segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Funeral Tears - The Only Way Out (2018)

 


Funeral Tears - The Only Way Out (2018)
(Ksenza Records/Cold Art Industry - Nacional)

01. Be Humane
02. Look in the Mirror
03. Become the God
04. The Only Way Out 
05. Outro

Para quem desconhece, o Funeral Tears é uma One Man Band surgida em 2007 na Rússia, e capitaneada pelo músico Nikolay Seredov. A proposta, como o nome deixa bem claro, é se enveredar pelos sinuosos e tortuosos caminhos do Funeral Doom Metal. The Only Way Out é o seu 4º álbum de estúdio, e foi lançado no Brasil ano passado pela Cold Art Industry em quantidade limitada, em versões slipcase e digipack.

Fazer Funeral Doom é uma tarefa deveras espinhosa, já que se você errar a mão a audição do álbum pode se tornar um verdadeiro martírio, e acredite, mesmo em se tratando de um trabalho de Doom Metal, essa fala não é nada elogiosa. Felizmente Nikolay sabe bem o que faz, e consegue escapar das armadilhas do estilo, entregando um material que transborda angústia e melancolia por todos os poros. Não é isso que um fã do estilo espera? Seus vocais soam macabros, e as músicas, todas acima dos 8 minutos de duração – exceto o “Outro” que encerra a obra –, soam arrastadas, lentas, pesadas, e variam muito pouco. Alguns elementos de Black são inseridos aqui e ali, quebrando um pouco da monocromaticidade do álbum. As guitarras despejam riffs pesados, baixo e bateria estão ótimos, e o teclado surge muito bem encaixado, enriquecendo ainda mais o resultado.

O álbum abre com a arrastada “Be Humane”, que prima pelo peso e pelo clima angustiante que desperta no ouvinte. “Look in the Mirror” soa épica e sombria, enquanto “Become the God” começa devagar, quase parando, e assim se mantém por um logo tempo, mas passagens mais voltadas ao Black Metal surgem para dar uma quebrada no seu ritmo letárgico. “The Only Way Out” é densa e transborda melancolia, e “Outro” é um encerramento contemplativo, que reflete tudo que foi ouvido durante mais de 40 minutos.

Nikolay leva realmente a sério a questão da One Man Band, e ele mesmo executou toda a produção do álbum. O resultado é bom, dentro do esperado, e deixa tudo bem claro e audível, mas sem exageros, o que evita aquele ar plastificado de muitas produções modernas. A belíssima capa é obra de Alexander Glukhov, da Mayhem Project Design. Denso, altamente emocional e em muitos momentos, com uma aura opressora, The Only Way Out é um álbum que prende o ouvinte e vai agradar em cheio os apreciadores de um bom Funeral Doom. Obrigatório na coleção de quem curte o estilo.




I Gather Your Grief - Dystopian Delusions (2019)

 


I Gather Your Grief - Dystopian Delusions (2019)
(Ever Cold Music - Nacional)

01. Sand Castles
02. Defendant
03. The Farewell’s Sacrament
04. Behind the Wheek (Depeche Mode cover)

Apesar do pouco tempo de estrada, já que surgiram no ano de 2016, o I Gather Your Grief é composto de músicos experientes na cena da música extrema nacional, já que em sua formação temos membros de bandas como Patria, Land of Fog, Dark Celebration, Swords at Hymns e Litosh. Obstante todos os nomes citados se enquadrarem no rótulo de Black Metal, a proposta aqui é seguir um rumo diferente, com o quinteto formado por Fernando Troian (vocal), André Lazzarotto (guitarra), Maicon Ristow (guitarra),  Wendel Siota (baixo) e Marcelo Vasco (bateria), apostando suas fixas no Death/Doom.

A base da sonoridade do I Gather Your Grief é aquele Death/Doom típico dos anos 90, e que consagrou nomes como Paradise Lost, Anathema, Katatonia e My Dying Bride, mas com uma dose de melodia que remete a bandas mais atuais como Swallow the Sun, October Tide, Saturnus ou Draconian. Cabe dizer que apesar de tais influências, não soam como uma cópia dos citados acima, já que conseguem imprimir personalidade a sua música, soando assim como I Gather Your Grief. Fernando Troian se sai muito bem nos vocais guturais, dando a intensidade que as canções pedem, e as guitarras de André Lazzarotto e Maicon Ristow executam um belo trabalho, com riffs que transbordam melancolia. A parte rítmica, com o baixista Wendel Siota e o baterista Marcelo Vasco, se mostra coesa e sólida, imprimindo variação e peso. Marcelo também faz ótimos vocais limpos em várias passagens, criando um contraste bem legal com os guturais. 

