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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Die Apokalyptischen Reiter - Der Rote Reiter (2017)


Die Apokalyptischen Reiter - Der rote Reiter (2017)
(Nuclear Blast Records/Shinigami Records – Nacional)


01. Wir sind zurück
02. Der rote Reiter
03. Auf und nieder
04. Folgt uns
05. Hört mich an!
06. The Great Experience of Ecstasy
07. Franz Weiss
08. Die Freiheit ist eine Pflicht
09. Herz in Flammen
10. Brüder auf Leben und Tod
11. Ich bin weg!
12. Ich nehm' dir deine Welt
13. Ich werd' bleiben

Como tudo nesse mundo, o Heavy Metal também foi afetado de diversas formas pela popularização da internet. Uma delas, foi como a música se tornou global, já que hoje, com um simples clique, você consegue ter acesso a bandas dos mais diversos países, mesmo aqueles mais obscuros em se tratando do estilo. Ainda sim, ou talvez por toda essa facilidade, muita coisa acaba passando batida. Esse é o caso dos Cavaleiros do Apocalipse alemães, o Die Apokalyptischen Reiter, que mesmo estando na estrada a quase 25 anos, é quase uma desconhecida fora de seu país de origem. Sendo assim, cabe uma breve apresentação aos leitores que ainda não tiveram contato com a horda.

Surgido no ano de 1995, no estado da Thuringia, o Die Apokalyptischen Reiter – nome alemão para os 4 Cavaleiros do Apocalipse –, lançou seu debut, Soft & Stronger, em 1997. Na sequência, emplacaram mais 2 álbuns, Allegro Barbaro (99) e All You Need Is Love (00). Sua música tinha os pés bem fincados no Death Metal Melódico, mas abria espaço para elementos Folk que ajudavam a diferenciar a banda. Com a boa repercussão, assinaram um contrato com a Nuclear Blast, fato que marcou uma virada em sua história, já que as mudanças foram muito mais profundas do que uma simples troca de gravadora. Sua estreia na nova casa, Have I Nice Trip (03), deu início a um processo de evolução sonora, onde outros estilos foram sendo agregados a sua base Death, gerando algo que hoje é difícil de rotular. Os lançamentos seguintes, Samurai (04), Riders on the Storm (06), Licht (08), Moral & Wahnsinn (11) e Tief. Tiefer (14), não só consolidaram tal sonoridade, como também os colocaram entre os maiores nomes da música pesada alemã.

Musicalmente falando, gosto de chamar o Die Apokalyptischen Reiter – em tom de brincadeira, vale dizer – de Caos Metal. O termo caos pode soar um tanto negativo para quem lê, mas vejo como algo positivo, pois disse Nietzsche, “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela cintilante.”. É exatamente isso que o quinteto formado por Fuchs (vocal/guitarra), Ady (guitarra), Volk-Man (baixo), Dr. Pest (teclado) e Sir G. (bateria) faz. Misturando elementos de Heavy, Death, Folk, Power, Thrash, Neu Deutsche Harte, Metal Sinfônico, e até mesmo Jazz, criam uma música criativa, melódica, cativante e que prima pela versatilidade. Vindo de um álbum que preocupou os fãs, não por ser propriamente fraco, mas por ser irregular, precisavam provar que não haviam perdido a mão. Der rote Reiter prova que continuam afiados, já que mesmo com uma pequena queda de qualidade no final, conseguem manter um nível muito alto nas composições.


De cara, temos a rápida e cativante “Wir sind zurück”, com boas melodias e um refrão marcante, sendo seguida pela sombria “Der rote Reiter”, que soa, sem brincadeira, como se o Amon Amarth estivesse fazendo uma jam com o Rammstein. Aqui elementos de Death se misturam com NDH gerando uma canção pesada, bruta e densa. “Auf und nieder” tem uma pegada mais Rock, cercada por uma certa aura Folk e um refrão que cativa com facilidade; “Folgt uns” remete ao passado Death da banda, com ótimas melodias e riffs, além de possuir um belo solo, enquanto “Hört mich an!” volta a misturar elementos mais extremos com aquele Metal Industrial tipicamente alemão, e os vocais de Fuchs remetendo aos de Till Lindemann em alguns momentos. “The Great Experience of Ecstasy” mistura brutalidade com alguns elementos sinfônicos nos vocais e no instrumental, que a tornam um dos pontos altos de todo o trabalho. “Franz Weiss” carrega mais no Folk Metal, assim como “Die Freiheit ist eine Pflicht”, mas essa trazendo para si alguns elementos de NDH. “Herz in Flammen” apresenta guitarras com riffs típicos do Death Melódico; “Brüder auf Leben und Tod” esbanja peso e agressividade, e “Ich bin weg!” tem guitarras cativantes e um pé no Punk. Na sequência final, duas faixas bem sombrias e melancólicas, “Ich nehm' dir deine Welt” e “Ich werd' bleiben”.

A produção ficou a cargo do trio composto por Fuchs, Alexander Dietz (Deep Purple, Gamma Ray, Heaven Shall Burn) e Eike Freese (Dark Age, Hansen & Friends, Myrath), sendo que os dois últimos também foram responsáveis pela mixagem e masterização. Tudo claro, limpo, agressivo e audível, já que apesar de muita coisa acontecer ao mesmo tempo, o ouvinte consegue distinguir tudo com clareza. Já a capa foi obra de Fuchs e Patrick Wittstock (Deadlock, Heaven Shall Burn, Scar Symmetry). É o melhor trabalho dos alemães? Ainda penso que esse título pertence dobradinha formada por Samurai (04) e Riders on the Storm (06), mas Der rote Reiter recoloca o Die Apokalyptischen Reiter no caminho certo, e se apresenta como uma ótima porta de entrada para quem ainda não conhece a banda.

NOTA: 84

Die Apokalyptischen Reiter é:
- Fuchs (vocal/guitarra)
- Ady (guitarra)
- Volk-Man (baixo)
- Dr. Pest (teclado)
- Sir G. (bateria)

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Myrkgand - Old Mystical Tales (2019)


Myrkgand - Old Mystical Tales (2019)
(Heavy Metal Rock - Nacional)


01. Of The Blue Fire
02. Black Thunders of Zýr
03. Foreseeing The Future
04. Aquariü
05. Ghostwoods
06. Dunkelelf
07. Summoning The Cryptic Dæmonium
08. No Ímpeto da Fúria
09. Trolls Filthy Madfeast
10. Chthonian Cyclops

O Myrkgand é um desses nomes que surgem de tempos em tempos, para provar a qualidade e criatividade do cenário nacional quando o assunto é Heavy Metal. A one man band capitaneada por Dmitry Luna, surgiu no ano de 2012 em João pessoa/PB, com uma proposta de mesclar Black Metal, Death Metal Melódico e Pagan/Folk Metal, chegando ao seu debut autointitulado no ano de 2017. Apresentando músicas de muita qualidade, e recheado de participações especiais, o álbum teve ótimo acolhimento por parte da mídia e fãs – recebendo versões em países da América Latina, Europa e Ásia –, gerando assim uma expectativa a respeito do próximo passo a ser dado.

O 2º álbum é sempre um grande desafio para qualquer banda, ainda mais quando seu debut se destaca pela alta qualidade. O que fazer? Manter a pegada do primeiro e não correr riscos, agradando à base de fãs já conquistada? Seguir e dar aquele passo evolutivo a mais, que pode separar os grandes dos genéricos? Dmitry escolheu a segunda opção. Mas calma, não estamos falando de mudanças radicais na sonoridade, já que a mistura de Black, Death e Folk continua se fazendo presente, assim como a agressividade e velocidade de sua música. A diferença em relação ao debut se dá mais pelo fato de a música da banda soar um pouco mais melódica e diversificada, o que acaba sendo muito positivo.

