sexta-feira, 23 de julho de 2021

Heavy Smasher - Heavy Smasher (2021)

 


Heavy Smasher - Heavy Smasher (2021)
(Roadie Metal - Nacional)

01 - We Are Angels
02 - Heavy Smasher Sound
03 - Sunrise Rebel
04 - Clash of the Gods
05 - FireFight
06 - Face Up Reality
07 - In The Abyss
08 - Screaming All
09 - To Be Strong
 
Ser uma banda de Heavy Metal no Brasil não é fácil, por diversos fatores internos e externos da cena underground. Surgida no ano de 2013 em Fortaleza/CE, a Heavy Smasher passou por todas as agruras que boa parte das bandas independentes passam, até finalmente conseguir estabilizar sua formação, que hoje conta com Nildo Gomes (vocal), Nando Smasher e Diego Quântico (guitarras), Luis Paulo (baixo) e Bruno Rocha (bateria). Com um EP, “Smasher and Loud”, lançado em 2018 - mas gravado em 2016 -, a banda acaba de lançar seu primeiro full, tema dessa resenha.

Marcando a estreia da atual formação em estúdio, “Heavy Smasher” contém as 4 músicas lançadas originalmente em “Smasher and Loud”, “Heavy Smasher Sound”, “Clash of the Gods”, “Sunrise Rebel” e “Screaming All”, e que foram regravadas, além de outras 5 músicas inéditas compostas especialmente para o trabalho. Musicalmente, o que encontramos é uma banda com seus dois pés muito bem  fincados no Heavy Metal Tradicional, e com influências latentes de nomes como Judas Priest, Accept, Dio, Iron Maiden, Saxon e afins. Além disso, elementos de Hard Rock são inteligentemente inseridos aqui e ali, dando não só um tempero a mais à música do quinteto.

Com um Heavy Tradicional bem direto, e sem espaço para modernidades - mas faz-se necessário frisar, nada datado -, nos encontramos diante de um trabalho muito pesado, agressivo e que, apesar das influências latentes, não soa como cópia dos nomes citados no início, já que consegue transformar influência em identidade própria. Os vocais de Nildo Gomes se destacam pela força e por dar as canções, essa agressividade citada. A dupla de guitarristas formada por Nando e Diego são responsáveis não só por entregar riffs fortes, como também por alguns solos de muita qualidade. A parte rítmica, com Luís e Bruno se sai muito bem, dando peso e variedade as canções.


Quanto as músicas, são 9 canções que vão direto ao ponto, entregando tudo que um fã do estilo quer ouvir. Chama a atenção a capacidade da banda de forjar bons refrões, já que eles surgem por todos os cantos aqui, caso, por exemplo, da faixa de abertura, “We Are Angels”. “Heavy Smasher Sound”, a faixa seguinte, tem uma saudável pegada Hard, além de um belo solo, enquanto “Sunrise Rebel” entrega um bom trabalho das guitarras. “Clash of the Gods” se destaca principalmente pelo peso, e é outra que conta com um belo solo; “FireFight” empolga desde as primeiras notas, e certamente vai te fazer bater cabeça, e “Face Up Reality” conta com algumas passagens mais cadenciadas que são bem interessantes. Já “Into the Abyss” é a faixa “diferentona” do álbum, com uma introdução arrastada, que você esperaria vindo de uma banda de Doom Metal, e riffs totalmente calcados em Black Sabbath. Sem dúvida uma agradável surpresa. O trabalho se encerra com o Hard Rock de “Screaming All”, e com a pesada e forte “To Be Strong”.
 
Do ponto de vista da produção, o material na média que vemos nas boas produções brasileiras. Todos os instrumentos estão claros, pesados, e com uma certa crueza. Foi toda realizada por Taumaturgo Moura, no VTM Studio. Nesse quesito, por uma questão de gosto pessoal meu, penso que poderiam refinar um pouco mais a produção no próximo álbum, mas nada exagerado. Já a capa é obra de Leandro Cotta, e traz referências a cada uma das músicas do álbum, além de uma homenagem a um dos grandes nomes da história do Metal.