A abertura se dá com “Sand Castles”, que possui boas melodias, linhas de teclado que criam uma ambiência muito legal, guitarras pesadas e um trabalho vocal muito legal, onde o gutural e o limpo se alternam em alguns momentos. Pensando bem, nesse sentido me lembrou demais os últimos álbuns do Borknagar, o que acredite, é um tremendo elogio. “Defendant”  tem aquela pegada arrastada típica do Funeral Doom, com os teclados criando uma climatização fúnebre e as guitarras despejando peso. Indiscutivelmente, minha faixa preferida do EP. “The Farewell’s Sacrament” aproxima mais a banda do cenário atual do Melodic Doom, onde mais uma vez vocal e teclado se destacam. É uma canção um tanto cinzenta e taciturna, como todas deveriam ser. Fechando, uma versão fantástica para “Behind the Wheek”, do Depeche Mode, onde conseguiram manter a aura original, mas ainda sim carregando a mesma de personalidade. Muito disso se dá pelos vocais limpos, que mantém aquela pegada mais gótica.

A produção é muito boa, pois conseguiu deixar tudo muito claro e audível, mas sem perder aquela coisa mais suja e obscura que o Death/Doom pede. É exatamente como uma produção dos anos 90 soaria se fosse feita hoje. Perfeita para o estilo proposto. Quanto a capa, tendo um artista completo como Marcelo Vasco na banda, ela não poderia ser menos que ótima, já que consegue transmitir uma sensação lúgubre e triste. Dystopian Delusions foi sem dúvida, um dos melhores lançamentos nacionais de 2019, e deixa aquele gosto de quero mais, nos deixando ansiosos por um trabalho completo do I Gather Your Grief. Que ele não demore muito a surgir.


Quilombo – Itankale (2019)

Quilombo – Itankale (2019)
(Poluição Sonora Records – Nacional)


01. Melanina

02. Ancestralidade

03. Treze Nações

04. Descendentes de Reis

05. Semi Deusas

06. Diáspora D.C


Por mais que alguns insistam em negar o óbvio, sim, somos uma sociedade racista. A questão é que o racismo no Brasil é uma questão tão estrutural, e se encontra presente em tantos detalhes do nosso dia a dia – na linguagem diária, por exemplo –, que muitas vezes, mesmo sem se dar conta, propagamos atitudes racistas. O Brasil foi o último país do ocidente a abolir oficialmente a escravidão, mas a verdade é que ela nunca deixou de existir, já que o negro continua sofrendo com os reflexos da mesma, mesmo tendo passado 132 anos desde a promulgação da Lei Áurea. Nesse tempo, o racismo estrutural não foi apenas continuado, foi radicalizado..

Como combater isso? As formas são diversas, e invariavelmente passam não só pelo ponto de o branco abrir mão de seus privilégios – sim, ser branco no Brasil é um privilégio que muitos se recusam a aceitar –, como também abrir e ceder espaço para dar vazão as vozes negras, para permitir que ocupem espaços de privilégio branco. E o mais importante de tudo, escutar e aprender com o que eles têm a falar. Nesse ponto, “Itankale” – que em Iorubá significa propagação –, EP de estreia do Quilombo, tem muito a nos ensinar.

Para quem desconhece, o Quilombo é uma banda surgida no ano de 2018, pelas mãos do baterista e vocalista Panda Reis, e do guitarrista Allan Kallid, ambos do Oligarquia. A premissa é, através de suas letras e músicas, contar a história dos negros pelos negros, se utilizando de fontes que por muito tempo foram desconsideradas e caladas, pelo simples fato de não serem fontes brancas. O negro não podia falar sobre si. O que temos aqui é a história dos negros contada por quem possui realmente lugar de fala para tratar do assunto.

