terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Anvil - Legal at Last (2020)


Anvil - Legal at Last (2020)
(AFM Records - Importado)


01. Legal at Last
02. Nabbed in Nebraska
03. Chemtrails
04. Gasoline
05. I'm Alive
06. Taking to the Wall
07. Glass House
08. Plastic in Paradise
09. Bottom Line
10. Food for the Vulture
11. When All's Been Said and Done
12. No Time (bonus track)

Lá se vão 42 anos de história – desde que surgiram com o nome de Lips, em 1978 –, e uma carreira marcada pela resiliência. Forjado no fogo do Hard’n’Heavy, através das mãos de Steve "Lips" Kudlow (vocal/guitarra) e Robb Reiner (bateria), o canadense Anvil lutou contra todas as adversidades possíveis, e forte como o aço, nunca renunciou a suas convicções musicais. O documentário Anvil! The Story of Anvil, de 2009, mostrou a todos que a vida nunca foi um mar de rosas para a banda, mas, ao mesmo tempo, ajudou a popularizar o seu nome, os colocando finalmente na posição de destaque que sempre mereceram. Desde então, o trio – completado atualmente pelo baixista Chris Robertson -, lançou quase um álbum a cada 2 anos.

Inevitavelmente, dado o curto espaço entre os lançamentos, e ao fato de dificilmente o Anvil mudar sua sonoridade, uma variação de qualidade acabou ocorrendo entre os trabalhos, e por mais que nenhum deles tenha sido efetivamente fraco, alguns não empolgaram tanto os fãs. Agora, com seu 18º álbum de estúdio, Legal at Last, o trio canadense quer mostrar que ainda continua forte, e que as décadas de carreira não foram o suficiente para arrefecer a paixão que possuem pelo Metal. Como já dito, não se trata de uma banda de ousar muito em sua sonoridade, então espere apenas o Anvil sendo Anvil, apresentando um Hard/Heavy com pitadas de Speed, pesado, básico e muito bem-feito. É mais do mesmo? Sim, mas não é exatamente isso que seus fãs esperam escutar?

O álbum abre a velocidade do som, com a rápida e pesada “Legal at Last”, onde flertam fortemente com o Speed e o Motörhead. Na sequência, a pesada e cativante “Nabbed in Nebraska”, dessas canções moldadas para você cerrar o punho e cantar junto o refrão. Destaque para o ótimo trabalho da parte rítmica. Com as guitarras permanentemente plugadas no talo, voltam a acelerar com a forte “Chemtrails”, sendo seguida pela cadenciada “Gasoline”, onde a guitarra de Lips não nega a influência de Black Sabbath em momento algum. Um álbum do Anvil não é um álbum do Anvil, se não tiver uma daquelas músicas que escancara tanto as influências da banda que chega a soar como um plágio. Sendo assim, tente não pensar em “Cat Scratch Fever'”, de Ted Nugent, ao escutar o riff da rocker e divertida “I'm Alive”. Lips deveria pagar royalties por essa. 



“Taking to the Wall” é uma das canções mais pesadas do álbum, e chega com a força de um juggernaut, passando por cima de tudo; “Glass House” possui um dos melhores riffs de todo trabalho e um ótimo refrão, mas falta um pouco de força nos vocais, enquanto “Plastic in Paradise” é outra a contar com riffs sabbathicos. “Bottom Line” esbanja energia, e tem alguns ecos de Motörhead aqui e ali, algo que também podemos observar na ótima “Food for the Vulture”, uma dessas canções 100% Anvil, e que deixa escancarado o DNA da banda. A idolatria pelo Black Sabbath se mostra mais forte do que nunca em “When All's Been Said and Done”, penúltima faixa do trabalho, que encerra com uma faixa bônus, “No Time”, veloz, rápida e verdadeiramente empolgante.

No quesito produção, mais uma vez a banda voltou a trabalhar com a dupla Martin "Mattes" Pfeiffer e Jörg Uken (responsável pela mixagem), com resultados muito bons, já que tudo ficou muito claro e audível. Alguns fãs mais antigos se incomodam com tamanha polidez, e certamente preferiam um som um pouco mais sujo, mas sinceramente, não penso que esse seja um fator comprometedor. A capa, em parte inspirada no fato do Canadá ter modificado a sua legislação com relação a maconha, em parte querendo dizer que hoje em dia não tem mais nada de errado em gostar de Anvil, é obra de W. Cliff Knese. Sem inventar, Lips e cia entregam o esperado, através de um Heavy Metal básico, pesado, simples e enérgico. Se você é fã, não tem erro, pode quebrar seu cofre, contar libra por libra, e adquirir esse trabalho para sua coleção, mas se você faz parte daquela turma que reclama do trio lançar sempre o mesmo álbum, não existe absolutamente nenhuma alternativa que não seja passar longe de Legal at Last. É o Anvil sendo Anvil, e isso já basta!