Assim como na estreia, Old Mystical Tales conta com ótimos convidados, que somam o seu talento ao de Luna, enriquecendo demais todas as canções. Participam aqui, Kevin Kott (Masterplan, At Vance), Ashok (Cradle of Filth), Luiz Carlos Louzada (Vulcano), Marcus Siepen (Blind Guardian), Danilo Coimbra (Malefactor), Antônio Araújo (Korzus), Vito Marchese (Novembers Doom), Micha Meyer (ex-Iron Angel), Simone Rendina (Mortuary Drape), Renato Matos (Elizabethan Walpurga), Rodrigo Berne (ex-Tuatha de Danann), Claydson Silva (Pathologic Noise), Trollmannen (Trollfest), Dr. Leif Kjønnsfleis (ex-Trollfest), Liv Kristine (ex-Theatre of Tragedy) e Roland Grapow (Masterplan, ex-Helloween), sendo que esse último também cuidou da produção, mixagem e masterização.

As canções aqui presentes soam bem diretas, e possuem ótimas mudanças de andamento, que ajudam demais a dar uma maior diversidade ao trabalho. A velocidade se faz presente em todos os momentos, mas passagens cadenciadas surgem muito bem encaixadas, evitando que a audição soe cansativa. Os vocais de Dmitry estão ótimos e ríspidos, enquanto as guitarras brilham, entregando riffs que trafegam entre o Black e o Death Melódico com bastante naturalidade. Vale uma menção especial aos solos, excelentes em sua maioria. A parte rítmica – a bateria ficou a cargo de Kevin Kott, que toca no Masterplan e no At Vance – soa incrível, esbanjando não só agressividade, como também muita técnica. 


De cara, temos a pesada, agressiva e variada “Of The Blue Fire”, que tem um de seus solos feitos por Ashok. Ótima escolha para faixa de abertura. A sombria e furiosa “Black Thunders of Zýr” se destaca não só pelas ótimas melodias, como pelo trabalho vocal variado – parte deles feitos por Luiz Carlos Louzada –, e pelo solo de Marcus Siepen. “Foreseeing The Future” é um Black Metal que prima pela rispidez, e conta com participação de Danilo Coimbra, enquanto a excelente “Aquariü”, com vocais limpos de Antônio Araújo e solo de Vito Marchese, tem bom uso do teclado, que ajuda na ótima ambientação da canção, além de riffs bem agressivos. A avassaladora “Ghostwoods” encerra a primeira metade do álbum com ótimas guitarras, riffs que parecem navalhas afiadas e um solo de Micha Meyer.

A segunda metade abre com a sombria “Dunkelelf” e sua boa cadência, com destaque para os bons teclados, a variação vocal e o solo de Simone Rendina. Em “Summoning The Cryptic Dæmonium”, além da boa utilização de elementos melódicos oriundos do Folk, temos um ótimo trabalho de baixo e bateria, além das participações de Renato Matos e Rodrigo Berne. Ter uma canção em português, parece ser uma tradição que será estabelecida nos trabalhos do Myrkgand. Aqui, temos a ótima “No Impeto da Fúria”, séria candidata a se tornar um hino da banda, com seus bons riffs, vocais assustadores, e um bom solo de Claydson Silva. “Trolls Filthy Madfeast” é outra que mescla com muita felicidade, elementos de Black, Death e Folk, tudo isso enriquecido pelas participações para lá de especiais de Trollmannen nos vocais e de Dr. Leif Kjønnsfleis no solo. Encerrando, outra forte candidata a se tornar um clássico, “Chthonian Cyclops”, que além de equilibrar de forma ímpar elementos mais extremos e mais melódicos, ainda conta com a participação de Liv Kristine nos vocais e Roland Grapow em um dos solos.

Todo gravado e produzido no Grapow Studios, na Eslováquia, contou com a sua produção sendo dividida entre Dmitry e Roland Grapow, sendo que esse último também cuidou da mixagem e masterização. O resultado realmente é muito bom, pois equilibrou clareza com agressividade e peso, com a crueza necessária sendo oriunda de uma escolha muito feliz para a timbragem dos instrumentos. Embalado em um digipack simplesmente lindo, teve sua arte feita por Emerson Maia (Corpse Grinder, Frade Negro, Thrashera, Vultos Vociferos) e Antonio César (Aquaria, Endless, Syren), e logo criado pelo “Senhor dos Logos”, Christophe “Volvox” Szpajdel (Borknagar, Dimmu Borgir, Emperor, Fleshgod Apocalypse, Moonspell). O Myrkgand não só passou no teste do segundo álbum, como conseguiu fazer isso com louvor, lançando um dos melhores álbuns de Metal Extremo desse ano. Acreditem, vocês precisam ter esse álbum em sua coleção!

NOTA: 88

Myrkgand é:
- Dmitry (todos os instrumentos)

Convidados:
- Roland Grapow (Guitarra Solo #2 em “Chthonian Cyclops”)
- Antônio Araújo (Vocais limpos em “Aquariü”)
- Luiz Carlos Louzada (Vocais urrados adicionais em “Black Thunders of Zýr”)
- Renato Matos (Vocais (coros) em “Summoning the Cryptic Dæmonium”)
- Trollmannen (Vocais urrados adicionais em “Trolls Filthy Madfeast”)
- Liv Kristine (Vocais limpos em “Chthonian Cyclops”)
- Ashok (Guitarra Solo #2 em “Of the Blue Fire”)
- Marcus Siepen (Guitarra Solo em “Black Thunders of Zýr”)
- Danilo Coimbra (Guitarra Solo em “Foreseeing the Future”)
- Vito Marchese (Guitarra Solo em “Aquariü”)
- Micha Meyer (Guitarra Solo em “Ghostwoods”)
- Rodrigo Berne (Guitarra Solo em “Summoning the Cryptic Dæmonium”)
- Claydson Silva (Guitarra Solo em “No Ímpeto da Fúria”)
- Dr. Leif Kjønnsfleis (Guitarra Solo em “Trolls Filthy Madfeast”)
- Simone Rendina (Guitarra Solo em “Dunkelelf”)
- Kevin Kott (Bateria)

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terça-feira, 11 de junho de 2019

Eluveitie – Ategnatos (2019)


Eluveitie – Ategnatos (2019)
(Nuclear Blast Records/Shinigami Records – Nacional)


01. Ategnatos
02. Ancus - interludio
03. Deathwalker
04. Black Water Dawn
05. A Cry In The Wilderness
06. The Raven Hill
07. The Silvern Glow
08. Ambiramus
09. Mine Is The Fury
10. The Slumber
11. Worship
12. Trinoxtion
13. Threefold Death
14. Breathe
15. Rebirth
16. Eclipse

Apesar de uma passagem um tanto tumultuada pelo Brasil em fevereiro desse ano, com shows cancelados e trocas de acusações entre banda e produtores, com direito a virarem meme, devida a suposta exigência de chá no camarim, é inegável que o Eluveitie possui uma forte base de fãs no Brasil. Seu nome foi forjado não só a base de uma sonoridade que mescla de forma muito equilibrada, o Death Metal Melódico e o Folk Metal, como também se diferenciando da concorrência por uma abordagem mais séria nas letras, com foco na história e mitologia célticas, e claro, bons lançamentos.