A Heavy Smasher é dessas bandas que opta por não reinventar a roda, e isso acaba sendo extremamente positivo. Praticando um Heavy Metal Tradicional consistente, maduro, e com uma cara própria, certamente vai agradar em cheio a todos os fãs do estilo. Uma boa estreia, que mostra que a banda está no caminho certo. Agora é só lapidar um pouco mais sua sonoridade, para logo estar brilhando no primeiro escalão do Heavy Metal Nacional.
 
Heavy Smasher é:
Nildo Gomes (vocal)
Nando Smasher (guitarra, vocal de apoio)
Diego Quântico (guitarra, vocal de apoio)
Luis Paulo (baixo, vocal de apoio)
Bruno Rocha (bateria)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Pérolas do Cancioneiro Popular: Pain of Salvation – One Hour by the Concrete Lake (1998)

 

Pain of Salvation - One Hour by the Concrete Lake (1998)
(InsideOut Music - Importado)

01.  Spirit of the Land
02.  Inside
03. The Big Machine
04. New Year's Eve
05. Handful of Nothing
06. Water
07. Home
08. Black Hills
09. Pilgrim
10. Shore Serenity
11. Inside Out

Você sabe que uma banda é realmente boa no que faz, quando ela consegue fazer uma pessoa que não é fã do estilo, gostar do seu trabalho. Esse é o caso do Pain of Salvation. Não escondo de ninguém que o Prog Metal está longe de ser um dos meus estilos preferidos, mas quando se trata de um álbum dos suecos, eu simplesmente me esqueço disso. A banda capitaneada pelo genial Daniel Gildenlöw sempre presenteia seus fãs com trabalhos ousados e brilhantes, por mais que em alguns casos, você precise de um pouco mais de tempo para se acostumar com a proposta de alguns álbuns.

“One Hour by the Concrete Lake” é um álbum conceitual, divido em 3 partes. Ele acompanha um homem que trabalha na indústria de armas, e que, após começar a questionar a moralidade do que faz, resolve deixar de ser uma engrenagem dessa grande máquina que controla a sua vida. Essa é a premissa da primeira parte, intitulada “Part of the Machine”, que vai de “Inside” até a “New Year's Eve”. Na segunda parte, “Spirit of Man”, que vai de “Handful of Nothing” até “Home”, ele viaja ao redor do mundo, descobrindo os efeitos que as armas que fabricou realmente tiveram. Além disso, presenciam a luta de índios nativos americanos para recuperar sua terra sagrada, roubada pelo colonizador branco, que não só retirou urânio de seu solo, como também despejou lixo radioativo no local. Na terceira parte, Karachay, que vai de “Black Hills” até “Inside Out”, ele chega no lago Karachay, em Kyshtym na ex-URSS. Nesse local, tanto lixo nuclear foi despejado no lago, que hoje, se uma pessoa ficar em sua margem por 1 hora, estará contaminada mortalmente pela radiação. Entre 1978 e 1986, blocos de concreto foram jogados no lago, para evitar assim o deslocamento dos sedimentos radioativos. Ao final, o álbum defende que qualquer pessoa seria capaz de entender o significado das questões e imoralidades relatadas nas letras do álbum, bastando que para isso, ficassem por apenas 1 hora a beira do lago Karachay.

“One Hour by the Concrete Lake” é apenas o segundo álbum da carreira do Pain of Salvation, mas já mostra um nível de maturidade musical de uma banda veterana. Extremamente variado, as músicas alternam entre momentos pesados e outros mais melodiosos e suaves, e a forma como tudo isso flui naturalmente é de impressionar, tanto que você mal de dá conta do tempo passando durante a audição. As guitarras soam primorosas, e a parte rítmica soa poderosa. Os teclados são uma parte importante do trabalho, dando substância as músicas, e criando a ambientação das mesmas. Mas o grande destaque realmente são os vocais de Daniel Gildenlöw, uma das melhores vozes do Heavy Metal atual. A forma como ele consegue variar sua voz, conforme o que a música pede, é algo que poucos conseguem fazer. Ela da sentido e emoção a cada uma das músicas.