Musicalmente, “Itankale” é uma verdadeira paulada, já que apresenta um Death Metal que se mescla com Grindcore e esbanja intensidade e violência. Os vocais de Panda são brutais, mas ainda sim permite que o ouvinte compreenda as letras – que possuem muito a dizer – enquanto esbanja técnica na bateria. Allan ficou a cargo da guitarra e do baixo, e faz um trabalho excelente, principalmente no que tange aos riffs, afiadíssimos. A percussão, que surge muito bem encaixada em diversos momentos do álbum, e sem soar destoante, ficou por conta do músico convidado Binho Gerônimo. Outro a participar foi o guitarrista Guilherme Sorbello, presente em uma das músicas do EP.

“Melanina” abre o trabalho com uma introdução simplesmente de arrepiar, onde vocalizações típicas da cultura africana dão o tom. Aliás, cada uma das músicas aqui presentes, é introduzida por alguma referência a cultura negra. Quando o Death/Grind explode nos falantes, ela se torna suja, odiosa, crua e raivosa, como deve ser uma canção do estilo. Os elementos percussivos foram magistralmente encaixados nas passagens mais cadenciadas, tornando a faixa um dos grandes destaques do EP. “Ancestralidade” é a devastação em forma de música, e vai esmagar os tímpanos daqueles menos acostumados a sonoridades pesadas, sendo seguida pela bruta “Treze Nações”. Outra que se destaca pela brutalidade é “Descendentes de Reis”, um verdadeiro atropelo em forma de música. “Semi Deusas”, com seus pés bem fincados no Punk, fala em sua letra de mulheres negras, tanto do passado como da atualidade, que são importantes politica e culturalmente. Encerrando, a agressiva “Diáspora D.C”, que soa como uma betoneira descendo uma ladeira sem freio. Um atropelo sem chance de sobrevivência.

Gravado e mixado no O Beco Estúdio, o EP teve sua produção a cargo de Guilherme Sorbello, e a qualidade é boa, já que tudo está claro e audível, mas mantendo aquela sujeira necessária ao estilo. A capa foi obra de Artur Fontenelle, e une a cultura ancestral africana, com diversas personalidades negras ao nível mundial. Ficou realmente muito legal. Ríspido, brutal e intenso, “Itankale” é um desses álbuns feitos para moer as vértebras do pescoço até mesmo dos mais calejados do estilo. Mais do que música, o que temos aqui é um grito de resistência mais do que necessário nos tempos atuais. Que venha o primeiro álbum completo! Quilombo é Death Metal contra o racismo!


Quilombo é:

- Panda Reis (vocal/bateria)

- Allan Kallid (guitarra/baixo)


https://www.facebook.com/Quilombometal/

https://twitter.com/quilombodeath

https://quilombo.bandcamp.com/releases


 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Paradise Lost - Obsidian (2020)


Paradise Lost - Obsidian (2020)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)


01. Darker Thoughts
02. Fall from Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear the Night (bônus track)
11. Defiler (bônus track)

“Você não é todo mundo!”. O caro leitor deve estar se perguntando o que a frase dita por 10 entre 10 mães no mundo faz em uma resenha crítica a respeito do novo álbum do Paradise Lost. Realmente, é uma forma pouco usual de se começar uma resenha, não posso negar, mas logo ela terá sua razão de estar aqui. Surgido em 1988, em Halifax, Inglaterra, o quinteto escreveu seu nome na história do Metal com uma carreira sólida e recheada de álbuns de grande qualidade, fora o mérito de serem considerados por muitos, o responsável pela criação do Gothic Metal como o entendemos hoje. Com tudo isso, e com mais de 3 décadas de estrada, qualquer banda se acomodaria nos louros da vitória e se limitaria a zona de conforto, fazendo apenas o feijão com arroz. Mas o Paradise Lost não é todo mundo. Não é, nunca foi e provavelmente nunca será.

Tudo nessa vida é mutável, e uma atitude que possamos vir a ter hoje, vai ter reflexos lá na frente. É algo que não só afeta a nossa vida, mas também a das pessoas em nosso entorno. Viver não é  estático, e tudo sempre está em constante mudança. Porque então a carreira do Paradise Lost deveria ser diferente? São 32 anos se reinventando álbum após álbum, se recusando a cair na estagnação e no apego ao passado de muitos outros nomes de sua geração. Elementos do passado sempre podem, e são resgatados, mas o foco é sempre seguir adiante, e é isso que fazem em Obsidian, sem 16º álbum de estúdio, que será lançado no dia 15 de maio pela Nuclear Blast, e que sairá no Brasil através da parceria com a Shinigami Records.


