempre o mesmo álbum, não existe absolutamente nenhuma alternativa que não seja passar longe de Legal at Last. É o Anvil sendo Anvil, e isso já basta!


NOTA: 85

Anvil é:
- Steve "Lips" Kudlow (vocal/guitarra)
- Chris Robertson (baixo)
- Robb Reiner (bateria)


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Chacina - Mortus Operandi (2019)


Chacina - Mortus Operandi (2019)
(Heavy Metal Rock - Nacional)


01. Sequestro
02. Mariana
03. Somos todos iguais
04. Hit
05. Pastor
06. Podres Poesias
07. Na Alma
08. Estado Islâmico (bônus track)

Fazer Metal no Brasil nunca foi fácil, e a carreira da Chacina é um reflexo disso. Surgida na cidade de Piracicaba/SP, no ano de 1990, lançaram algumas demos com o decorrer dos anos, até que em 2005, resolveram pausar as atividades. Seguiu-se então um hiato de 9 anos, até que em 2014 resolveram voltar a se reunir. Em 2015 lançaram o EP Gaza, com 3 faixas, e após 4 anos, finalmente conseguiram, merecidamente, soltar seu primeiro álbum completo de estúdio, Mortus Operandi. Musicalmente, se enveredam pelo Thrash Metal/Crossover, e certamente vão agradar em cheio aos fãs de nomes como Nuclear Assault, Hirax, Overkill, Exodus ou Municipal Waste.

Umas das coisas mais legais aqui, é que apesar de apostarem em uma proposta mais old school, em momento algum a música da Chacina soa datada, já que eles conseguem atrazer para os tempos atuais, modernizando a mesma sem que para isso tenham que abrir mão das suas características básicas. Os vocais de Allan Big Thunder se mostram bem variados e insanos, como o estilo pede, enquanto a guitarra de Miguel Araújo nos entrega ótimas linhas e riffs verdadeiramente pesados e furiosos. Quanto a parte rítmica, com o baixista Jeferson Novaes e o baterista Billy Dark Machine, mostram boa técnica e imprimem um peso verdadeiramente opressor as canções. Em suma, temos aqui tudo que um fã do estilo procura em um CD.


“Sequestro” abre o álbum com vocais agressivos e riffs raivosos, sendo seguida pela intensa “Mariana”, que trata do desastre ambiental e humano ocorrido na cidade mineira. Aliás, cabe dizer que liricamente a banda não alivia para ninguém, com letras bem ácidas e críticas. O trabalho tem sequência com a mais cadenciada e direta “Somos todos iguais”, e com a veloz e agressiva “Hit”, que se destaca pelos riffs de qualidade. Nessa mesma pegada, temos “Pastor”, onde os vocais agressivos de Allan assumem uma posição de destaque. A pesada “Podres Poesias” traz a cadência de volta, e “Na Alma” é daquelas canções forjadas sob medida para você sair batendo cabeça pela sala. Encerrando, a ríspida e nervosa “Estado Islâmico”.

Todo processo de produção ficou a cargo de Renato Napty (Lethal Fear, Ivory Gates, The Goths), com um resultado muito bom, já que deixou tudo bem claro e audível, mas mantendo a agressividade e organicidade. A capa é obra de Danilo de Almeida, e reflete muito bem o conteúdo lírico do álbum. Se você é fã de Thrash/Crossover, Mortus Operandi com certeza será um belo acréscimo a sua coleção, mas se prepare, porque depois de tanto bater cabeça, certamente precisará ou do telefone de um ortopedista, ou de uma cartela de relaxante muscular, pois seu pescoço estará moído.

NOTA: 84

Chacina é:
- Allan Big Thunder (vocal)
- Miguel Araujo (guitarra)
- Jeferson Novaes  (baixo)
- Billy "Dark Machine" (bateria)

Participação:
- Ricky Furlani (guitarra)

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Sepultura – Quadra (2020)


Sepultura – Quadra (2020)
(Nuclear Blast/BMG - Nacional)


01. Isolation
02. Means To An End
03. Last Time
04. Capital Enslavement
05. Ali
06. Raging Void
07. Guardians Of Earth
08. The Pentagram
09. Autem
10. Quadra
11. Agony Of Defeat
12. Fear, Pain, Suffering, Chaos