Apontar destaques, ao menos para mim, é algo impossível, já que todas as músicas são realmente muito boas. Nada aqui soa deslocado ou fora de lugar, nada soa exagerado ou desnecessário. Cada riff, cada nota, cada melodia, tudo está onde deveria exatamente estar. Apesar de todos os músicos serem absurdamente técnicos, nenhum deles perde tempo querendo exibir suas habilidades. A musicalidade de “One Hour by the Concrete Lake” é absurda. É um álbum intenso, que arrebata e emociona quem se permite se aventurar pelos caminhos às vezes sinuosos da música do Pain of Salvation. Altamente indicado não só para fãs de Prog Metal, como também de boa música. E vale dizer que a versão lançada na América do Sul possui uma música a mais, a bônus “Beyond the Mirror”.

Epica - Ωmega (2021)



Epica - Ωmega (2021)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)

01 - Alpha - Anteludium
02 - Abyss of Time - Countdown to Singularity
03 - The Skeleton Key
04 - Seal of Solomon
05 - Gaia
06 - Code of Life
07 - Freedom
08 - Kingdom of Heaven Part 3 - The Antediluvian Universes
09 - Rivers
10 - Synergize - Manic Manifest
11 - Twilight Reverie - The Hypnagogic State
12 - Omega - Sovereign of the Sun Spheres

Detratores do Epica vão dizer que já sabem exatamente o que vão encontrar em um álbum dos holandeses. Ele vai começar com uma introdução sinfônica, vai ter uma faixa-título, uma canção na casa dos 10 minutos, bem épica, com seus coros e orquestrações, vocais estilo “bela e fera”, refrões fáceis e claro, aquela baladinha que é “de lei”. Bem, realmente, você vai encontrar tudo isso em Ωmega, não dá para negar. Mas sejamos sinceros, previsibilidade só é ruim, quando a música é igualmente ruim, e esse não é o caso aqui. Ao contrário, para quem é amante de Metal Sinfônico, o 8º álbum de estúdio do Epica vai agradar muito.

Desde The Divine Conspiracy (07) que o Epica vem refinando e aperfeiçoando o seu som, lançamento após lançamento, e isso fez com que a banda chegasse em um ponto onde sua sonoridade é inconfundível e facilmente identificada. A verdade é que você não encontra uma banda que soe como eles, que possa se dizer que faça um som idêntico, mesmo que todos os clichês do Metal Sinfônico estejam presentes em suas músicas. Isso só reforça o que eu digo, que o problema não é se utilizar de clichês, mas a forma como você o faz. Aqui é tudo muito bem feito.

Como de praxe, estamos diante de um álbum muito consistente, onde, sobre uma base Power/Prog Sinfônica, a banda agrega elementos de estilos diversos, como Thrash, Death, Black, Folk e até mesmo música étnica. Tudo isso surge salpicado em momentos pontuais nas canções. As orquestrações, simplesmente bombásticas, ficaram a cargo da The City of Prague Philharmonic Orchestra, e soam épicas. Ainda sim, aquele equilíbrio entre as partes sinfônicas e o Heavy Metal, se faz presente, muito em virtude dos riffs, que soam bem pesados em diversos momentos. Os coros, que como em álbuns anteriores, foram obra do PA'dam Chamber Choir, estão mais exuberantes do que nunca. Todos os músicos encontram espaço para brilhar individualmente em algum momento do álbum, mas Simone Simons se sobressai, isso é algo inegável. A cada lançamento ela consegue brilhar mais com sua voz.



O álbum começa com o prelúdio sinfônico “Alpha - Anteludium”, que cumpre bem o seu papel de preparar o ouvinte para o que está por vir. É a calmaria que antecede a tempestade. “Abyss of Time - Countdown to Singularity” já chega com os guturais de Mark Jansen alternando com os vocais líricos de Simone. É como se estivéssemos diante de um jogo de luz e sombras, que por mais que alguns possam julgar clichê, é muitíssimo bem feito. Não podemos deixar de citar as belíssimas orquestrações e as melodias agradáveis. Decididamente, um bom início. Na sequência, temos uma das faixas mais marcantes do álbum, “The Skeleton Key”, pesada, com um refrão marcante, e simplesmente perfeita para a voz de Simone Simons. “Seal of Solomon” chega mesclando orquestrações bombásticas com melodias orientais, com um resultado incrível. Os coros também se destacam, e os urros de Jansen se alternam com a voz de Simone durante toda a música, em uma espécie de Yin e Yang. “Gaia” já começa com um ótimo coro, e se mostra bem variada, equilibrando bem o peso do Metal com as partes sinfônicas. A excelente “Code of Life” começa com um prelúdio oriental - que conta com a participação de Zaher Zorgati, do Myrath -, que aos poucos vai se fundindo com as orquestrações, se mantendo assim durante toda a música. As melodias vocais também são um ponto de destaque.