Uma coisa que sempre me chamou a atenção no Paradise Lost é a sua capacidade de soar único. Você consegue se deparar com bandas que emulam até o talo nomes como Metallica, Black Sabbath, Led Zeppelin ou Iron Maiden? Sim, e exemplos temos aos montes por aí. Normalmente elas ultrapassam o limite da influência e acabam soando com cópia dessas lendas do Rock/Metal. Isso já não ocorre com o Paradise Lost, já que não encontramos que consiga emular sua sonoridade. Claro, temos diversos nomes onde a influência do quinteto de Halifax se torna evidente, mas nenhum que soe idêntico. Isso se dá por um motivo simples, Nick Holmes e Gregor Mackintosh são músicos únicos. Eles são os alicerces sobre os quais se levantam as estruturas muscais da banda. A voz de Holmes, além de variada, soa marcante, sombria e escura, enquanto Gregor é um guitarrista com uma identidade única. Você sabe que é ele na primeira nota, e todo o clima melancólico presente na obra da banda é oriundo disso. É essa sua capacidade ímpar que consegue ligar álbuns aparentemente díspares como Gothic (91), Host (99) ou Faith Divide Us – Death Inite Us (09). Vale deixar claro que isso de forma alguma tira a importância e o brilho dos demais integrantes. Sem a brilhante guitarra rítmica de Aaron Aedy, Mackintosh não estaria livre para mostrar sua genialidade, sem a força do baixo de Stephen Edmondson e da bateria de Waltteri Väyrynen, muito se perderia. Preste atenção no desempenho dos mesmos em Obsidian, caso tenha alguma dúvida a respeito disso.

Vindo de dois álbuns que mergulharam fundo nas suas raízes Death/Doom, The Plague Within (15) e Medusa (17), o Paradise Lost optou por uma leve mudança de rumo em Obsidian, dando mais variedade as suas músicas. Trazendo para o centro do palco elementos não só do Gothic Metal de outrora, como da cena gótica dos anos 80 – sim, estamos falando de The Sisters of Mercy, The Mission e afins –, entregam aos seus fãs um trabalho mais refinado e com mais melodias, mas que em momento algum abre mão do peso e do clima sombrio que lhe é inerente desde Lost Paradise (90). Partindo dos vocais e passando pelas guitarras, tudo aqui soa mais diversificado, intenso e emocional que em seus antecessores, se é que isso é possível considerando a qualidade dos mesmos. Reparem também na força do baixo de Edmondson e em como Waltteri Väyrynen é um baterista muito, mas muito acima da média.

A abertura se dá com “Darker Thoughts”, e já digo, não se deixe enganar com os dedilhados de violão, os violinos e os vocais suaves de Nick, pois lá pelos 2 minutos de canção ela explode em peso e rosnados nervosos. Com um refrão fortíssimo, segue alternando entre passagens mais suaves e mais pesadas, criando uma atmosfera etérea. Já tendo sido lançada como single, “Fall from Grace” é a música que mais se aproxima do que o Paradise Lost fez em seus últimos álbuns, esbanjando peso e agressividade, obstante a boa dose de melancolia que é adicionada nos momentos em que os vocais limpos surgem. O solo de Gregor é outro fator de destaque. A faixa seguinte, “Ghosts”, é um mergulho no submundo dos clubes góticos de proliferavam no underground londrino dos anos 80. Seus riffs, sua guitarra atmosférica, o refrão grudento, tudo remete a cena gótica do período. É a prova da capacidade única que o Paradise Lost possui de mesclar suas influências de Pós-Punk e Goth Rock com Metal. “The Devil Embraced” alterna muito bem vocais limpos nos versos com os rosnados de Nick no refrão, gerando assim um clima bem sombrio e melancólico. Se prestar atenção, você vai conseguir sentir um pouco daquela aura do Gothic aqui.