Após passar por uma drástica mudança em 2016, com a saída de Anna Murphy (vocal e hurdy gurdy), Ivo Henzi (guitarra) e Merlin Sutter (bateria) – que acabaram formando o Cellar Darling –,  Chrigel Glanzmann optou por estrear a nova formação com uma continuação de Evocation I – The Arcane Dominion (09), intitulado Evocation II – Pantheon (17), algo que era prometido a alguns anos. Assim como o primeiro, o enfoque foi totalmente acústico, e mais uma vez se aprofundando na cultura e panteão de deuses célticos. Fechado o ciclo aberto em 2009, o Eluveitie volta a sua programação normal, fincando novamente seus pés de forma bem firme na fórmula que os consagrou.

Aos apreciadores de trabalhos como Spirit (06), Slania (08) e Origins (14), possivelmente os preferidos por boa parte dos fãs, posso afirmar sem medo que finalmente estes foram superados. Ategnatos é sem dúvida alguma, seu trabalho mais consistente, e mostra o Eluveitie em seu melhor momento, soando mais coeso, enérgico e criativo do que nunca. Esbanjando peso e boas melodias, e se utilizando muito bem dos elementos folclóricos, acabam por entregar um álbum bem diversificado. Os vocais de Chrigel continuam sendo um belo diferencial, mas Fabienne Erni prova de forma definitiva que é uma substituta mais do que à altura para Anna Murphy. A dinâmica entre as vozes de ambos funciona com perfeição. O trabalho das guitarras também se destaca pela qualidade dos riffs e pelo peso, assim como também a parte rítmica. Quanto aos instrumentos folclóricos, como sempre estão bem encaixados, e em momento algum suplantam o lado Metal da banda, enriquecendo demais o resultado.


O álbum já abre com uma porrada, “Ategnatos”, que mescla com perfeição as melodias folclóricas com a ferocidade do Death Melódico. Após um breve interlúdio – são 3 no total durante todo o trabalho, e que nada acrescentam –, “Deathwalker” surge com um ótimo groove, agressividade e boas melodias, assim como “Black Water Dawn” e “A Cry In The Wilderness”, ambas nesse mesmo padrão já conhecido pelos fãs. O álbum então dá uma breve acalmada, com a sequência formada por “The Raven Hill”, com as partes Folks um pouco mais afloradas, e “Ambiramus”, que possui uma melodia pop um pouco mais aflorada. O peso e agressividade retornam com “Mine Is The Fury” e se mantêm presentes na ótima e sombria “The Slumber”, onde o trabalho vocal da dupla Glanzmann/Erni se destaca. “Worship” é a faixa mais pesada do álbum, feroz, agressiva, com uma parte folclórica bem encaixada e participação do vocalista Randy Blythe (Lamb of God), enquanto “Threefold Death” apresenta não só bons riffs, como se equilibra muito bem entre as partes mais calmas e as mais brutas. Na sequência final, “Breathe” destaca ainda mais a voz de Erni, além de possuir boas guitarras; “Rebirth”, originalmente lançada em 2017, reaparece um pouco mais bruta, enquanto “Eclipse”, suave e tranquila, soa quase como um interlúdio, graças mais uma vez ao desempenho de Fabienne.

Quanto a produção, a gravação e engenharia de som ficaram a cargo do velho conhecido da banda, Tommy Vetterli (Coroner, Kreator), com a mixagem dividida entre Linus Corneliusson (Amorphis, Dimmu Borgir, Moonspell), em 4 faixas, e o onipresente, onipotente e onisciente Jens Bogren no restante do álbum. Já a masterização foi realizada pelo quase onipotente, onipresente e onisciente Tony Lindgren (Angra, Enslaved, Paradise Lost, Rotting Christ, Sepultura). O resultado não é menos que ótimo. Já a capa foi obra de Travis Smith (Anathema, Death, Fleshgod Apocalypse, King Diamond). Com uma consistência que não apresentava já a algum tempo, e maximizando ainda mais suas qualidades, como o peso e as melodias folclóricas, o Eluveitie acertou em cheio com Ategnatos, mostrando o porquê de se manter a tanto tempo entre os grandes nomes da cena. Bote o CD para tocar, pegue sua xícara de chá, e se divirta!

NOTA: 84

Eluveitie é:
- Chrigel Glanzmann (Vocal, Flauta Tin Whistle, Mandola, Gaita de foles, Bodhran)
- Fabienne Erni (Vocal, Harpa Celta, Mandola)
- Rafael Salzmann (Guitarra)
- Jonas Wolf (Guitarra)
- Kay Brem (Baixo)
- Alain Ackermann (Bateria)
- Michalina Malisz (Sanfona)
- Matteo Sisti (Flauta Tin Whistle, Gaita de foles, Mandola)
- Nicole Ansperger (Violinos)

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Cellar Darling – The Spell


Cellar Darling – The Spell
(Nuclear Blast Records/Shinigami Records – Nacional)


01. Pain
02. Death
03. Love
04. The Spell
05. Burn
06. Hang
07. Sleep
08. Insomnia
09. Freeze
10. Fall
11. Drown
12. Love Pt. II
13. Death Pt. II

Após a saída do Eluveitie, o trio formado por Anna Murphy (vocal, hurdy gurdy, flauta e teclados), Ivo Henzi (guitarra e baixo) e Merlin Sutter (bateria) não perdeu tempo, fundando o Cellar Darling. Em 2017 lançaram seu debut, This Is the Sound, onde mostraram uma agradável mescla de Rock Progressivo e Folk, com alguns elementos mais Pop e Atmosféricos aqui e ali. O resultado foi muito positivo, mostrando um potencial de crescimento imenso e gerando expectativa quanto ao segundo álbum. Pois bem! Pouco mais de 1 ano e meio depois, ele chegou.

A primeira coisa que me chamou a atenção em The Spell foi o fato do mesmo se tratar de um álbum conceitual. Ele conta a história de uma garota sem nome, nascida através da dor em um mundo carregado de dor. Na sua busca por um sentido na vida, a jovem acaba conhecendo e se apaixonando pela morte, sofrendo com seu amor não correspondido, e concluindo toda a história com um final ambíguo, que deixa o ouvinte pensativo. Esse conceito se reflete no Prog/Folk da banda, já que música do trio está soando mais pesada e intensa que no álbum anterior. Você tem a sensação de que todo o potencial que demonstraram no debut começa a ser explorado. Por Sucellus, como canta Anna Murphy! Acredito que aqui ela tenha seu melhor trabalho vocal, já que sua voz é a principal responsável pelo jogo de luz e sombras que observamos durante todo o tempo.

“Pain” abre o álbum de forma enérgica, mesclando bem Progressivo com elementos tribais, e destacando o bom trabalho das guitarras e o refrão que cativa já de cara. “Death” faz jus ao nome, e surge obscura e melancólica, com os vocais de Anna hipnotizando o ouvinte, e sua flauta magistralmente encaixada na canção, dando o clima necessário a mesma. Ouso dizer que se você é fã de Doom Metal, vai se afeiçoar e essa faixa. A pesada “Love” traz um pouco de luz ao CD, e possivelmente é a faixa que mais remete ao debut, sendo seguida pela ótima “The Spell”, que carrega a escuridão de volta ao trabalho. “”Burn” se mostra uma faixa pesada e técnica, sendo mais um dos momentos onde Anna brilha com sua voz. É interessante notar como os títulos se encaixam com perfeição no clima que cada faixa passa ao ouvinte, e aqui não é diferente.