NOTA: 85

Anvil é:
- Steve "Lips" Kudlow (vocal/guitarra)
- Chris Robertson (baixo)
- Robb Reiner (bateria)


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Chacina - Mortus Operandi (2019)


Chacina - Mortus Operandi (2019)
(Heavy Metal Rock - Nacional)


01. Sequestro
02. Mariana
03. Somos todos iguais
04. Hit
05. Pastor
06. Podres Poesias
07. Na Alma
08. Estado Islâmico (bônus track)

Fazer Metal no Brasil nunca foi fácil, e a carreira da Chacina é um reflexo disso. Surgida na cidade de Piracicaba/SP, no ano de 1990, lançaram algumas demos com o decorrer dos anos, até que em 2005, resolveram pausar as atividades. Seguiu-se então um hiato de 9 anos, até que em 2014 resolveram voltar a se reunir. Em 2015 lançaram o EP Gaza, com 3 faixas, e após 4 anos, finalmente conseguiram, merecidamente, soltar seu primeiro álbum completo de estúdio, Mortus Operandi. Musicalmente, se enveredam pelo Thrash Metal/Crossover, e certamente vão agradar em cheio aos fãs de nomes como Nuclear Assault, Hirax, Overkill, Exodus ou Municipal Waste.

Umas das coisas mais legais aqui, é que apesar de apostarem em uma proposta mais old school, em momento algum a música da Chacina soa datada, já que eles conseguem atrazer para os tempos atuais, modernizando a mesma sem que para isso tenham que abrir mão das suas características básicas. Os vocais de Allan Big Thunder se mostram bem variados e insanos, como o estilo pede, enquanto a guitarra de Miguel Araújo nos entrega ótimas linhas e riffs verdadeiramente pesados e furiosos. Quanto a parte rítmica, com o baixista Jeferson Novaes e o baterista Billy Dark Machine, mostram boa técnica e imprimem um peso verdadeiramente opressor as canções. Em suma, temos aqui tudo que um fã do estilo procura em um CD.


“Sequestro” abre o álbum com vocais agressivos e riffs raivosos, sendo seguida pela intensa “Mariana”, que trata do desastre ambiental e humano ocorrido na cidade mineira. Aliás, cabe dizer que liricamente a banda não alivia para ninguém, com letras bem ácidas e críticas. O trabalho tem sequência com a mais cadenciada e direta “Somos todos iguais”, e com a veloz e agressiva “Hit”, que se destaca pelos riffs de qualidade. Nessa mesma pegada, temos “Pastor”, onde os vocais agressivos de Allan assumem uma posição de destaque. A pesada “Podres Poesias” traz a cadência de volta, e “Na Alma” é daquelas canções forjadas sob medida para você sair batendo cabeça pela sala. Encerrando, a ríspida e nervosa “Estado Islâmico”.

Todo processo de produção ficou a cargo de Renato Napty (Lethal Fear, Ivory Gates, The Goths), com um resultado muito bom, já que deixou tudo bem claro e audível, mas mantendo a agressividade e organicidade. A capa é obra de Danilo de Almeida, e reflete muito bem o conteúdo lírico do álbum. Se você é fã de Thrash/Crossover, Mortus Operandi com certeza será um belo acréscimo a sua coleção, mas se prepare, porque depois de tanto bater cabeça, certamente precisará ou do telefone de um ortopedista, ou de uma cartela de relaxante muscular, pois seu pescoço estará moído.

NOTA: 84

Chacina é:
- Allan Big Thunder (vocal)
- Miguel Araujo (guitarra)
- Jeferson Novaes  (baixo)
- Billy "Dark Machine" (bateria)

Participação:
- Ricky Furlani (guitarra)

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Sepultura – Quadra (2020)


Sepultura – Quadra (2020)
(Nuclear Blast/BMG - Nacional)


01. Isolation
02. Means To An End
03. Last Time
04. Capital Enslavement
05. Ali
06. Raging Void
07. Guardians Of Earth
08. The Pentagram
09. Autem
10. Quadra
11. Agony Of Defeat
12. Fear, Pain, Suffering, Chaos

Pode-se dizer que hoje existem dois tipos de fãs do Sepultura, e que vivem em lados opostos. De um, temos aqueles que não abandonaram a banda em momento algum, mesmo naqueles mais delicados. Até podem ser críticos quanto a certos lançamentos realizados, mas nunca viraram as costas ao quarteto. Do outro temos as, desculpe o termo, “Viúvas dos Cavalera”. Esse grupo optou por deixar a banda de lado após a saída de Max, e o lançamento dos primeiros álbuns com Derrick Green, alegando que sem ele, perderam a lógica de existir, crítica que se maximizou após a partida de Igor em 2006, para tocar com seu irmão. Para eles, o Sepultura deveria ter deixado de existir. Sinceramente, tenho minha opinião bem formada a respeito disso, mas de forma alguma vou julgar quem faz parte de um ou outro grupo.