Pode-se dizer que hoje existem dois tipos de fãs do Sepultura, e que vivem em lados opostos. De um, temos aqueles que não abandonaram a banda em momento algum, mesmo naqueles mais delicados. Até podem ser críticos quanto a certos lançamentos realizados, mas nunca viraram as costas ao quarteto. Do outro temos as, desculpe o termo, “Viúvas dos Cavalera”. Esse grupo optou por deixar a banda de lado após a saída de Max, e o lançamento dos primeiros álbuns com Derrick Green, alegando que sem ele, perderam a lógica de existir, crítica que se maximizou após a partida de Igor em 2006, para tocar com seu irmão. Para eles, o Sepultura deveria ter deixado de existir. Sinceramente, tenho minha opinião bem formada a respeito disso, mas de forma alguma vou julgar quem faz parte de um ou outro grupo.

Mas independente do grupo que você, fã de encaixa, uma coisa não dá para discutir: a importância do Sepultura para a história do Heavy Metal mundial. São 36 anos de vida, e álbuns do calibre de Schizophrenia (87), Beneath the Remains (89), Arise (91) e Chaos A.D. (93), todos com seu espaço cativo entre os melhores trabalhos de Thrash Metal de todos os tempos. Se após 1998 a carreira começou a capengar graças a alguns lançamentos discutíveis -– fosse pela qualidade da música, fosse por escolhas erradas de produtores -–, a partir de Dante XXI (06), e principalmente A-Lex (09), as coisas começaram a entrar lentamente nos eixos novamente, e se acertaram de vez com Kairos (11). Desde então a banda vêm em uma ascendente constante no que tange a qualidade dos seus lançamentos.

Machine Messiah (17) já havia me impressionado bastante, dada sua qualidade, criatividade e grandiosidade, o que me deixou curioso para saber como, e se, conseguiriam superá-lo. Pois bem! Agora com Quadra, seu 15º álbum de estúdio, não só eu, como os demais fãs de Metal pelo mundo têm essa resposta. Antes de tudo, cabe lembrar que o Sepultura tem como traço marcante em sua história, a inquietude e o inconformismo. Nunca em toda a sua carreira, se acomodaram, e álbum após álbum, independente de fase, sempre procuraram crescer, mudar, inovar. Se até o lançamento de Arise isso funcionou com perfeição, de Chaos A.D. em diante, passou a ser questionado por fãs. Nesse ponto, entra uma questão de gosto pessoal, de você ser mais tradicionalista quanto a música, ou ser desses com uma amplitude musical maior. Vai realmente da individualidade de cara um, e não muda o fato que o Sepultura sempre buscou o caminho mais difícil, abrindo mão da sua zona de conforto, e nunca parando no tempo.


Apesar de liricamente Quadra não se tratar de um trabalho conceitual, musicalmente suas 12 canções se dividem em 4 blocos de 3, que podem ser percebidos com certa facilidade pelo ouvinte. Da faixa 1 até a 3, temos aquele Sepultura mais Thrash, raivoso, enquanto entre a 4 e a 6, escutamos um pouco daquela fase mais percussiva da banda, que se iniciou em Chaos A.D.. Da 7 até a 9, observamos uma banda mais experimental, mais focada no instrumental e sim, com uma influência de Progressivo mais latente, e a partir de faixa 10, escutamos uma banda mais “calma”, mais lenta, com um foco maior no sinfônico e nas melodias. Lendo assim, pode parecer que o álbum se tornou uma colcha de retalhos, mas existe um fio condutor que une todas as partes, que é o Thrash/Groove da banda, que em momento algum deixa de se fazer presente, trazendo peso e agressividade para cada uma das músicas aqui. Isso acaba dando um sentido de unidade absurdo ao álbum, fazendo que o ouvinte consiga se sentir identificar com qualquer um desses segmentos de Quadra.