“Forsaken” vai remeter o ouvinte diretamente aos tempos do Draconian Times com seus riffs fortes e marcantes, clima gélido e um trabalho de bateria que beira o primoroso. Na sequência, uma das músicas mais brutas do álbum, “Serenity”, um Death/Doom com guitarras pesadas e vocais intensos, que vai agradar aos mais saudosistas. Mostrando que o comodismo não é algo que faz parte do seu DNA, o Paradise Lost não tem medo de buscar novos caminhos para sua música, e observamos isso de forma bem clara em “Ending Days”. Por mais que ela tenha todas as características que marcam sua sonoridade, ela não se encaixaria em nenhum trabalho anterior, com seu clima sombrio e sufocante. Aqui, mais uma vez, o baixo e a bateria brilham. Sabe aquele clima Goth Rock de “Ghosts”? Ele ressurge com força na ótima “Hope Dies Young”, com um que de The Sisters of Mercy, e se encaixaria tranquilamente em um álbum como One Second (97). Encerrando a versão padrão do álbum, temos a épica “Ravenghast”. O piano da introdução já dá o tom fúnebre da canção. Com riffs desoladores e clima angustiante, é sem dúvida alguma a faixa mais pesada de todo álbum, e não soaria deslocada no Medusa, por exemplo. Na versão em digipack, temos mais 2 faixas, “Hear the Night” e “Defiler”, que seguem a mesma linha do álbum, abusando do peso e da melancolia.

Podemos dizer sem medo que o Paradise Lost encontrou em Jaime Gomez Arellano o seu parceiro perfeito, já que ele parece entender a sonoridade da banda como poucos produtores nesse mundo. Mais uma vez ele, ao lado da banda, foi o responsável pela produção, e o resultado é simplesmente ótimo. Cada mínimo detalhe pode ser notado, todos os instrumentos estão perceptíveis, tudo claro e cristalino. Ainda sim, não temos aquela sonoridade plastificada e artificial, já que é um álbum bem orgânico nesse sentido. Sombrio, escuro, intenso e melancólico, Obsidian comprova de uma vez por todas que o Paradise Lost não só se encontra em seu auge criativo, como está muito a frente da concorrência. Vivemos uma época tão dura e de tantas incertezas, e que agora tem sua trilha sonora. Uma experiência catártica, e sem dúvida, forte candidato a melhor álbum de 2020.

NOTA: 94

Formação:
- Nick Holmes (vocal);
- Gregor Mackintosh (guitarra);
- Aaron Aedy (guitarra);
- Stephen Edmondson (baixo);
- Waltteri Väyrynen (bateria)


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Deathwhite - Grave Image (2020)


Deathwhite - Grave Image (2020)
(Season  of Mist - Importado)


01. Funeral Ground
02. In Eclipse
03. Further from Salvation
04. Grave Image
05. Among Us
06. Words of Dead Men
07. No Horizon
08. Plague of Virtue
09. A Servant
10. Return to Silence

Para quem não conhece o Deathwhite, se trata de um coletivo de músicos que se reuniu em 2012, com o intuito de criar um projeto de estúdio, e que optou por manter as identidades de seus membros em segredo. O que se sabe é que são americanos, oriundos de bandas de vertentes mais extremas do Metal, e que todos são apaixonados pelo Discouraged Ones, do Katatonia. Musicalmente, como o leitor pode imaginar dada a última afirmação, se enveredam pelos campos do Doom/Gothic Metal, com elementos de Post Metal, gerando assim uma mistura bem interessante.

Seu debut, For a Black Tomorrow, foi um dos melhores lançamentos de 2018, o que gerou em mim uma certa ansiedade por esse novo trabalho. Conseguiriam manter o alto nível de qualidade apresentado, ou sucumbiriam a maldição do segundo álbum, que já vitimou vários nomes promissores na história da música pesada? A resposta veio através de Grave Image, que não se limita a ser uma simples repetição do seu antecessor, mas se mostra uma continuação natural do mesmo. A inclusão de um segundo guitarrista na formação, deixou seu som um pouco mais pesado e sofisticado se comparado com a estreia, e o que já era muito bom, se tornou ainda melhor.

Mas não é só o maior peso que chama a atenção de cara. Grave Image também se mostra mais sombrio, um retrato dos tempos atuais, a era da pós-verdade, onde esta é distorcida diariamente, e os saberes são contestados por achismos de pessoas que mal possuem coordenação motora para andar e respirar ao mesmo tempo. As composições também se mostram mais ricas e coesas, e com belas melodias, que vão agradar em cheio aos fãs de nomes como Katatonia (óbvio), Paradise Lost, My Dying Bride, Swallow the Sun, Anathema e afins. As canções são altamente imersivas, e criam um jogo de luz e sombra muito interessante, já que, ao mesmo tempo que apresentam paisagens sonoras desoladoras e depressivas, conseguem te fazer sonhar profundamente.