Mas independente do grupo que você, fã de encaixa, uma coisa não dá para discutir: a importância do Sepultura para a história do Heavy Metal mundial. São 36 anos de vida, e álbuns do calibre de Schizophrenia (87), Beneath the Remains (89), Arise (91) e Chaos A.D. (93), todos com seu espaço cativo entre os melhores trabalhos de Thrash Metal de todos os tempos. Se após 1998 a carreira começou a capengar graças a alguns lançamentos discutíveis -– fosse pela qualidade da música, fosse por escolhas erradas de produtores -–, a partir de Dante XXI (06), e principalmente A-Lex (09), as coisas começaram a entrar lentamente nos eixos novamente, e se acertaram de vez com Kairos (11). Desde então a banda vêm em uma ascendente constante no que tange a qualidade dos seus lançamentos.

Machine Messiah (17) já havia me impressionado bastante, dada sua qualidade, criatividade e grandiosidade, o que me deixou curioso para saber como, e se, conseguiriam superá-lo. Pois bem! Agora com Quadra, seu 15º álbum de estúdio, não só eu, como os demais fãs de Metal pelo mundo têm essa resposta. Antes de tudo, cabe lembrar que o Sepultura tem como traço marcante em sua história, a inquietude e o inconformismo. Nunca em toda a sua carreira, se acomodaram, e álbum após álbum, independente de fase, sempre procuraram crescer, mudar, inovar. Se até o lançamento de Arise isso funcionou com perfeição, de Chaos A.D. em diante, passou a ser questionado por fãs. Nesse ponto, entra uma questão de gosto pessoal, de você ser mais tradicionalista quanto a música, ou ser desses com uma amplitude musical maior. Vai realmente da individualidade de cara um, e não muda o fato que o Sepultura sempre buscou o caminho mais difícil, abrindo mão da sua zona de conforto, e nunca parando no tempo.


Apesar de liricamente Quadra não se tratar de um trabalho conceitual, musicalmente suas 12 canções se dividem em 4 blocos de 3, que podem ser percebidos com certa facilidade pelo ouvinte. Da faixa 1 até a 3, temos aquele Sepultura mais Thrash, raivoso, enquanto entre a 4 e a 6, escutamos um pouco daquela fase mais percussiva da banda, que se iniciou em Chaos A.D.. Da 7 até a 9, observamos uma banda mais experimental, mais focada no instrumental e sim, com uma influência de Progressivo mais latente, e a partir de faixa 10, escutamos uma banda mais “calma”, mais lenta, com um foco maior no sinfônico e nas melodias. Lendo assim, pode parecer que o álbum se tornou uma colcha de retalhos, mas existe um fio condutor que une todas as partes, que é o Thrash/Groove da banda, que em momento algum deixa de se fazer presente, trazendo peso e agressividade para cada uma das músicas aqui. Isso acaba dando um sentido de unidade absurdo ao álbum, fazendo que o ouvinte consiga se sentir identificar com qualquer um desses segmentos de Quadra.

Individualmente, todos os músicos conseguem brilhar. Sinceramente, não consigo enxergar onde mais as pessoas possam encontrar motivos para criticar a voz de Derrick Green. A cada lançamento ele se supera, mostrando uma gama vocal cada vez maior. A variedade que ele consegue imprimir impressiona qualquer um que se permita escutar o álbum sem aquele preconceito bobo por ele não ser Max Cavalera, além de permitir o Sepultura explorar mais os seus limites. Andreas Kisser resolveu reabrir de vez sua caixa de riffs marcantes, algo que já havia sido observado em Machine Messiah, e que aqui se consolida definitivamente. Sua capacidade nunca foi discutida, mas que ele havia se acomodado por alguns anos isso é indiscutível. Que bom que ele está de volta, e não apenas reciclando riffs de trabalhos anteriores, como o fez por uns anos. Como costumo dizer, Paulo Jr é Paulo Jr, e ele entrega o trabalho consistente de sempre, mas é inegável que desde que Eloy Casagrande entrou na banda, puxou Paulo com ele. Por sinal, Eloy é um caso a parte. O que ele faz é sobre-humano, não tem explicação, e mais uma vez ele é brilhante. Sua amplitude musical é absurda, e sinceramente, nem dá para sentir falta de Igor nesse quesito.