“Hang” se destaca pelas belas melodias, e por um clima que consegue ser bucólico e assustador ao mesmo tempo, enquanto “Sleep”, conduzida por um piano e pela bela voz de Anna, se mostra altamente emocional e profunda. “Insomnia” se mostra pesada, intensa, e tem boa utilização de elementos Folk; “Freeze” tem ótimo trabalho percussivo, além de uma melodia que te prende e passagens mais atmosféricas e transcendentais. Excelente! Com o álbum se encaminhando para o final, temos a curta “Fall”, quase como um interlúdio, a densa “Drown”, e  uma sequência fortíssima, composta por “Love Pt. II”, outra onde a percussão destaca, e “Death Pt. II”, onde o piano e a voz de Anna provam que o peso de uma canção não está apenas em suas guitarras. Possivelmente é a faixa mais emocional de todo o trabalho.

Produzido e mixado por Tommy Vetterli (Coroner, Eluveitie, Kreator, 69 Chambers), e com a masterização sendo feita por ele, o onipotente, onisciente e onipresente Jens Bogren, The Spell tem uma produção fantástica, já que você consegue escutar todos os instrumentos aqui presentes com uma clareza absurda, mas sem que isso tire o peso das canções. Já a parte gráfica ficou por conta de Costin Chioreanu (Arch Enemy, Carach Angren, Mayhem, At the Gates, Darkthrone). Mostrando a evolução esperada, soando mais forte, pesado e intenso, o Cellar Darling vai agradar não só quem já havia gostado do debut, como também tem potencial para conquistar novos fãs. Um dos álbuns mais legais que escutei nesse 1º semestre de 2019.

NOTA: 86

Cellar Darling é:
- Anna Murphy (vocal, hurdy gurdy, flauta e teclados)
- Ivo Henzi (guitarra e baixo)
- Merlin Sutter (bateria)

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quinta-feira, 21 de março de 2019

Tuatha de Danann - The Tribes of Witching Souls (2019) (EP)


Tuatha de Danann - The Tribes of Witching Souls (2019) (EP)
(Heavy Metal Rock – Nacional)


01. The Tribes of Witching Souls
02. Turn
03. Warrior Queen
04. Your Wall Shall Fall
05. Conjura
06. Outcry
07. Tan Pinga Ra Tan
08. Rhymes Against Humanity (Demo 2014)*
09. The Tribes of Witching Souls (Demo Instrumental)*

Quando surgiu com o EP autointitulado em 1999, o Tuatha de Danann chamou a atenção pela sua proposta de misturar Metal Tradicional/Power Metal com música Folk/Celta, uma junção ainda inédita em se tratando de Brasil, e que dava seus primeiros passos no exterior. Nos 3 álbuns seguintes, Tingaralatingadun (01), The Delirium Has Just Began... (02) e Trova di Danú (04), não só  refinaram ainda mais o seu estilo, como também se consolidaram como um dos principais nomes do underground metálico nacional. Infelizmente, após isso, entraram em um hiato de mais de 10 anos, onde seus integrantes investiram em outros projetos, como Braia, Kernunna e Tray of Gift, até que em 2015 retornaram com o ótimo Dawn of a New Sun.

Agora, depois de 4 anos, e reduzidos a um trio formado por Bruno Maia (vocal, guitarra, viola, banjo, bouzouki, whistles e Irish flute), Giovani Gomes (baixo/vocal) e Edgard Brito (teclado), voltam a nos apresentar material inédito com o EP The Tribes of Witching Souls, onde, além de 5 novas músicas, temos mais 2 regravações. Cabe dizer que essas últimas realmente acrescentaram ao material, e de forma alguma soam como simples enchimento. Musicalmente, continuam lapidando ainda mais seu estilo, apresentando ótimas melodias e arranjos, bons riffs e instrumentos folclóricos muito bem encaixados. Para enriquecer ainda mais, contaram com uma série de participações especias, como Martin Walkyier (Skyclad, Sabbat, Hell), Daisa Munhoz (Vandroya) e Fernanda Lira (Nervosa), dentre muitos outros.

O EP já abre com a ótima “The Tribes of Witching Souls” e suas cativantes linhas vocais. Além disso, conta com ótimos corais, refrão grudento e um saudável ar progressivo, algo que a banda nunca negou em sua carreira, e que também dá as caras em “Turn”, uma dessas canções que grudam na cabeça instantaneamente, sendo difícil não se empolgar com os ótimos riffs, as boas linhas de teclado e as influências celtas. E meus amigos, acreditem, o refrão aqui é forjado a base de cola instantânea, porque logo na primeira audição você já sai cantarolando o mesmo. “Warrior Queen” conta com ótima participação da vocalista Daísa Munhoz, além de equilibrar muito bem o peso das guitarras com os elementos de música celta.


“Your Wall Shall Fall” contra com a participação especial do mestre Martin Walkyier. Seus vocais ríspidos dão uma dose de agressividade a canção, que consegue mesclar muito bem Metal Tradicional com elementos celtas. Simplesmente empolgante. Na sequência, “Conjura” consegue equilibrar muito bem o lado mais pesado e agressivo da banda com o seu lado mais Progressivo. A versão acústica de “Outcry”, faixa presente em Dawn of a New Sun, ficou realmente muito legal, e traz para o EP um clima mais intimista. Outra a ganhar uma regravação foi a clássica “Tan Pinga Ra Tan”, que conta com vocais de Fernanda Lira (Nervosa) e Nita Rodrigues (Bud Pump). De bônus, ainda temos as versões demo de “Rhymes Against Humanity” (outra de Dawn of a New Sun) e “The Tribes of Witching Souls”.

Produzido por Bruno Maia, o EP teve no trabalho a mixagem e masterização divididos entre Brendan Duffey (faixas 1-5) e Fabrício Altino (faixas 6 e 7). A qualidade é ótima, pois, conseguiram deixar tudo muito audível e claro, mesmo com uma infinidade de coisas ocorrendo ao mesmo tempo. Embalado em um bonito digipack, teve sua parte gráfica dividida entre Paulo “Coruja” Oliveira, responsável pela capa, e Edgar Franco e Eduardo Vidiabos, que fizeram ilustrações internas. O design gráfico ficou por conta de Rodrigo Barbieri. Com uma música que certamente empolgará os amantes de Folk, o Tuatha de Danann presenteia seus fãs com um EP altamente relevante, deixando todos com aquele gosto de quero mais e ansiando por um álbum completo.

NOTA: 86

Tuatha de Danann é:
Bruno Maia (vocal, guitarra, viola, banjo, bouzouki, whistles e Irish flute)
Giovani Gomes (baixo e vocal)
Edgard Brito (teclados)

Músicos convidados:
- Fabricio Altino (bateria)
- Nathan Viana (violino)
- Dana Russi Maia (vocal na faixa 1)
- Alex Navar (gaita de fole nas faixas 2 e 4)
- Daísa Munhoz (vocal na faixa 3)
- David Briggs (bodhran na faixa 3)
- Rafael Salobreña (bodhran na faixa 3)
- Martin Walkyier (vocal na faixa 4)
- Rodrigo Abreu (bateria na faixa 4)
- Jacqueline Taylor (guitarra na faixa 4)
- Fernanda Lira (vocal na faixa 7)
- Nita Rodrigues (vocal na faixa 7)

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Altú Págánach - The Wizard (2018)


Altú Págánach - The Wizard (2018)
(Cold Art Industry - Nacional)


01. Dance Of The Wizard
02. The Magic
03. Ash Nazg Durbatulûk
04. Ash Nazg
05. Frerin
06. Iron Music
07. The Battle Of The Ancients
08. The Dream
09. Altú Págánach*
10. Melkor Rise*
11. Walking With Tolkien*
12. Bauglir Forest*
13. Old Wisdom*
14. Nirnaeth Arnoediad*

E lá se vão 17 anos de carreira e uma infinidade de lançamentos, entre demos, singles, compilações, EP’s e álbuns de estúdio, mas ainda sim o Altú Págánach não está entre os nomes mais conhecidos de nosso underground. Uma pena, porque seu Folk Black Metal, com temática baseada não só no paganismo, mas principalmente na obra do mestre John Ronald Reuel Tolkien, ou J.R.R Tolkien (1892-1973), é feito sobre medida para agradar aos fãs de hordas como Summoning, Caladan Brood, Emyn Muil, Vordven, Burzun e afins.