Individualmente, todos os músicos conseguem brilhar. Sinceramente, não consigo enxergar onde mais as pessoas possam encontrar motivos para criticar a voz de Derrick Green. A cada lançamento ele se supera, mostrando uma gama vocal cada vez maior. A variedade que ele consegue imprimir impressiona qualquer um que se permita escutar o álbum sem aquele preconceito bobo por ele não ser Max Cavalera, além de permitir o Sepultura explorar mais os seus limites. Andreas Kisser resolveu reabrir de vez sua caixa de riffs marcantes, algo que já havia sido observado em Machine Messiah, e que aqui se consolida definitivamente. Sua capacidade nunca foi discutida, mas que ele havia se acomodado por alguns anos isso é indiscutível. Que bom que ele está de volta, e não apenas reciclando riffs de trabalhos anteriores, como o fez por uns anos. Como costumo dizer, Paulo Jr é Paulo Jr, e ele entrega o trabalho consistente de sempre, mas é inegável que desde que Eloy Casagrande entrou na banda, puxou Paulo com ele. Por sinal, Eloy é um caso a parte. O que ele faz é sobre-humano, não tem explicação, e mais uma vez ele é brilhante. Sua amplitude musical é absurda, e sinceramente, nem dá para sentir falta de Igor nesse quesito.



Agora vamos às músicas, o foco principal de tudo aqui. Não se deixe enganar pela introdução orquestrada e com corais, pois quando começa, “Isolation” é uma verdadeira paulada Thrash/Groove. Intensa, direta, com vocais brutos, riffs ferozes e um trabalho brilhante de bateria, é desde já uma das candidatas do álbum a se tornarem clássicas. Esse lado mais feroz continua presente em “Means To An End”, altamente enérgica e com um ótimo trabalho de guitarra, e em “Last Time”, bruta, densa, com uma variedade de tempo bem interessante, e até mesmo partes orquestrais que foram muito bem encaixadas. “Capital Enslavement” traz aquelas batidas tribais que vão remeter o ouvinte ao passado da banda, além de possuir um ótimo groove e riffs bem fortes. É dessas músicas moldadas para fazer você sair batendo cabeça. “Ali” é extremamente variada e desafiadora, e se destaca não só por isso, mas também pelos riffs pesados e pelo trabalho vocal de Derrick. “Raging Void” encerra a primeira metade do álbum com um ritmo mais dissonante, bom groove, e ótimo trabalho percussivo.

A segunda metade abre com a espetacular “Guardians Of Earth”, que de cara pode fazer o ouvinte se recordar da clássica “Kaiowas”. Ela inicia com um violão, sendo acompanhada posteriormente por uma percussão tribal e um coral, até finalmente explodir em fúria com as guitarras e vocais furiosos. É diferente e ousada. É Sepultura. Outra canção que surpreende demais é a instrumental “The Pentagram”, dinâmica, intrincada e com guitarras fortes. “Auten” se destaca não só por suas inclinações progressivas, mas também pelo peso e pelo seu ar mais bruto. Além disso, tem um refrão forte e marcante. “Quadra” é quase que um interlúdio acústico, com seus apenas 47 segundos, onde Andreas mostra toda a sua conhecida habilidade ao violão. Ela prepara o terreno para as duas últimas canções do álbum. “Agony Of Defeat” não só possui um clima mais atmosférico, como apresenta boas melodias e belos corais, tudo sem abrir mão do peso. É nela também que Derrick mostra toda a sua variedade vocal. Encerrando, outro momento surpreendente, com “Fear, Pain, Suffering, Chaos”, que conta com a participação de Emmily Barreto, do Far From Alaska, dividindo os vocais com Derrick Green. Fora isso, esbanja peso nas guitarras, uma ótima bateria, e possui elementos atmosféricos que dão uma densidade extra para a canção.

Na produção, o onipresente, onipotente e onisciente Jens Bogren. Definitivamente, ele consegue tirar o melhor do Sepultura, e não me surpreende que depois de Machine Messiah, tenham optado por voltar ao Fascination Street Studios e trabalhar mais uma vez com ele. Tudo cristalino, limpo, e pesado, mas ainda sim soando vivo, sem o ar artificial e plastificado das produções modernas. Como Jens consegue? Bem, só perguntando a ele. Com muita competência, o Sepultura conseguiu fazer um álbum de Thrash/Groove simplesmente explosivo, onde esbanjam criatividade, e sem abrir mão do seu direito inalienável de experimentar e ousar. Se fossemos colocar as fases da banda lado a lado, poderíamos dizer que Quadra é o Chaos A.D. da atual formação, dado o seu nível de qualidade absurdo. É um segundo auge do Sepultura. Cabe agora aos fãs decidirem se continuam em sua zona de conforto, se prendendo a um passado que dificilmente retornará, ou aceitam a realidade. Os que optarem pela segunda, não vão se arrepender, pois, temos aqui desde já, um dos melhores álbuns de 2020.