Agora vamos às músicas, o foco principal de tudo aqui. Não se deixe enganar pela introdução orquestrada e com corais, pois quando começa, “Isolation” é uma verdadeira paulada Thrash/Groove. Intensa, direta, com vocais brutos, riffs ferozes e um trabalho brilhante de bateria, é desde já uma das candidatas do álbum a se tornarem clássicas. Esse lado mais feroz continua presente em “Means To An End”, altamente enérgica e com um ótimo trabalho de guitarra, e em “Last Time”, bruta, densa, com uma variedade de tempo bem interessante, e até mesmo partes orquestrais que foram muito bem encaixadas. “Capital Enslavement” traz aquelas batidas tribais que vão remeter o ouvinte ao passado da banda, além de possuir um ótimo groove e riffs bem fortes. É dessas músicas moldadas para fazer você sair batendo cabeça. “Ali” é extremamente variada e desafiadora, e se destaca não só por isso, mas também pelos riffs pesados e pelo trabalho vocal de Derrick. “Raging Void” encerra a primeira metade do álbum com um ritmo mais dissonante, bom groove, e ótimo trabalho percussivo.

A segunda metade abre com a espetacular “Guardians Of Earth”, que de cara pode fazer o ouvinte se recordar da clássica “Kaiowas”. Ela inicia com um violão, sendo acompanhada posteriormente por uma percussão tribal e um coral, até finalmente explodir em fúria com as guitarras e vocais furiosos. É diferente e ousada. É Sepultura. Outra canção que surpreende demais é a instrumental “The Pentagram”, dinâmica, intrincada e com guitarras fortes. “Auten” se destaca não só por suas inclinações progressivas, mas também pelo peso e pelo seu ar mais bruto. Além disso, tem um refrão forte e marcante. “Quadra” é quase que um interlúdio acústico, com seus apenas 47 segundos, onde Andreas mostra toda a sua conhecida habilidade ao violão. Ela prepara o terreno para as duas últimas canções do álbum. “Agony Of Defeat” não só possui um clima mais atmosférico, como apresenta boas melodias e belos corais, tudo sem abrir mão do peso. É nela também que Derrick mostra toda a sua variedade vocal. Encerrando, outro momento surpreendente, com “Fear, Pain, Suffering, Chaos”, que conta com a participação de Emmily Barreto, do Far From Alaska, dividindo os vocais com Derrick Green. Fora isso, esbanja peso nas guitarras, uma ótima bateria, e possui elementos atmosféricos que dão uma densidade extra para a canção.

Na produção, o onipresente, onipotente e onisciente Jens Bogren. Definitivamente, ele consegue tirar o melhor do Sepultura, e não me surpreende que depois de Machine Messiah, tenham optado por voltar ao Fascination Street Studios e trabalhar mais uma vez com ele. Tudo cristalino, limpo, e pesado, mas ainda sim soando vivo, sem o ar artificial e plastificado das produções modernas. Como Jens consegue? Bem, só perguntando a ele. Com muita competência, o Sepultura conseguiu fazer um álbum de Thrash/Groove simplesmente explosivo, onde esbanjam criatividade, e sem abrir mão do seu direito inalienável de experimentar e ousar. Se fossemos colocar as fases da banda lado a lado, poderíamos dizer que Quadra é o Chaos A.D. da atual formação, dado o seu nível de qualidade absurdo. É um segundo auge do Sepultura. Cabe agora aos fãs decidirem se continuam em sua zona de conforto, se prendendo a um passado que dificilmente retornará, ou aceitam a realidade. Os que optarem pela segunda, não vão se arrepender, pois, temos aqui desde já, um dos melhores álbuns de 2020.

NOTA: 9,2

Sepultura é:
- Derrick Green (vocal);
- Andreas Kisser (guitarra);
- Paulo Jr (baixo);
- Eloy Casagrande (bateria).

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Khorium - Idiocracia Tropical Contemporânea (2019)


Khorium - Idiocracia Tropical Contemporânea (2019)
(Independente- Nacional)

01. Intro (Terra Brasilis)
02. Resista
03. Quem é quem
04. Idiocracia Tropical
05. Ainda assim eu me levanto (Maya Angelou) feat. Fernanda Lira
06. Abordagem
07. Negue feat. Luan Haddad
08. Perdão
09. Silenciar

O Khorium é uma banda relativamente nova, já que surgiu no ano de 2017, na cidade de Volta Redonda. Apesar do pouco tempo de estrada, em 2018 lançou o EP Manual Prático do Brasil, que chamou a atenção do público e da mídia por sua qualidade, e que serviu para deixar aquele gosto de quero mais nos ouvidos dos amantes da música pesada. Musicalmente apresentam uma sonoridade que certamente vai desagradar os mais tradicionalistas, já que mesclam vocais rapeados com guitarras Thrash, baixo funkeado, bateria pesada e muito, muito groove. Para apimentar mais ainda, letras de uma acidez absurda, que não escondem a ideologia da banda, já que aqui não tem esse papo “isentão” de que não se mistura política com Heavy Metal.