Originalmente, The Wizard foi pensado como um EP, mas a Cold Art Industry, em seu lançamento, adicionou ao mesmo os EP’s Walking With Tolkien Part II e Melkor Rise, transformando-o em um álbum completo. O trabalho é temático, abordando a trajetória de Radagast, O Castanho, um dos 5 Istari enviados a Terra Média para ajudar na luta contra Sauron, desde a sua chegada até a Primeira Batalha. Musicalmente, como esperado por quem já escutou os trabalhos anteriores, Lord Maleficarum T. I. Typhonis, o nome por detrás do Altú Págánach, conseguiu equilibrar com muita competência o seu Black Metal ríspido e cru, com os elementos mais atmosféricos que se fazem fortemente presentes nas composições.

Seguindo aquela linha estilística do início dos anos 90, e esbanjando assim agressividade e sujeira, mostra que a ideia aqui não é soar bonito e agradável aos ouvidos alheios, mas sim feio e obscuro. É a mais pura representação do underground. Os vocais trafegam com competência entre o rasgado e o limpo, acompanhados de riffs gélidos e teclados soturnos, que dão aquela atmosfera toda especial as canções do grupo. Dentre as 14 aqui presentes, vale destacar a faixa de abertura, “Dance Of The Wizard”, bem equilibrada e variada, as agressivas “Ash Nazg Durbatulûk” e “Ash Nazg”, e “Altú Págánach”, feita na medida para o que gostam de um Black Metal Old School. Já a sequência que encerra o álbum, que vai de “Walking With Tolkien” até “Nirnaeth Arnoediad”, seguem uma linha mais Ambient/Darkwave, que pode cair em cheio no gosto dos que apreciam bandas como Pazuzu, Vond, Dargaard, Wongraven e Mortiis.

Vale dizer que a Cold Art Industry está disponibilizando duas versões diferentes do álbum. Uma em digipack, limitada a 100 cópias, numeradas a mão, e outra em acrílico, com apenas 300 cópias, que vem acompanhada de um poster A3, adesivo e OBI. Em resumo, se você gosta de Folk Black Metal, não tem desculpa para não ter essa obra em sua coleção.

NOTA: 8,0

Altú Págánach é:
- Lord Maleficarum T. I. Typhonis

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Arandu Arakuaa - Mrã Waze (2018)


Arandu Arakuaa - Mrã Waze (2018)
(Independente - Nacional)


01. Sy-gûasu (grande mãe, no idioma Tupi)
02. Gûaîupîá (espírito dos pajés bons, no idioma Tupi)
03. Îasy (lua, no idioma Tupi)
04. Danhõ’re (cantar, no idioma Xavante)
05. Huku Hêmba (espirito da onça, no idioma Akwẽ Xerente)
06. Ko Kri (água fria, no idioma Krahô)
07. Jurupari (deus dos sonhos, no idioma Tupi)
08. Gûaînumby (beijar-flor, no idioma Tupi)
09. Îagûara Kûara (toca da onça, no idioma Tupi)
10. Abaré Angaíba (padre mau, no idioma Tupi)
11. Rowahtu-ze (ensinamento, no idioma Akwẽ Xerente)

Domingo, enquanto retornava de uma viagem, ia definindo em minha cabeça as resenhas dessa semana, e uma delas já estava decidida desde o início: o novo álbum do Arandu Arakuaa. Mal sabia eu que naquele mesmo momento, um dos bastiões da nossa cultura, o Museu Nacional, era consumido por completo pelo fogo. Um retrato do descaso com o qual se trata a questão da cultura nesse país, uma política de Estado que perpassa todos os governos nas últimas décadas. Vocês sabiam que boa parte dos estudos realizados no último século, a respeito das sociedades indígenas em nosso país, se encontravam em suas dependências? A coleção de etnologia indígena brasileira do MN abrangia mais de 30 mil objetos oriundos de mais de 100 grupos indígenas de nosso país. Era o reflexo de toda riqueza e diversidade de nossa cultura nativa. Incluía-se ai, um acervo linguístico, com registros documentais e sonoros, inclusive de línguas que não possuem mais falantes vivos, e as únicas múmias indígenas encontradas no país. Tudo isso se perdeu para sempre.

Cultura nunca foi algo realmente importante para esse país, e o descaso com o assunto sempre foi algo escancarado, e não apenas por parte dos nossos governantes. Sim coleguinha, porque se eles agem de tal forma, é por saberem que não sofrerão consequências de tal fato nas urnas, afinal, a população brasileira, em sua maioria, não dá a mínima para o assunto. Se formos fazer um recorte mais específico e falarmos exclusivamente de nossa cultura nativa, a coisa se torna mais grave. A ignorância de nossa população nesse sentido se torna ainda mais latente quando abordamos a questão indígena. Seja sincero prezado leitor, o que você realmente conhece a respeito da cultura de nossos Índios, que já estavam aqui muito antes de qualquer colonizador europeu colocar os pés em nossas terras. Acredito que, tirando aquelas lendas que aprendemos nas escolas, quando somos crianças, o conhecimento será praticamente nulo.


Só por tudo isso, uma banda como o Arandu Arakuaa já merecia ser muito respeitada. Sua mistura de elementos indígenas e regionais com Heavy Metal, suas músicas cantadas em Tupi, Xavante, Akwẽ Xerente e Krahô, resultam não só em uma das sonoridades mais originais que você vai escutar em matéria de música, mas também é um brado de resistência. Resistência sim, a um projeto de aniquilação que já dura mais de 500 anos, que ainda hoje extermina populações e culturas inteiras, seja através de massacres ordenados por fazendeiros e madeireiros, seja por conversões religiosas — sim, em pleno século XXI, ainda existem aqueles que enxergam os indígenas como primitivos e selvagens que precisam ser catequizados —, seja pela marginalização de sua população, que vivem de forma precária e vistos como cidadãos de segunda classe. Já notaram como os índices de mortalidade infantil, mortes por doenças infecciosas e parasitárias, e taxas de suicídio são muito maiores entre as populações indígenas? É bem provável que não. Mas quer saber, todos deveríamos notar.