Esse é um trabalho bem homogêneo, e um fio de melancolia perpassa cada uma das canções aqui. A abertura se dá com a forte “Funeral Ground”, de atmosfera taciturna e fria, com guitarras sombrias e boas melodias vocais. “In Eclipse” já mostra suas armas logo de cara, com riffs pesados, forte carga gótica e refrão que te pega com facilidade. Na sequência, temos a elegante e pesada “Further from Salvation”, um “doomzão” com cara de My Dying Bride, algo que também podemos observar na ótima “Grave Image”, com bom peso e melodias sombrias. “Among Us” tem uma vibe que remete ao Katatonia e um trabalho bem interessante de guitarras; “Words of Dead Men” tem um ar sofisticado e alternativo, e “No Horizon” se destaca principalmente pelos ótimos vocais e um bom desempenho da dupla guitarra/baixo. “Plague of Virtue” é uma homenagem declarada da banda ao já citado álbum Descouraged Ones, do Katatonia, e tudo aqui remete ao mesmo. Na sequência final, a emotiva “A Servant” e a sombria “Return to Silence”.

A produção e mixagem ficaram novamente por conta de Shane Mayer, com masterização de ninguém menos que Dan Swanö (Bloodbath, Katatonia, Novembers Doom, October Tide, Opeth, Pain of Salvation, Rage). O resultado é não menos do que ótimo, com tudo muito claro e audível, mas ainda sim pesado. A capa, candidata a uma das mais belas de 2020, foi obra de Jérôme Comentale, e conta com a imagem da estátua de Giordano Bruno, matemático, filósofo e cosmólogo italiano medieval, que foi queimado pela Inquisição Católica. Cabe dizer que a mesma se encontra localizada no Campo de 'Fiori em Roma, Itália, local exato onde foi executado. Altamente emocional, sombrio, imersivo, e mesclando escuridão e beleza como poucos, o Deathwhite entregou um dos grandes álbuns do ano. Para se ouvir sentando na sala, de luzes apagadas, com uma bebida em mãos e refletindo a respeito dos tempos escuros que vivemos.

NOTA: 88

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terça-feira, 21 de abril de 2020

Alcest – Spiritual Instinct (2019)



Alcest – Spiritual Instinct (2019)
(Nuclear Blast/Shinigami Records – Nacional)


01. Les Jardins De Minuit
02. Protection
03. Sapphire
04. L'île Des Morts
05. Le Miroir
06. Spiritual Instinct

Quantos artistas podem se orgulhar de serem percussores em um gênero ou subgênero da música? Poucos, muito poucos. Surgido como um projeto solo de Neige – e que desde 2009 conta com o baterista Winterhalter –, o Alcest é um dos raros nomes a poder se orgulhar de tal feito. Com sua mistura de Post Black Metal e Shoegaze, foi responsável direto pelo surgimento do Blackgaze, além de ter se tornado um instrumento de fuga da realidade por parte de seu idealizador, onde ele mergulha em sua espiritualidade e sonhos de infância. Sua sonoridade, altamente imersiva, e que trafega entre o agressivo e etéreo, mergulha o ouvinte em uma experiência musical única, e que acabou não só por atrair uma parcela de fãs do Metal, como também de fora desse meio.

Do início, com a demo Tristesse hivernale (01) até os dias de hoje, o Alcest foi construindo sua sonoridade, uma identidade única e que permite ao ouvinte perceber que se trata da banda já nos primeiros acordes. A cada lançamento, os elementos Black iam perdendo um pouco mais de espaço para o Post e o Shoegaze, até chegar a Shelter (14), onde eles se tornaram inexistentes. Em Kodama (16), para a surpresa de alguns, esses elementos retornaram a sonoridade do Alcest, e continuam fortes em Spiritual Instinct.

Apesar de ser uma continuação natural de Kodama, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato de esse ser um trabalho menos introspectivo que os 2 últimos lançamentos da banda, já que Spiritual Instinct soa levemente menos escuro e mais direto que os antecessores. Aquela dose de complexidade que estamos acostumados a escutar em um álbum do Alcest se faz fortemente presente, com camadas de sons e melodias que se sobrepõem e geram paisagens sonoras que são fortes e exuberantes, tudo isso acompanhado de vocais que mesclam cantos quase litúrgicos de Neige, com aqueles gritos desesperados do Black Metal. Não vou negar que em alguns momentos, as coisas tendem a ficar um pouco parecidas, mas isso é o tipo de coisa que não incomoda de verdade um fã da banda. Já alguém mais acostumado a sonoridades mais tradicionais e dentro de um padrão, podem vir a estranhar tal proposta.