O Khorium coloca o dedo com vontade na ferida purulenta que vem tomando conta de nossa sociedade, e isso já fica muito claro no título e na ilustração da capa. Glaydson Moreira se sai muito bem nos vocais, alternando momentos em que canta mais rapeado com outros mais agressivos e típicos das vertentes mais extremas do Metal. Ele também é o responsável pelas guitarras, que tem uma abordagem mais próxima do Thrash e do Crossover, apresentando riffs fortes e agressivos. Na parte rítmica, Roberto Bizarelo se destaca pelo seu baixo mais funkeado, enquanto a bateria de Shalon Webster imprime muito peso as canções. A dupla, com seu ótimo trabalho, é a base de toda a música do trio, dada sua capacidade dar aquele groove diferenciado as mesmas.


“Intro (Terra Brasilis)” serve quase como uma vinheta de apresentação, deixando claro ao ouvinte o que ele encontrará pela frente, do ponto de vista lírico. Na sequência, temos a grooveada “Resista”, onde os destaques ficam com o refrão e o bom trabalho das guitarras. “Quem é quem” pende mais para o Rapcore, apresentando guitarras pesadíssimas, e uma letra que é um verdadeiro tapa na cara de muitos por aí. “Idiocracia Tropical” tem aquele groove mais funkeado e bom peso, sendo seguida pela ótima “Ainda assim eu me levanto”, que conta com participação de Fernanda Lira (Nervosa), e tem sua letra baseada em uma tradução livre do poema “Still I Rise”, da americana Maya Angelou, pseudônimo de Marguerite Ann Johnson, escritora, poetisa e ativista pelos direitos das mulheres, negros e minorias. Se por algum motivo não conhece a vida de Maya, pesquise, pois, sua história não só é fascinante, como um exemplo de luta e resistência. “Abordagem” é uma canção densa, arrastada, e com uma letra fortíssima, abordando a questão do racismo no Brasil; “Negue”, com participação de Luan Haddad (Comboio Calibre) é outra onde as guitarras grooveadas se destacam, enquanto “Perdão” tem uma pegada mais Thrash. Finalizando, “Silenciar”, que apesar de ser a mais “calma” do álbum, não abre mão do peso.

A produção foi realizada pela própria banda, e tem qualidade, estando na média de boa parte das produções nacionais. É crua, mas ainda sim permite escutar com clareza todos os instrumentos, além de soar bem agressiva. Já a capa, uma das melhores de 2019, é obra de Rogério Fortes, e retrata com perfeição a realidade que vive o nosso país. Mostrando não ter medo de dizer o que pensa, e ajustando cada vez mais sua proposta sonora, o Khorium se candidata a ser uma força crescente do underground nacional nos próximos anos. Levante, resista, lute!

NOTA 82

Khorium é:
- Glaydson Moreira (vocal/guitarra)
- Roberto Bizarelo (baixo)
- Shalon Webster (bateria)

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Dogma Blue - Quietus (2019) (EP)


Dogma Blue - Quietus (2019) (EP)
(Independente - Nacional)


01. Disorder
02. Quietus
03. No Garden
04. Dissolution
05. Mucamba

Obstante na atualidade o Heavy Metal não estar entre os estilos musicais mais populares, ainda sim a abnegada paixão de seus fãs, faz com que todos os dias uma nova banda surja em algum lugar desse mundo. Obviamente que no Brasil isso não é diferente. O Dogma Blue é uma banda relativamente nova, surgida em Curitiba/PR, em abril de 2018, mas mesmo assim, pouco mais de 1 ano após sua criação, não quis perder muito tempo e tratou de soltar seu EP de estreia. Vou ser sincero, normalmente fico com os dois pés atrás quando uma banda se apressa para já soltar material em tão pouco tempo, e isso não foi diferente quando coloquei as mãos no CD do quinteto curitibano.