A segunda metade do álbum abre com a pesada e grooveada “Freedom - The Wolves Within”, com um bom trabalho das guitarras e um refrão que te pega fácil. Vale destacar também os coros, simplesmente ótimos. Na sequência, o ponto álbum do álbum, a excelente “Kingdom of Heaven Part 3 - The Antediluvian Universes”. É sem dúvida alguma o ponto central do trabalho, e, apesar dos seus mais de 13 minutos - que você nem percebe passar -, se mostra bem direta, além de esbanjar peso. Em certas passagens, a banda resvala de leve no Death Metal, e se não acredita, basta fazer a audição. Ariën van Weesenbeek se superou no trabalho de bateria dessa faixa. “Rivers” é a balada do álbum, altamente emocional, com lindas orquestrações, e performance primorosa de Simone Simons. “Synergize - Manic Manifest” tem ótimos riffs, e um trabalho memorável de baixo e bateria, com direito inclusive a blast beats. Para encerrar o álbum, temos “Twilight Reverie - The Hypnagogic State”, onde Simone domina a música do início ao fim, e a excelente “Omega - Sovereign of the Sun Spheres”, uma das grandes composições da carreira da banda, diversificada, pesada e refinada.


No quesito produção, o Epica não arriscou, e mais uma vez ela ficou a cargo de Joost van den Broek, que também fez a mixagem do trabalho. Da mesma forma, masterização foi realizada novamente por Darius van Helfteren. O resultado é aquele que o fã já está acostumado, ou seja, tudo muito limpo, cristalino e asséptico, o que pode incomodar aqueles que apreciam algo com mais vida. Ainda sim, vale dizer que se comparada com o álbum anterior, The Holographic Principle, ela soa mais viva. Já a bonita capa é obra de Stefan Heilemann, outro que vem trabalhando com a banda faz algum tempo.

O resultado de  Ωmega está dentro daquilo que todo fã do Epica espera e sonha. Um álbum de composições fortes, variadas, mas que segue o padrão Epica de fazer música. Não vou ousar e dizer que esse é o melhor trabalho de sua carreira, mas sem dúvida alguma, é o mais bem estruturado, eficiente e equilibrado. Simplesmente imperdível para os fãs da banda.

Epica é:
Simone Simons (vocal)
Mark Jansen (guitarra/orquestrações/vocal)
Isaac Delahaye (guitarra/vocal)
Coen Janssen (teclado/piano/orquestrações)
Rob van der Loo (baixo)
Ariën van Weesenbeek (bateria)

terça-feira, 22 de junho de 2021

Coagulate - The Art of Cryptosis (2020) (Demo)

 


Coagulate - The Art of Cryptosis (2020) (Demo)
(Black Hole Productions - Nacional)

01. Fascist Dissection
02. 18th Parallel Succubus Masquerading Transcendence to Divinity (Liar upon the Cross)
03. Beneath Cruciform Hills
04. Protoplasmic Ensnarement (The Draining of Your Flesh)

Surgido no ano de 2017, em Minneapolis, Estados Unidos, o Coagulate chama a atenção pela maturidade do som que apresenta em seu trabalho de estreia, a Demo “The Art of Cryptosis”. Praticando um Death metal de pegada mais Old School e que remete aquela sonoridade dos anos 90, algo que certamente vai fazer a alegria dos fãs do estilo.