Existe um conceito por trás de Mrã Waze, 3º álbum do Arandu Arakuaa, que sinceramente não consegui resumir de uma forma que não perdesse a essência. Sendo assim, vou usar as palavras do release enviado pela banda para um melhor entendimento: “O conceito do disco versa sobre a relação do homem com a natureza, o uso das medicinas de cura nas quais os pajés trabalham com as forças da natureza e os espíritos dos animais, além de toda a mística da lua e do sol. A mensagem central é “todos unidos em matéria e espírito”, assim formando uma grande unidade, onde não há separação entre o plano físico e o espiritual e, consequentemente, se atinge o equilíbrio entre o homem, os animais, a natureza, enfim, todo o cosmos.”. É em cima disso, que o quinteto liderado por Zândhio Huku (vocal, guitarra, viola caipira, instrumentos indígenas) e que conta ainda com Saulo Lucena (baixo, vocal), Lís Carvalho (vocal, pífano), Guilherme Cezario (guitarra) e João Mancha (bateria, percussão) — esses 3 últimos estreantes —, lançou um dos melhores álbuns de 2018.

Mrã Waze é certamente o trabalho mais maduro, diversificado e coeso do grupo brasiliense. As passagens mais pesadas, oriundas do Heavy Metal, se alternam com aquelas mais introspectivas e tribais, vindas das músicas indígena e regional, mas com um equilíbrio que ainda não havia sido presenciado até então. Tudo soa muito harmonioso, porque não, místico. É muito legal ver como esse lado voltado para nossas raízes, aflora cada vez mais na música do Arandu Arakuaa, e a maior presença de elementos de instrumentos indígenas e da viola caipira vão arrancar sorrisos dos fãs. Tudo aqui é de uma riqueza musical e cultural poucas vezes vista. As letras podem ser cantadas em línguas indígenas, mas isso em momento algum te impede de, em muitos momentos, estar cantando junto com a banda. Em vários momentos isso ocorreu comigo. Vale inclusive destacar a diversidade vocal aqui presente, que é simplesmente absurda.


A abertura se dá com “Sy-gûasu”, totalmente voltada para os elementos indígenas e regionais, e que soa quase como um ritual religioso voltado para dar equilíbrio ao ouvinte. Na sequência, temos a agressiva “Gûaîupîá”, que equilibra muito bem esses momentos com as passagens mais melódicas e introspectivas, além de ter ótimos vocais femininos. “Îasy” tem uma pegada mais tribal, além de um ótimo trabalho de guitarra, enquanto em “Danhõ’re” o uso da viola caipira e de elementos percussivos fala mais alto, com um resultado muito legal. “Huku Hêmba” é outra que equilibra muito bem melodias e agressividade, e “Ko Kri” traz novamente a força do lado regional da banda.  “Jurupari” esbanja peso e agressividade, mas sem abrir mão das passagens introspectivas e percussivas. Essa introspecção também é o mote de “Gûaînumby” e suas belíssimas melodias. Aqui o brilho vai para a viola de Zândhio e os vocais de Lís. “Îagûara Kûara” é bem técnica e pesada, algo que podemos observar também em  “Abaré Angaíba”. E para fechar o álbum, a ótima  “Rowahtu-ze”, com seu ótimo trabalho vocal e excelente utilização da viola e dos elementos de percussão indígenas.

Gravado no Broadband Studio, o álbum teve sua produção, mixagem e masterização realizadas por Caio Duarte (Dynahead, Miasthenia, Omfalos), com um resultado muito bom. Ficou muito bem equilibrada e com aquela clareza necessária para você escutar toda a diversidade musical aqui presente, mas sem perder a organicidade. Já a belíssima capa foi obra da artista Anjayra M, e é um retrato perfeito do conteúdo musical do CD. De sonoridade rica e diversificada, o Arandu Arakuaa se torna cada vez mais uma banda única, não só no cenário nacional, como no mundial, e merece a muito um reconhecimento muito maior do que têm. Se tem alguma dúvida a respeito disso, escute Mrã Waze e se depare com um dos melhores álbuns de Metal que você escutará esse ano.

NOTA: 91

Arandu Arakuaa é:
- Zândhio Huku (vocal, guitarra, viola caipira, instrumentos indígenas);
- Lís Carvalho (vocail, pífano);
- Guilherme Cezario (guitarra);
- Saulo Lucena (baixo, vocal);
- João Mancha (bateria, percussão).

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Eluveitie - Evocation II: Pantheon (2017)


Eluveitie - Evocation II: Pantheon (2017)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)

01. DUREÐÐU
02. Epona
03. Svcellos II (Sequel)
04. Nantosvelta
05. Tovtatis
06. Lvgvs
07. Grannos
08. Cernvnnos
09. Catvrix
10. Artio
11. Aventia
12. Ogmios
13. Esvs
14. Antvmnos
15. Tarvos II (Sequel)
16. Belenos
17. Taranis
18. Nemeton

Surgido em 2002, pelas mãos de Chrigel Glanzmann, o suíço Eluveitie marcou seu nome a ferro e fogo entre os principais nomes do cenário Folk Metal, com sua música que mescla elementos folclóricos com Death Metal Melódico, e que gerou ótimos trabalhos como Spirit (06) e Slania (08). Mas entre todos os seus álbuns de estúdio, Evocation I - The Arcane Dominion (09) se destaca justamente por fugir da fórmula que consagrou o grupo. Totalmente acústico e com seu conceito baseado na cultura celta, até hoje divide opiniões, já que existem os que o amam justamente por se aprofundar no Folk, e aqueles que simplesmente o odeiam por não possuir elementos que remetam ao Metal.

Após o lançamento do mesmo, a banda enfileirou 3 álbuns que seguiram seu padrão musical, mas Chrigel sempre deixou claro que a segunda parte estaria sendo trabalhada pelo grupo. Tudo ia bem até que em 2016 passaram por uma drástica reformulação, que colocou os fãs em dúvida não só sobre a continuação da banda, como também a respeito de Evocation II. De uma só tacada, Anna Murphy (Vocal e Hurdy Gurdy), Ivo Henzi (Guitarra) e Merlin Sutter (Bateria) anunciaram sua saída. Felizmente, Glanzmann não perdeu muito tempo e tratou de recompor o Eluveitie, trazendo de volta a violinista Nicole Ansperger, além de Matteo Sisti (Whistles, Bagpipes), Alain Ackermann (Bateria), Jonas Wolf (Guitarra), Michalina Malisz (Hurdy Gurdy) e por último, Fabienne Erni (Vocal, Harpa e Mandola).

E foi com uma nova formação que trataram de entrar em estúdio no começo de 2017 para a gravação de Evocation II: Pantheon, seu 7º álbum de estúdio, que finalmente encerra o ciclo iniciado em 2009. Continuação mais do que natural de Evocation I - The Arcane Dominion, temos em mãos um trabalho acústico, que se aprofunda no panteão mitológico celta, além de ser todo cantado em gaélico. Não espere elementos metálicos aqui, já que nem mesmo os agressivos vocais de Chrigel se fazem muito presentes (aparecem esparsamente em uma ou outra canção). A banda pensou cada detalhe aqui presente, contando com a ajuda de especialistas em cultura celta para a confecção das letras e até mesmo da pronúncia do idioma.


É claro que a variedade musical aqui presente é imensa, afinal, são mais de uma dezena de instrumentos tocados. Mas apesar disso, Evocation II apresenta uma coesão surpreendente e flui com grande naturalidade. E não se assuste com o grande número de músicas, 18, pois além de boa parte delas não chegar aos 3 minutos (ou passar por pouco dessa marca), temos também uma quantidade razoável de interlúdios e faixas instrumentais. Por mais que seja um trabalho que deva ser analisado como um todo, é inevitável que tenhamos alguns destaques, como no caso das empolgantes “Epona” e “Lvgvs”, as mais acessíveis de todo o trabalho e que, além de cativar com facilidade, te faz sentir aquela vontade de levantar, fazer uma fogueira com os móveis no meio da sala e sair dançando em volta da mesma, enquanto bebe seu hidromel. A instrumental “Nantosvelta” é outra que empolga pela bela utilização dos instrumentos folclóricos, assim como “Catvrix”, que te faz se sentir participando de um ritual antes de uma batalha, e “Taranis”. “Artio” se mostra bem densa e tem como destaque os belos vocais de Fabienne.