Esse temor foi desaparecendo a medida que a audição do EP foi se dando. Óbvio, não é um trabalho perfeito, pois mesmo que tenhamos músicos experientes na formação, ainda sim se trata de uma banda dando seus primeiros passos. É natural que nessa situação, estejam descobrindo os rumos que desejam seguir e amadurecendo sua sonoridade, nem pode ser diferente disso. A questão é que mesmo assim, nos deparamos com um material que mostra qualidade e muito potencial para crescimento. Musicalmente, trafegam entre o Heavy e o Hard, com algumas outras influências salpicadas aqui e ali. O instrumental apresentado é muito bom, com as guitarras nos entregando bons riffs e melodias, além de solos de qualidade inquestionável. A parte rítmica mostra boa técnica e é a responsável por imprimir peso as canções. Quanto aos vocais, trafegam entre tons mais limpos e aquela rouquidão que em alguns momentos, pode remeter o ouvinte ao Motörhead. É legal, mas a verdade é que em alguns momentos, acaba não funcionando 100%.


De cara, temos a motörheadiana “Disorder”, um Heavy veloz com pitadas de Thrash, vocais sujos, guitarras ríspidas e um belo solo, algo que observamos em todas as canções daqui para frente. Sem dúvida, um dos grandes destaques desse EP. Na sequência, a mais cadenciada “Quietus”, com bons riffs, bom trabalho de guitarra e bastante peso. Aqui, em alguns momentos, o vocal destoa um pouco do instrumental, algo que já citei lá acima, mas não é nada que alguns ajustes não resolvam. Isso também ocorre na canção seguinte, “No Garden”, o que faz dela um pouco cansativa em certos momentos, mas nada que as passagens mais grooveadas de guitarra que surgem aqui e ali não resolvam. Ainda com uma pegada mais cadenciada, temos “Dissolution”, mais densa e pesada, mas com boas melodias, e encerrando, “Mucamba”, um Hard/Heavy bem direto e onde voltam a apostar um pouco mais na velocidade em alguns momentos. Aqui o vocal funcionou muito bem.

A produção ficou a cargo da banda, com a mixagem e a masterização sendo realizadas por Paulo Bueno (Motorocker, Cadillac Dinossauros). O resultado é bom e ficou dentro da média, com instrumentos claros, audíveis, certa crueza e boa dose de organicidade. A capa é obra de Jean Michel, que já trabalhou com nomes como Metal Church, Keep of Kalessin e Michael Sweet. Apresentando um potencial de crescimento latente, o Dogma Blue é um nome que merece ser observado bem de perto nos próximos anos, pois com o tempo, tem tudo para se firmar entre os principais nomes do estilo no país. Tudo é uma questão de aparar algumas arestas.

NOTA: 7,9

Dogma Blue é:
- Marcelo Paes (vocal)
- Tales Ribeiro (guitarra)
- Rodrigo Kolb (guitarra)
- Roberto Greboggy (baixo)
- André Prevedello (bateria)

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

The Rods - Brotherhood of Metal (2019)


The Rods - Brotherhood of Metal (2019)
(SPV/Steamhammer/Shinigami Records - Nacional)


01. Brotherhood of Metal
02. Everybody's Rockin'
03. Smoke on the Horizon
04. Louder Than Loud
05. Tyrant King
06. Party All Night
07. Tonight We Ride
08. 1982
09. Hell on Earth
10. The Devil Made Me Do It
11. Evil in Me

O que seria uma banda cult? Um nome pouco ou totalmente desconhecido do grande público, mas com trabalhos de qualidade inegável? Bandas que apesar de pouco conhecidas, influenciaram toda uma cena surgida posterior a sua existência? Qualquer banda dos anos 80, de qualidade ou não, que tenha fracassado fragorosamente, mas tenha resolvido voltar nos dias atuais? Conheço diversas definições para o termo. Não sei se para o caro leitor, alguma dessas definições se encaixa nesse caso, mas eu sempre enxerguei o The Rods como uma banda cult. Surgida em 1980, teve entre seus fundadores, o vocalista e guitarrista David "Rock" Feinstein, primo de ninguém menos que Ronnie James Dio, com que tocou junto no ELF, e foi responsável por um dos álbuns mais legais e clássicos da primeira metade dos anos 80, o ótimo Wild Dogs (82).

Mas esse não foi o único acerto do The Rods nos anos 80. Praticando um Heavy/Hard de muita qualidade, com alguns elementos do que viria a ser a vertente americana do Power Metal, foram responsáveis por outros grandes álbuns, como In The Raw (83) e Let Them Eat Metal (84). Em 1987, o The Rods encerrou suas atividades, mas dentro da onda de reuniçoes ocorrida nos últimos anos, retornaram no ano de 2010. Desde então esse é o seu terceiro trabalho de estúdio. Em Brotherhood of Metal, o trio formado por David "Rock" Feinstein (guitarra, vocal), Garry Bordonaro (baixo, vocal) e Carl Canedy (bateria, vocal), não inventa e mantém os dois pés muito bem fincados na sonoridade oitentista. Até a capa é uma releitura mais moderna da de Wild Dogs. Então se procura modernidade, esse não é um trabalho indicado para você.