De cara já temos um dos grandes destaques do álbum, com a belíssima “Les Jardins De Minuit”, faixa que mescla a rispidez e frieza dos riffs típicos do Black, com vocais mais etéreos, por mais que em determinado momento as vozes mais ríspidas surjam. O trabalho de bateria também se destaca. Angústia e esperança se misturam, despertando sentimentos únicos. Por falar em bateria, ela surge imponente no início de “Protection”, faixa seguinte. Enérgica, pesada e bem dinâmica, possui riffs que pendem para o Progressive Black Metal e um ótimo trabalho vocal. Tem uma atmosfera mais viajante, que vai te levar longe enquanto a escuta. “Sapphire” mantêm essa vibração mais progressiva, e possui uma queda maior para o Post Metal, com destaques principalmente para as belíssimas melodias e o refrão que te pega fácil. “L'île Des Morts” tem um instrumental simplesmente fenomenal, e com cerca 9 minutos, se mostra não só a maior canção do álbum, como a melhor. Sabe aquela mescla de sons e sensações que só o Alcest consegue despertar no ouvinte? Está aqui. “Le Miroir” é uma canção altamente imersiva, e que vai fazer você mergulhar profundamente em seu interior. A sensação de solidão aqui é inevitável. Encerrando, temos “Spiritual Instinct”, com sua pegada mais melancólica e um que de ritualístico. Aqui, tempos aquela dualidade entre alegria/tristeza, ordem/caos, horror/beleza, se tornando a escolha perfeita para finalizar o álbum.

Gravado no Drudenhaus Studio, o álbum teve mais uma vez a produção e mixagem realizadas por Benoît Roux, e a masterização por Mika Jussila. O resultado, como de praxe, é ótimo, e permite ao ouvinte usufruir com perfeição de toda a experiência que é escutar um álbum do Alcest. A capa, assim como em Kodama, foi obra de Førtifem, duo formado por Adrien Havet e Jessica Daubertes. Se por um lado, musicalmente falando, esse seja o álbum mais direto e menos introspectivo dos franceses, liricamente talvez seja o mais pessoal de todos, já que Neige não teve medo de se expor nesse sentido. O resultado é um trabalho que apesar de ter sido lançado em 2019, acaba se encaixando com perfeição nos dias atuais, já que consegue mostrar que mesmo meio a maior escuridão, ainda sim há esperança.

NOTA: 88

Alcest é:
- Neige (vocal/guitarra/baixo/teclado)
- Winterhalter (bateria)

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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Cirith Ungol – Forever Black (2020)

Cirith Ungol – Forever Black (2020)
(Metal Blade/Hellion Records – Nacional)


01. The Call
02. Legions Arise
03. The Frost Monstreme
04. The Fire Divine
05. Stormbringer
06. Fractus Promissum
07. Nightmare
08. Before Tomorrow
09. Forever Black

Existiu um tempo onde o Cirith Ungol foi tachado – de forma totalmente injusta – de “pior banda de Heavy Metal do mundo” por alguns setores da crítica especializada. Pasmem, isso ocorria por um motivo que hoje pode parecer bizarro, a sua originalidade. Surgido em 1972, na cidade de Ventura, na California, os americanos apresentaram em seu debut, Frost and Fire (81), uma sonoridade carregada de particularidades. Musicalmente, mesclavam elementos de bandas de Hard Rock dos anos 70, com NWOBHM e Black Sabbath. O resultado foi uma espécie de Proto-Doom, um Epic Heavy Metal com letras baseadas em fantasia, e estrutura musical oriunda da música clássica. Você leitor vai dizer que isso é algo extremamente comum atualmente, mas acredite, em 1981 não era. Fora isso, outros dois fatores tiveram peso: a escolha de timbres feita pela banda, que era bem peculiar e fugia do padrão usual na época, e o vocal bem distinto de Tim Baker, grave, agudo e anasalado, na linha “ame ou odeie”.