Produzido por Chrigel e pelo guitarrista do Coroner, Tommy Vetterli, Evocation II teve a mixagem realizada por esse último e a masterização por Dan Suter. Já a capa foi obra de Glanzmann. Soando mais enérgico que a primeira parte, e mostrando muita variedade e coesão, o Eluveitie vai agradar em cheio os fãs da mesma, além de claro, aqueles que apreciam Folk, independentemente dele vir acompanhado de guitarras pesadas ou não. Sem dúvida, um dos principais trabalhos do estilo em 2017.

NOTA: 8,0

Eluveitie é:
- Fabienne Erni (Vocal, Harpa Celta e Mandola);
- Chrigel Glanzmann (Vocal principal, Bouzouki, Flautas, Gaita, Violão Acústico e Bodhrán);
- Jonas Wolf (Guitarra);
- Rafael Salzmann (Guitarra);
- Kay Brem (Baixo);
- Alain Ackermann (Bateria);
- Matteo Sisti (Whistles, Bagpipes, Mandola);
- Nicole Ansperger (Violino);
- Michalina Malisz (Hurdy Gurdy).

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Cellar Darling – This Is The Sound (2017)


Cellar Darling – This Is The Sound (2017)
(Shinigami Records/Nuclear Blast Records - Nacional)


01. Avalanche
02. Black Moon
03. Challenge
04. Hullaballoo
05. Six Days
06. The Hermit
07. Water
08. Fire, Wind & Earth
09. Rebels
10. Under The Oak Tree
11. NHigh Above These Crowns
12. Starcrusher
13. Hedonia
14. Redemption
Faixas Bônus:
15. The Cold Song
16. Mad World
17. The Prophet’s Song

Foi no meio de 2016 que Anna Murphy (vocal, hurdy gurdy, flauta e teclados), Ivo Henzi (guitarra e baixo) e Merlin Sutter (bateria) anunciaram seu desligamento do Eluveitie, para logo em seguida apresentarem sua nova banda, o Cellar Darling (nome do álbum solo de Anna, lançado em 2013). Claro que as comparações com a ex-banda do trio seriam inevitáveis, e claro, semelhanças existem, mas a verdade é que o que mais se destacam aqui são justamente as diferenças existentes entre as duas.

O peso do Heavy Metal se faz presente, mas mesclado com o Folk Rock, fazendo da música do Cellar Darling algo mais palatável, até mesmo com certa veia Pop, principalmente no que tange às melodias e aos refrões, muitos deles verdadeiramente grudentos. Mas não se engane, as guitarras estão lá, despejando bons riffs, fazendo pairar por todo o tempo a lembrança do Heavy Metal sobre a música do trio. Além disso, elementos folclóricos se fazem presentes e remetem diretamente à música celta, com ótimos resultados.

Anna Murphy continua se mostrando uma vocalista diferenciada, e com uma vantagem: no Cellar Darling, ela pode variar muito mais seus vocais, mostrando todo o seu potencial e categoria. Em muitos momentos, sua voz toma o protagonismo das músicas, com a gama de emoções que ela consegue passar ao ouvinte. Já Ivo e Merlin executam seu trabalho com muita precisão, técnica e qualidade, mostrando porque estão entre os melhores músicos do estilo.


Temos 17 músicas na versão nacional, já que por aqui This Is The Sound conta com 3 faixas bônus. E destaques não faltam para serem apontados. “Avalanche” abre o trabalho com um retrato fiel do que é o Cellar Darling. Elementos celtas e bom peso aliados a melodias fáceis, simples, cativantes e com um bom apelo pop. “Black Moon” mantém essas características, apesar de soar um pouco mais escura, enquanto “Hullaballoo” soa mais agitada e enérgica, assim como a ótima “The Hermit”. “Fire, Wind & Earth” é outra que se destaca por ser bem direta e forte candidata a melhor música de todo o trabalho. Outra com característica bem parecida é “Starcrusher”. Já “Redemption” termina a versão normal do álbum de uma forma bem sentimental, graças aos ótimos vocais de Anna. De bônus, versões para “The Cold Song” (Klaus Nomi), “Mad World” (Tears for Fears) e “The Prophet’s Song” (Queen).

Produzido por Anna e pelo guitarrista do Coroner, Thomas Vetterli, teve sua mixagem e masterização realizadas por esse último. E ainda teve uma masterização adicional do onipresente, onisciente e onipotente Jens Bogren. O resultado final foi simplesmente ótimo. A belíssima parte gráfica ficou por conta de Manuel Vargas Lepiz e Christopher Ruf. Mesclando o Folk Rock com o Metal de forma muito equilibrada e buscando se diferenciar do que fizeram no Eluveitie, mas sem cortar as raízes, Anna, Ivo e Merlin lançaram um dos trabalhos mais legais do estilo em 2017, além de mostrar um grande potencial de crescimento. Curte Folk? Conheça o Cellar Darling.

NOTA: 8,0

Cellar Darling é:
- Anna Murphy (vocal, hurdy gurdy, flauta e teclados);
- Ivo Henzi (guitarra e baixo);
- Merlin Sutter (bateria)

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

BaRok-Projekto - Sovaĝa Animo (2016)


BaRok-Projekto  - Sovaĝa Animo (2016)
(Independente – Nacional)


01. Antaŭparolo de Prapatra Kaciko
02. Tauba Kaj Kerana (Malbeno – Part I)
03. Ĉe Ni Estas Abasai’
04. Droniga Pasio
05. Reĝino de La Nokto
06. Sovaĝa Animo
07. La Sep Filoj (Malbeno – Part II)
08. La Sagoj de Ruda’
09. Melodio de Akŭanduba
10. Kaapora
11.  La Plej Bona Ĉasisto

Tem sido cada vez mais comum bandas nacionais se enveredarem por aspectos de nossa cultura na busca de um diferencial para sua sonoridade. O resultado normalmente costuma ser muito legal, já que acabam saindo do lugar comum do estilo. No caso do BaRok-Projekto, banda goiana surgida em 2007 e que pratica um Power Metal com influências Neo Clássicas e Barrocas, optaram por adotar temas da cultura indígena em sua letra, além da inusitada opção de cantar em esperanto.

Bem, vamos começar pelos aspectos positivos de Sovaĝa Animo. Musicalmente falando, o Power Metal apresentado pelo grupo é bem interessante, apesar de não apresentar nada propriamente novo. Os arranjos são muito bem feitos, as partes clássico/barrocas estão muito bem encaixadas e as guitarras trabalham muito bem. Vale destacar também a vocalista  Karliene Araújo, que além de possuir um timbre bem agradável, conseguiu encaixar bem as linhas vocais, mesmo cantando em esperanto, algo que não me lembro de ter escutado antes vindo de uma banda de Metal.

Dentre as 11 faixas presentes, cabe destacar “Tauba Kaj Kerana (Malbeno – Part I)”, que possui alguns riffs muito interessantes, “Ĉe Ni Estas Abasai’”, que tem um refrão marcante e teclados muito bem encaixados, “Reĝino de La Nokto”, outra com ótimo refrão, além de um ótimo trabalho das guitarras e do teclado. Já “La Plej Bona Ĉasisto” possui algo de Thrash e se trata da música mais pesada do álbum. Mas nem tudo são flores no trabalho de estreia dos goianos.