“Brotherhood of Metal” abre os trabalhos com um bom trabalho de guitarra, riffs fortes e solo de qualidade, sendo seguida por “Everybody's Rockin'”, um Hard/Heavy que mescla muito bem aquele som do início dos anos 80 com o Classic Rock tipicamente “rainbowniano”. “Smoke on the Horizon” é mais uma que se destaca pelos riffs, e tem aquele Hammond chupado do Deep Purple, e que funciona muito bem. O início de “Louder Than Loud” me remeteu diretamente a Dio, enquanto “Tyrant King” poderia ser uma música do Judas Priest, dado a semelhança do trabalho de guitarra. Tipton e Downing certamente abririam um sorriso a escutando. “Party All Night” tem uma pegada bem Hard e baixo grooveado, “Tonight We Ride” Soa como um encontro de Saxon com Priest, e a nostálgica “1982” - ano em que Wild Dogs foi lançado – traz boas guitarras e uma letra que conta a história da banda. A sequência que encerra o álbum é composta por “Hell on Earth”, outra com forte influência de Judas e um bom refrão, “The Devil Made Me Do It”, com uma pegada mais Hard, e a épica “Evil in Me”, que se destaca pelos ótimos riffs.

A produção é da própria banda, com mixagem e masterização realizadas por Chris Collier (Last in Line, Metal Church, Prong, Riot Y). O resultado é muito bom, pois apesar de toda a clareza, não descaracterizou o som da banda, mantendo aquela aura oitentista, mas sem soar datada. Já a capa, como já dito, uma releitura do que vemos em Wild Dogs, foi obra de Eric Philippe (Rhapsody of Fire, Sonata Arctica, Stratovarius, Virgin Steele). Sem reinventar nada e entregando aos seus fãs exatamente o que eles esperam, o The Rods lança mais um bom trabalho, que agrega qualidade a sua discografia e vai agradar em cheio a todos os headbangers mais saudosistas.

NOTA: 80

The Rods é:
- David “Rock” Feinstein (guitarra/vocal)
- Garry Bordonaro (baixo/vocal)
- Carl Canedy (bateria/vocal)

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Trulli/Lione Rhapsody – Zero Gravity (Rebirth and Evolution) (2019)


Trulli/Lione Rhapsody – Zero Gravity (Rebirth and Evolution) (2019)
(Nuclear Blast/Shinigami Records – Nacional)


01. Phoenix Rising
02. D.N.A. (Demon and Angel)
03. Zero Gravity
04. Fast Radio Burst
05. Decoding the Multiverse
06. Origins
07. Multidimensional
08. Amata Immortale
09. I Am
10. Arcanum (Da Vinci's Enigma)
11. Oceano (Josh Groban Cover) (bonus track)

Nos últimos anos, me perdi meio a tantas encarnações do Rhapsody convivendo umas com as outras. A mais nova surgiu no final de 2018, após Luca Turilli ter colocado um ponto final do Luca Turilli's Rhapsody, com direito a turnê de despedida e tudo. Ele então resolveu se unir as ex-colegas dos tempos de Rhapsody (of Fire), mais precisamente o icônico vocalista Fabio Lione, o guitarrista Dominique Leurquin (que tocou ao vivo com a banda entre 2000 e 2010), o baixista Patrice Guers e o baterista Alex Holzwarth, e dessa forma, como em um passe de mágica, nasceu o Trulli/Lione Rhapsody, que para muitos, passava a sensação de ser mais Rhapsody que o Rhapsody of Fire de Alex Staropoli. Alguns por aí já até esperavam uma espécie de Symphony of Enchanted Lands parte 3.

Bem, sinto informar a esses, que nada pode ser mais equivocado do que isso, e com todo respeito, só quem não acompanhou toda a carreira de Trulli – tanto nos trabalhos solos quanto nas demais bandas que formou –, nutria essa esperança. Não entendam mal, claro que temos aqui elementos daquele Rhapsody clássico dos primeiros álbuns, afinal, as orquestrações bombásticas, coros cinematográficos, melodias e refrões fáceis se fazem presentes, isso é inerente a forma de compor de Luca, mas o Trulli/Lione Rhapsody tem a proposta de ir muito além. O guitarrista sempre procurou ousar e experimentar, e mesmo mantendo suas características, procurava sair um pouco do padrão musical de sua ex-banda. Significa então que estamos diante de um álbum sem relevância? Na verdade, é exatamente o contrário, pois em se tratando da cena Power/Prog melódica atual, Zero Gravity (Rebirth and Evolution) é um belíssimo exemplar de álbum.