Foram 4 álbuns lançados, o já citado Frost and Fire, King of the Dead (84), One Foot in Hell (86) e Paradise Lost (91), mas quase nenhum sucesso comercial no período. Foi o preço pago por fazer o que queriam, e não o que era comercialmente aceito. Mesmo assim, podemos dizer que lançaram as bases não só do que viria a ser o Doom Metal, como também do Epic e do Power Metal tipicamente americanos, de bandas como Liege Lord, Brocas Helm, Omen, Tyrant e afins. Ironicamente, só após o seu término é que passaram a receber o devido reconhecimento, ganhando uma aura de cult e injustiçada. Quase 25 anos depois do término, em 2015, o baixista do Night Demon, Jarvis Leatherby, organizou um ensaio ao lado do baterista Robert Garven e do guitarrista Jim Barraza, e contando com a presença de Tim como espectador. Com vários convites para participação em festivais, a chama do Cirith Ungol reacendeu e resolveram retornar. O guitarrista Greg Lindstrom aceita participar da volta, mas o baixista Michael "Flint" Vujejia declinou, e seu posto passou a ser ocupado, merecidamente, por Jarvis. O quinteto então cai na estrada para uma série de shows, incluindo aí uma passagem no Brasil, onde encerraram o último dia da edição de 2019 do Setembro Negro.

A cobrança por parte dos fãs de um novo álbum de inéditas se tornou algo comum, e sem medo de arriscar o seu legado, o Cirith Ungol resolveu atender o anseio dos mesmos. Eis que agora temos em mãos Forever Black, o 5ª trabalho de estúdio dos americanos, após um longo hiato de 29 anos. A primeira coisa que chama a atenção é a atemporalidade de sua música, já que você nem se dá conta de que se passaram quase 3 décadas desde Paradise Lost. É como se estivéssemos novamente nos anos 80, a era de ouro do Heavy Metal, uma verdadeira viagem no tempo. O vocal de Tim continua único, e pode causar estranhamento em uma época onde os vocalistas são quase padronizados. Os fãs vão amar, os detratores continuarão a criticar, o mundo continuará girando e Cirith Ungol continuará sendo Cirith Ungol. As guitarras de Jim e Greg são absurdamente boas, pesadas, e entregam não só riffs esmagadores, como solos de muita qualidade, enquanto o baixo de Jarvis faz um ótimo trabalho. Já a bateria de Robert continua sendo o ponto de equilíbrio da banda, o centro da sonoridade do Cirith.


Como esperado, um clima épico perpassa todas as canções aqui presentes, que como de praxe, soam sombrias e diversificadas. Após uma breve introdução instrumental, temos a espetacular “Legions Arise”, veloz, enérgica, com riffs fortes, baixo galopante e tudo mais que um fã espera da banda. Na sequência, “The Frost Monstreme” tem boa cadência, um certo ar setentista, ótimo trabalho de bateria e a epicidade que todos adoramos. “The Fire Divine” é dura, com um ótimo refrão, bélica e vai te fazer se sentir em um campo de batalha, enquanto “Stormbringer” é aquela “balada” épica e pesada, com as guitarras se destacando e um dos solos mais bonitos de todo álbum. “Fractus Promissum”, tem uma queda para os anos 70, e traz em si a essência do que é o Heavy Metal; “Nightmare” é pesada, sombria e épica, e “Before Tomorrow” esbanja peso. Encerrando o trabalho, a cruel, opressiva e venenosa “Forever Black”.

Gravado no The Captain's Quarters, com produção da banda e de Armand John Anthony (Night Demon), o resultado é bom, pois deixa tudo claro e audível, mas com aquela crueza que sempre foi característica das produções passadas. Na capa, mantendo a tradição, mais uma vez temos Elric de Melnibone, personagem criado por Michael Moorcock, e que não só adorna as capas dos álbuns, como se faz presente em diversas letras durante toda a carreira. Você pode argumentar que em Forever Black, o Cirith Ungol apenas se limitou a fazer aquele mesmo som do passado, mas sinceramente, quem aqui queria ouvir algo diferente disso? Os fãs queriam o bom e velho Cirith de volta, e é exatamente o que eles encontram aqui, e em sua melhor forma. Se a ideia era abrir um sorriso enorme no rosto de todos os seus fãs, devo dizer que obtiveram êxito nessa missão. Um dos melhores álbuns que você escutará em 2020.

NOTA: 91

Cirith Ungol é:
- Tim Baker (vocal)
- Greg Lindstrom (guitarra)
- Jim Barraza (guitarra)
- Jarvis Leatherby (baixo)
- Robert Garven (bateria)

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