NOTA: 9,2

Sepultura é:
- Derrick Green (vocal);
- Andreas Kisser (guitarra);
- Paulo Jr (baixo);
- Eloy Casagrande (bateria).

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Khorium - Idiocracia Tropical Contemporânea (2019)


Khorium - Idiocracia Tropical Contemporânea (2019)
(Independente- Nacional)

01. Intro (Terra Brasilis)
02. Resista
03. Quem é quem
04. Idiocracia Tropical
05. Ainda assim eu me levanto (Maya Angelou) feat. Fernanda Lira
06. Abordagem
07. Negue feat. Luan Haddad
08. Perdão
09. Silenciar

O Khorium é uma banda relativamente nova, já que surgiu no ano de 2017, na cidade de Volta Redonda. Apesar do pouco tempo de estrada, em 2018 lançou o EP Manual Prático do Brasil, que chamou a atenção do público e da mídia por sua qualidade, e que serviu para deixar aquele gosto de quero mais nos ouvidos dos amantes da música pesada. Musicalmente apresentam uma sonoridade que certamente vai desagradar os mais tradicionalistas, já que mesclam vocais rapeados com guitarras Thrash, baixo funkeado, bateria pesada e muito, muito groove. Para apimentar mais ainda, letras de uma acidez absurda, que não escondem a ideologia da banda, já que aqui não tem esse papo “isentão” de que não se mistura política com Heavy Metal.

O Khorium coloca o dedo com vontade na ferida purulenta que vem tomando conta de nossa sociedade, e isso já fica muito claro no título e na ilustração da capa. Glaydson Moreira se sai muito bem nos vocais, alternando momentos em que canta mais rapeado com outros mais agressivos e típicos das vertentes mais extremas do Metal. Ele também é o responsável pelas guitarras, que tem uma abordagem mais próxima do Thrash e do Crossover, apresentando riffs fortes e agressivos. Na parte rítmica, Roberto Bizarelo se destaca pelo seu baixo mais funkeado, enquanto a bateria de Shalon Webster imprime muito peso as canções. A dupla, com seu ótimo trabalho, é a base de toda a música do trio, dada sua capacidade dar aquele groove diferenciado as mesmas.


“Intro (Terra Brasilis)” serve quase como uma vinheta de apresentação, deixando claro ao ouvinte o que ele encontrará pela frente, do ponto de vista lírico. Na sequência, temos a grooveada “Resista”, onde os destaques ficam com o refrão e o bom trabalho das guitarras. “Quem é quem” pende mais para o Rapcore, apresentando guitarras pesadíssimas, e uma letra que é um verdadeiro tapa na cara de muitos por aí. “Idiocracia Tropical” tem aquele groove mais funkeado e bom peso, sendo seguida pela ótima “Ainda assim eu me levanto”, que conta com participação de Fernanda Lira (Nervosa), e tem sua letra baseada em uma tradução livre do poema “Still I Rise”, da americana Maya Angelou, pseudônimo de Marguerite Ann Johnson, escritora, poetisa e ativista pelos direitos das mulheres, negros e minorias. Se por algum motivo não conhece a vida de Maya, pesquise, pois, sua história não só é fascinante, como um exemplo de luta e resistência. “Abordagem” é uma canção densa, arrastada, e com uma letra fortíssima, abordando a questão do racismo no Brasil; “Negue”, com participação de Luan Haddad (Comboio Calibre) é outra onde as guitarras grooveadas se destacam, enquanto “Perdão” tem uma pegada mais Thrash. Finalizando, “Silenciar”, que apesar de ser a mais “calma” do álbum, não abre mão do peso.

A produção foi realizada pela própria banda, e tem qualidade, estando na média de boa parte das produções nacionais. É crua, mas ainda sim permite escutar com clareza todos os instrumentos, além de soar bem agressiva. Já a capa, uma das melhores de 2019, é obra de Rogério Fortes, e retrata com perfeição a realidade que vive o nosso país. Mostrando não ter medo de dizer o que pensa, e ajustando cada vez mais sua proposta sonora, o Khorium se candidata a ser uma força crescente do underground nacional nos próximos anos. Levante, resista, lute!

NOTA 82

Khorium é:
- Glaydson Moreira (vocal/guitarra)
- Roberto Bizarelo (baixo)
- Shalon Webster (bateria)

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