São apenas 4 músicas, mas que conseguem deixar o ouvinte com vontade de dar o play novamente e reiniciar a audição. O Death Metal da banda se mostra bem técnico, soando bem cru e intenso, com boas mudanças de andamento, que impedem que as canções soem repetitivas. A abertura, com  “Fascist Dissection”, apresenta ótimos riffs, além de variar bem entre partes mais velozes e outras mais cadenciadas. “18th Parallel Succubus Masquerading Transcendence to Divinity (Liar upon the Cross)” parece saída diretamente dos anos 90, e se destaca pelos riffs cortantes, enquanto “Beneath Cruciform Hills” soa simplesmente esmagadora. Encerrando, temos a densa e bruta “Protoplasmic Ensnarement (The Draining of Your Flesh)”.

Sinceramente, esse trabalho se passaria tranquilamente por um EP, dada a qualidade tanto da sua produção quanto da parte gráfica. Tudo muito bem feito e caprichado. Se você é fã de um Death metal cru e agressivo, e está sempre buscando conhecer novos nomes, eis aqui um CD que merece espaço na sua coleção.

Coagulate é:
Andrew MV (vocal, guitarra)
Aaron Wolff (guitarra)
Andy Topeff (baixo)
Jameson Sellers (bateria)

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Helloween - Helloween (2021)


Helloween - Helloween (2021)
(Nuclear Blast Records - Importado)

01 – Out For The Glory
02 – Fear Of The Fallen
03 – Best Time
04 – Mass Pollution
05 – Angels
06 – Rise Without Chains
07 – Indestructible
08 – Robot King
09 – Cyanide
10 – Down In The Dumps
11 – Orbit
12 – Skyfall

Existem momentos que são especiais na vida de um fã. Quando comecei a escutar Heavy Metal, em 1989, Kai Hansen já havia saído do Helloween e fundado o Gamma Ray, mas ainda sim, o impacto que Walls of Jericho e as duas partes do  Keeper of the Seven Keys tiveram em mim, foi imenso. Foram essenciais no meu processo de formação como fã de Metal.  A saída de Kiske, em 1993, foi outro baque, e mesmo respeitando e tendo noção da importância de Andi Deris na tarefa de manter o nome Helloween relevante entre os fãs do estilo, meu sonho era ver Hansen e Kiske de volta a banda. Mas isso sempre me pareceu algo impossível de ocorrer, até certo dia de 2017.

Ter os dois se apresentando ao vivo com o Helloween foi sem dúvida um momento muito especial. Ainda sim, por mais que, lá no fundo, existisse uma ponta de esperança, eu não conseguia enxergar a possibilidade real de todos entrarem em estúdio novamente para gravar material inédito. Felizmente eu estava muito errado. Então bateu aquele medo de fã, de o material não ser tão relevante, de estarem fazendo isso apenas para arrancar dinheiro dos fãs. Coisas de quem já viu esse tipo de atitude ocorrer aos montes no meio do Heavy Metal. Resolvi então não criar muitas expectativas.

Os primeiros singles me animaram bastante, e mostravam que o material  parecia muito promissor, uma espécie de resgate do passado da banda, mas com uma cara atual. Ainda sim, me perguntava se as demais canções conseguiriam manter essa pegada, principalmente após constatar que Andi Deris havia composto quase metade das canções do novo álbum, enquanto Kai Hansen era responsável por penas uma delas. E foi assim que peguei para escutar “Helloween”, o 16º - descontando Metal Jukebox e Unarmed -, e talvez o mais esperado álbum dos alemães.

A primeira coisa que o ouvinte deve lembrar, é de não tentar comparar “Helloween” com nenhum dos álbuns lançados pela banda anteriormente. Isso porque estamos diante de algo especial, diferenciado. Se pensarmos que Hansen saiu da banda em 1988, são 33 anos sem que sua espinha dorsal estivesse junta em um álbum. Além disso, seus 3 vocalistas se fazem presentes, o que gera uma dinâmica vocal toda especial, abrindo um enorme leque de opções no que tange o espectro vocal. Quanto a música em si, sem exagero, temos todas as fases da banda se fazendo presentes aqui, mas de uma forma muito uniforme, sem variações de qualidade ou coisas do tipo.