Como já dito, elementos clássicos se fazem presentes, e ajudam a dar a identidade Rhapsody para o quinteto, mas o que temos aqui é algo que se mostra muito mais eclético e variado, do que a antiga banda dos músicos. É uma sonoridade mais atualizada, com uma dose maior de complexidade, e onde o Power Metal já conhecido recebe grandes doses de Prog Metal, além daquele toque mais moderno, com uso discreto de elementos eletrônicos, que marcam toda a carreira de Luca. Vale dizer que apesar da diversidade musical, temos muita coesão aqui. Se fossemos traçar comparações musicais com outros nomes, eu ousaria dizer que o que temos em Zero Gravity (Rebirth and Evolution), se aproxima muito mais do Power, Prog e do Metal Sinfônico atual, do que daquele Power Metal Sinfônico característico do passado. Aqui, temos mais de Dream Theater, Kamelot, Symphony X e Epica, do que de Rhapsody (of Fire), e isso acaba sendo muito positivo. Para que reciclar o passado, se a chance de se alcançar a excelência de álbuns como Symphony of Enchanted Lands (98), Dawn of Victory (00) ou Power of the Dragonflame (02) é praticamente nula?

As duas primeiras canções, “Phoenix Rising” e “D.N.A. (Demon and Angel)”, até podem enganar um pouco o ouvinte, com aquela pegada bem tradicional do Rhapsody, com suas melodias, seu ritmo um pouco mais acelerado e refrões grudentos. Vale destacar também o belo dueto entre Lione e Elize Ryd (Amaranthe), na segunda canção. Já “Zero Gravity”, obstante os elementos padrões e esperados, busca acrescentar algo novo, com uma passagem de música étnica, típica de um álbum do Orphaned Land. Muito legal! “Fast Radio Burst” tem uma pegada mais moderna, voltada para o Prog/Power atual, peso e bons riffs. Sai completamente do lugar-comum, assim como a faixa seguinte, “Decoding the Multiverse”, que não só traz em si elementos que encontraríamos em uma canção do Dream Theater, como também tem, lá pela metade, um momento totalmente Queen. “Origins” é quase uma vinheta orquestra/sinfônica, e é muito bonita.


Aquela pegada mais Prog Metal, meio Dream Theater, volta a surgir em “Multidimensional”, que destaca principalmente pelo uso de alguns experimentos eletrônicos, além do refrão e dos coros, muito bons. “Amata Immortale” é muito mais uma peça operística do que uma canção de Metal, e se destaca pelas lindas orquestrações e pelo desempenho soberbo de Fabio Lione. Uma das baladas mais lindas que escutei esse ano. “I Am” traz a tona novamente a veia Progressiva da banda, além de contar com ótimos sintetizadores, refrão cativante, e outra grande performance de Lione. Vale destacar em determinado momento, voltam a encorporar o Queen mais uma vez. Encerrando a versão padrão do álbum, temos a ótima “Arcanum (Da Vinci's Enigma)”, que traz a tona aquele Rhapsody mais Power, com uma levada mais agitada, boas guitarras e orquestrações que se destacam. Após isso, temos uma faixa bônus um tanto dispensável, uma versão para “Oceano”, de  Josh Groban. Não é que tenha ficado ruim, mas ficou idêntica a original, e do meu ponto de vista, isso tira a lógica de se fazer uma versão.

Produzido por Luca e Fabio, e com mixagem e masterização realizados por Simone Mularoni (DGM, Elvenking, Luca Turilli's Rhapsody, Twilight Force, Vision Divine), o resultado, no que se refere a produção, é excelente. Cada mínimo detalhe pode ser notado. A capa é obra de Stefan Heilemann (Dimmu Borgir, Epica, Kamelot, Kreator, Michael Schenker Fest). Menos acessível do que muitos poderiam imaginar, diverso e mais pesado do que qualquer trabalho das encarnações anteriores da banda, Zero Gravity (Rebirth and Evolution), atualiza o som do Rhapsody, fazendo a transição entre aquele Power Sinfônico/Melódico dos anos 90, para o Power/Prog Sinfônico dos dias de hoje. Imperdível para os fãs do estilo!

NOTA: 85

Trulli/Lione Rhapsody é:
- Fabio Lione (vocal);
- Luca Turilli (guitarra/teclado);
- Dominique Leurquin (guitarra);
- Patrice Guers (baixo);
- Alex Holzwarth (bateria).

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