Como em quase todo debut, existem pontos a serem melhorados, amadurecidos para os próximos trabalhos. Por exemplo, algumas músicas se tornam um pouco cansativas e poderiam ser um pouco mais curtas. Um pouco mais de peso nas canções ajudaria a obterem um resultado melhor, mas nesse quesito talvez exista a influência de um outro fator, aliás, o calcanhar de aquiles de Sovaĝa Animo….a produção.

Sim, sou muito chato nesse quesito. Como eu insisto em repetir, em um cenário inundado de bandas de qualidade como o nacional e com trabalhos cada vez mais bem produzidos, alguns batendo de frente com qualquer produção estrangeira, um trabalho mal produzido pode condenar uma banda promissora ao esquecimento. Do meu ponto de vista, e sempre aconselho isso quando me perguntam, vale muito mais segurar um álbum por um tempo, juntar uma grana e bancar uma boa produção do que lançar algo “nas coxas”. Sovaĝa Animo passa longe do nível atual de nosso cenário, soa sem peso e principalmente, abafado. O que fizeram com a bateria aqui em alguns momentos é um crime. Para uma banda com a proposta musical do BaRok, a produção deveria ser justamente o ponto mais caprichado do trabalho e espero realmente que no futuro olhem para isso, caso contrário, independentemente da criatividade, ficarão para trás. E sim, isso tirou ponto da banda na minha avaliação final, afinal, o trabalho aqui é analisado como um todo.

Ajustes futuros à parte, é inegável o potencial criativo dos goianos. Com tempo, maturidade e um pouco mais de atenção à produção, poderão em um curto espaço de tempo firmar seu nome entre os principais do cenário metálico no Brasil. E que capa linda!

NOTA: 7,0

BaRok-Projekto é:
- Karliene Araújo (vocal);
- Rafael Milhomem (guitarra);
- Muniz (guitarra);
- Thiago Alberto (baixo);
- Junior Nieri (bateria);
- Miguel Brasil (teclados).

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Amorphis – Under The Red Cloud (2015)




Amorphis – Under The Red Cloud (2015)
(Nuclear Blast – Importado)

01. Under the Red Cloud
02. The Four Wise Ones
03. Bad Blood
04. The Skull
05. Death of a King
06. Sacrifice
07. Dark Path
08. Enemy at the Gates
09. Tree of Ages
10. White Night

O que falar dos caras do Amorphis, que eu sequer conheço pessoalmente, mas considero tanto! Brincadeiras a parte, a verdade é que o sexteto finlandês sempre foi sinônimo de qualidade musical inquestionável, independente do momento de sua carreira. Em sua discografia, obstantes opiniões divergentes aqui e ali, não existe um trabalho que possa ser considerado realmente fraco. Eu por exemplo não curto muito a dobradinha Am Universum/Far From the Sun, mas por uma questão puramente de gosto pessoal e não por falta de qualidade dos mesmos.

Trocas de vocalista sempre foram traumáticas dentro do Metal, mas até nesse ponto o Amorphis se mostrou diferenciado. A entrada de Tomi Joutsen na banda em 2005 não só se mostrou a escolha mais correta, como entraram em uma fase de ouro, emplacando uma trinca simplesmente espetacular, com Eclipse (06), Silent Waters (07) e o fabuloso Skyforger (09), do meu ponto de vista o auge criativo da banda até então. Ok, seus dois trabalhos seguintes, The Beginning of Times (11) e principalmente Circle (13), me fizeram começar a questionar a respeito de uma crise de criatividade, mas isso se deu muito mais por certa inconstância dos mesmos (alternavam entre faixas excelentes e outras apenas medianas). De qualquer maneira, parecia mais do que necessário o Amorphis se reinventar de alguma forma. E aqui entra outro diferencial dos caras.

Algo que sempre me despertou admiração é a capacidade inerente que o Amorphis possui de se reinventar sem necessariamente fazer mudanças drásticas. Claro, se formos comparar a sonoridade Death Metal de The Karelian Isthmus (92) com o que escutamos em Under The Red Cloud, a diferença é absurda, mas essa evolução (e nesse caso, no melhor sentido da palavra) foi ocorrendo de forma gradativa, dando tempo aos seus fãs de absorver cada nova nuance de sua sonoridade. Mas deixemos de enrolação e vamos logo ao que realmente nos interessa.

Com Under The Red Cloud, o Amorphis se reinventou mais uma vez sem necessidade de mudanças drásticas. A veia progressiva continua se fazendo presente com passagens complexas e técnicas, assim como os momentos épicos, tanto que temos a participação aqui da Österang Symphonic Orchestra, responsável pelas orquestrações, assim como de Jon Phipps (Angra, Moonspell), fazendo os arranjos de corda. Melodias folclóricas? Mais do que presentes, algumas com um acento tipicamente oriental e outras na linha mais celta, com direito a participações de Chrigel do Eluveitie nas flautas e Martin Lopez (Soen, ex-Opeth e Amon Amarth) na percussão. Outras participações que enriquecem o trabalho são do tecladista André Alvinzi (Carnal Grief) em “Sacrifice” e da vocalista Aleah Stanbridge (Trees Of Eternity) em “The Four Wise Ones”, “Sacrifice” e “White Night”. Por falar em vocais, Tomi Joutsen está simplesmente monstruoso, tanto nas vocalizações mais limpas como nos guturais, agora muito mais presentes. Aliás, aqui está o ponto de “reinvenção” do Amorphis. Os guturais se fazem mais presentes porque sua música está mais pesada que nos trabalhos passados, já que expõem sua faceta Death Metal como há muito tempo não o faziam. O trabalho de Esa Holopainen e Tomi Koivusaari nas guitarras está simplesmente primoroso, enquanto Santeri Kallio brilha nos teclados. Já a parte rítmica, com Niclas Etelävuori (Baixo) e Jan Rechberger (Bateria), mostra uma solidez e força absurdas, sendo a base de tudo que escutamos. Destaques? Bem, nesse ponto vou ter que bancar o Tom Cruise e executar uma daquelas missões impossíveis, já que todas as músicas aqui são excelentes. Mas experimente escutar, por exemplo, a faixa título, “The Four Wise Ones”, “Bad Blood”, “The Skull”, “Death of a King” ou “White Night”.

A produção, do renomado Jens Bogren é simplesmente excelente (e não poderia ser diferente, tecnicamente falando), tendo ele conseguido extrair todo o potencial do Amorphis em estúdio. Já a belíssima capa é obra de Valnoir Mortasonge (Orphaned Land, Paradise Lost, Alcest, Anorexia Nervosa, Ulver, Behemoth) e está entre as melhores que vi esse ano de 2015.

Coerente, coeso e unindo perfeitamente o passado e o presente, o Amorphis começa a escrever seu futuro de forma brilhante com Under The Red Cloud. Saindo da zona de conforto onde havia se estabelecido em seus dois últimos trabalhos, os finlandeses acabaram lançando um álbum simplesmente primoroso e que só não é o melhor do ano, porque certo grupo de Halifax beirou a perfeição uns meses atrás. Simplesmente obrigatório na coleção de qualquer fã de Metal!

NOTA: 9,5

Amorphis é:

- Tomi Joutsen (Vocal)
- Esa Holopainen (Guitarra)
- Tomi Koivusaari (Guitarra)
- Niclas Etelävuori (Baixo)
- Jan Rechberger (Bateria)
- Santeri Kallio (Teclado)