Certamente todos se sentem curiosos para saber como se deu a dinâmica entre Kiske, Deris e Hansen. Pois bem! Posso dizer sem medo que ela é a melhor possível. Obviamente, dada toda a sua qualidade vocal, Kiske acaba assumindo o protagonismo, mas Deris não fica atrás, e eles dividem boa parte das canções de uma forma muito equilibrada. Kai se mostra mais contido, e exceto em “Skyfall”, onde se faz bem presente, nas demais se concentra nos backings ou em trechos específicos. Ainda sim, quando surge, brilha. Por possuírem diferentes timbres, acabam se complementando, e conseguem brilhar tanto sozinhos, quanto em conjunto. Isso talvez seja o ponto alto do álbum.

Musicalmente, como já dito, todas as fases estão abarcadas aqui, e isso é simplesmente incrível. Da mesma forma que temos canções que vão remeter aos melhores momentos da fase Hansen/Kiske, temos aquelas que nos fazem lembrar como a fase Deris também foi rica em grandes canções. É, sem exagero, o álbum com os refrões mais grudentos e com as melhores melodias, desde os dois Keeper. O peso aqui encontrado também não era visto há muito tempo em um trabalho do Helloween. O trio formado por Michael Weikath, Kai Hansen e o “novato” Sascha Gerstner (com quase 20 anos de banda), simplesmente destrói tudo que vê pela frente, com um trabalho de guitarras primoroso. Já a dupla Markus Grosskopf e Dani Löble também brilha, valendo dizer que Löble gravou o álbum usando o kit de bateria original de ninguém menos que Ingo Schwichtenberg, fazendo com que dessa forma, o saudoso e eterno baterista do Helloween participe desse momento único. Mas o mais importante é que nada, eu disse, absolutamente nada, soa forçado. Tudo flui de uma forma muito natural.

O álbum abre com a espetacular “Out For The Glory”. Sinceramente, não consigo descrever o que senti quando, após a introdução, Kiske entra cantando. Só sei que é incrível! Literalmente o que temos é uma clássica faixa do Helloween, que remete diretamente aos anos de 1987 e 1988, com sua velocidade, suas melodias marcantes, mudanças de tempo, e aquele refrão grudento que só eles sabem fazer. Fazia tempo que Weikath não compunha uma canção tão espetacular. Essa pegada se mantém na música seguinte, “Fear Of The Fallen”, composição de Deris, e onde ele e Kiske se fundem de uma forma única. Grosskopf e Löble também não ficam atrás, brilhando muito. O refrão é mais um daqueles que você fica dias lembrando, e o solo de guitarra é simplesmente absurdo. Um início dos sonhos.


A faixa seguinte é a divertida “Best Time”, uma parceira entre Gerstner  e Deris, que possui uma melodia gostosa e fácil de cantar. Possui um apelo comercial, e poderia tocar tranquilamente em qualquer rádio “Rock” do mundo. Até sua duração, com pouco mais de 3:30min, parece pensada para isso. Na sequência, uma das melhores composições de Andi para a banda, a ótima “Mass Pollution”, que remete a sua fase nos vocais e foi moldada para ser tocada ao vivo. Seu refrão é daqueles que o público vai cantar a plenos pulmões na turnê do álbum. Vale destacar também o trabalho da dupla Grosskopf /Löble, que mais uma vez brilha. A faixa seguinte, “Angels”, é uma composição de Sascha, sendo o momento menos inspirado do álbum. Mas não entenda isso como sendo uma música fraca, ao contrário, ela só não está no nível absurdo de qualidade das anteriores. A primeira metade do álbum fecha com mais um momento “Helloween Clássico”. Se trata de “Rise Without Chains”, composição de pasmem, Andi Deris, que aqui se mostra capaz de compor faixas clássicas da banda sem esforço algum. 

“Indestructible”, composição de Grosskopf, tem uma pegada mais Hard e remete aos trabalhos mais atuais da banda. É pesada, cativante, tem ótimas melodias e um refrão que será certamente lembrado nos shows. Decididamente, Weikath estava com a faca entre os dentes quando compôs as músicas desse álbum, sendo “Robot King” uma prova disso. É aquele clássico Speed Metal Melódico que todo fã do Helloween ama, mas transposto para os dias atuais, não soando assim datado. “Cyanide”, de Deris, vai nessa mesma pegada, mesclando o Power e o Speed com maestria, e destacando os ótimos riffs, o ótimo desempenho da parte rítmica, principalmente Löble, e o refrão que te pega com facilidade. Lembra que acabei de falar que Weikath estava com a faca entre os dentes? Se você ainda tinha alguma dúvida, escute “Down In The Dumps”, um Power Metal clássico e empolgante. Após o breve interlúdio “Orbit” temos aquele momento épico, uma fixa que já é um dos maiores clássicos da história da banda, “Skyfall”. Aqui, a música aparece em sua versão completa, com mais de 12 minutos, e sinceramente, só ouvindo para entender o tamanho da sua magnitude. É uma música que poderia estar em qualquer um dos Keeper, sem qualquer tipo de questionamento. Encerra o álbum com sete chaves de ouro.


A capa é outro primor. Feita pelo absurdamente talentoso Eliran Kantor, ela é cheia de simbolismos, e homenageia as principais obras do Helloween.você encontra referência as três partes do “Keeper of the Seven Keys”, a  “Walls of Jericho”, a “The Time of the Oath”, e a “Master Of The Rings”. A produção é simplesmente absurda, tendo ficado a cargo de Charlie Bauerfeind, com co-produção de Dennis Ward. Ao que me consta, o álbum foi todo gravado no formato analógico, o que deu-lhe vida. 

O Helloween está de volta, no auge de sua forma, e pronto para dominar o mundo. Duvida? Escute o álbum e tire suas conclusões. Fortíssimo candidato a álbum do ano.

Helloween é:
Michael Kiske (vocal)
Andi Deris (vocal)
Kai Hansen (guitarra/vocal)
Michael Weikath (guitarra)
Sascha Gerstner (guitarra)
Markus Grosskopf(baixo)
Dani Löble (bateria)

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Funeral Tears - The Only Way Out (2018)

 


Funeral Tears - The Only Way Out (2018)
(Ksenza Records/Cold Art Industry - Nacional)

01. Be Humane
02. Look in the Mirror
03. Become the God
04. The Only Way Out 
05. Outro

Para quem desconhece, o Funeral Tears é uma One Man Band surgida em 2007 na Rússia, e capitaneada pelo músico Nikolay Seredov. A proposta, como o nome deixa bem claro, é se enveredar pelos sinuosos e tortuosos caminhos do Funeral Doom Metal. The Only Way Out é o seu 4º álbum de estúdio, e foi lançado no Brasil ano passado pela Cold Art Industry em quantidade limitada, em versões slipcase e digipack.

Fazer Funeral Doom é uma tarefa deveras espinhosa, já que se você errar a mão a audição do álbum pode se tornar um verdadeiro martírio, e acredite, mesmo em se tratando de um trabalho de Doom Metal, essa fala não é nada elogiosa. Felizmente Nikolay sabe bem o que faz, e consegue escapar das armadilhas do estilo, entregando um material que transborda angústia e melancolia por todos os poros. Não é isso que um fã do estilo espera? Seus vocais soam macabros, e as músicas, todas acima dos 8 minutos de duração – exceto o “Outro” que encerra a obra –, soam arrastadas, lentas, pesadas, e variam muito pouco. Alguns elementos de Black são inseridos aqui e ali, quebrando um pouco da monocromaticidade do álbum. As guitarras despejam riffs pesados, baixo e bateria estão ótimos, e o teclado surge muito bem encaixado, enriquecendo ainda mais o resultado.

O álbum abre com a arrastada “Be Humane”, que prima pelo peso e pelo clima angustiante que desperta no ouvinte. “Look in the Mirror” soa épica e sombria, enquanto “Become the God” começa devagar, quase parando, e assim se mantém por um logo tempo, mas passagens mais voltadas ao Black Metal surgem para dar uma quebrada no seu ritmo letárgico. “The Only Way Out” é densa e transborda melancolia, e “Outro” é um encerramento contemplativo, que reflete tudo que foi ouvido durante mais de 40 minutos.

Nikolay leva realmente a sério a questão da One Man Band, e ele mesmo executou toda a produção do álbum. O resultado é bom, dentro do esperado, e deixa tudo bem claro e audível, mas sem exageros, o que evita aquele ar plastificado de muitas produções modernas. A belíssima capa é obra de Alexander Glukhov, da Mayhem Project Design. Denso, altamente emocional e em muitos momentos, com uma aura opressora, The Only Way Out é um álbum que prende o ouvinte e vai agradar em cheio os apreciadores de um bom Funeral Doom. Obrigatório na coleção de quem curte o estilo.




I Gather Your Grief - Dystopian Delusions (2019)

 


I Gather Your Grief - Dystopian Delusions (2019)
(Ever Cold Music - Nacional)

01. Sand Castles
02. Defendant
03. The Farewell’s Sacrament
04. Behind the Wheek (Depeche Mode cover)

Apesar do pouco tempo de estrada, já que surgiram no ano de 2016, o I Gather Your Grief é composto de músicos experientes na cena da música extrema nacional, já que em sua formação temos membros de bandas como Patria, Land of Fog, Dark Celebration, Swords at Hymns e Litosh. Obstante todos os nomes citados se enquadrarem no rótulo de Black Metal, a proposta aqui é seguir um rumo diferente, com o quinteto formado por Fernando Troian (vocal), André Lazzarotto (guitarra), Maicon Ristow (guitarra),  Wendel Siota (baixo) e Marcelo Vasco (bateria), apostando suas fixas no Death/Doom.

A base da sonoridade do I Gather Your Grief é aquele Death/Doom típico dos anos 90, e que consagrou nomes como Paradise Lost, Anathema, Katatonia e My Dying Bride, mas com uma dose de melodia que remete a bandas mais atuais como Swallow the Sun, October Tide, Saturnus ou Draconian. Cabe dizer que apesar de tais influências, não soam como uma cópia dos citados acima, já que conseguem imprimir personalidade a sua música, soando assim como I Gather Your Grief. Fernando Troian se sai muito bem nos vocais guturais, dando a intensidade que as canções pedem, e as guitarras de André Lazzarotto e Maicon Ristow executam um belo trabalho, com riffs que transbordam melancolia. A parte rítmica, com o baixista Wendel Siota e o baterista Marcelo Vasco, se mostra coesa e sólida, imprimindo variação e peso. Marcelo também faz ótimos vocais limpos em várias passagens, criando um contraste bem legal com os guturais. 

A abertura se dá com “Sand Castles”, que possui boas melodias, linhas de teclado que criam uma ambiência muito legal, guitarras pesadas e um trabalho vocal muito legal, onde o gutural e o limpo se alternam em alguns momentos. Pensando bem, nesse sentido me lembrou demais os últimos álbuns do Borknagar, o que acredite, é um tremendo elogio. “Defendant”  tem aquela pegada arrastada típica do Funeral Doom, com os teclados criando uma climatização fúnebre e as guitarras despejando peso. Indiscutivelmente, minha faixa preferida do EP. “The Farewell’s Sacrament” aproxima mais a banda do cenário atual do Melodic Doom, onde mais uma vez vocal e teclado se destacam. É uma canção um tanto cinzenta e taciturna, como todas deveriam ser. Fechando, uma versão fantástica para “Behind the Wheek”, do Depeche Mode, onde conseguiram manter a aura original, mas ainda sim carregando a mesma de personalidade. Muito disso se dá pelos vocais limpos, que mantém aquela pegada mais gótica.

A produção é muito boa, pois conseguiu deixar tudo muito claro e audível, mas sem perder aquela coisa mais suja e obscura que o Death/Doom pede. É exatamente como uma produção dos anos 90 soaria se fosse feita hoje. Perfeita para o estilo proposto. Quanto a capa, tendo um artista completo como Marcelo Vasco na banda, ela não poderia ser menos que ótima, já que consegue transmitir uma sensação lúgubre e triste. Dystopian Delusions foi sem dúvida, um dos melhores lançamentos nacionais de 2019, e deixa aquele gosto de quero mais, nos deixando ansiosos por um trabalho completo do I Gather Your Grief. Que ele não demore muito a surgir.