Para que acompanha o A Música Continua a Mesma desde seu início, a Fearless não é uma
banda desconhecida, já que esteve bem presente aqui no ano de 2013 através da
resenha de seu EP, Ancient Wisdom, e
de uma entrevista que nos foi concedida por seu vocalista, Dan Vasc. De lá para
cá muita água passou por debaixo da ponte do grupo de Power Metal de Juiz de
Fora (MG). Tornaram-se um quarteto, com Dan (vocal), Davi Vasc e Gabriel Belozi
(guitarras) e Giovanni Rezende (bateria), optando por trabalhar com baixistas e
tecladistas contratados, seu vocalista cantou no Cd Charlemagne: The Omens of Death, projeto de Metal do
(infelizmente) falecido ator inglês Christopher Lee e gravaram seu primeiro Cd,
Chronicles Of Ancient Wisdom, com
lançamento previsto para esse ano de 2015 e para o qual estão buscando uma gravadora.
Uma curiosidade sobre o debut da banda é que o mesmo conta com a participação
especial do ator britânico David McAlister (Dr.Who, The Golden Hour), que fez
as narrações e diálogos presentes.
“Tale
With No End” é o primeiro single retirado do vindouro
álbum e nele você poderá observar todas as características presentes na
sonoridade da banda. É um Power Metal na melhor essência do estilo, com ótimos
vocais e coros (Dan canta demais e consegue não soar enjoativo, como a maior
parte dos vocalistas do estilo na atualidade), guitarras que não abrem mão do
peso em momento algum, apesar de toda melodia presente, refrão “superbonder”,
daqueles bem grudentos e que ficam em sua cabeça por horas a fio, passagens
sinfônicas de muitíssimo bom gosto e todo um ar teatral (presente inclusive nas
apresentações ao vivo, como já pude constatar) típico das bandas que seguem
essa vertente. A maior referência aqui é sem sombra alguma o Rhapsody Of Fire,
principalmente no que tange os coros e refrões, mas a Fearless é inegavelmente
mais pesada e menos sinfônica que a banda italiana, já que as guitarras se
fazem bem mais presentes.
A produção de Tale
With No End é de ótima qualidade e sinceramente, se eu nunca tivesse
escutado o som dos mineiros e alguém me dissesse que se tratava de uma formação
europeia, eu acreditaria sem qualquer questionamento. Sim, sei que muitos por
ai já não possuem muita paciência para esse tipo de proposta musical, eu
inclusive me incluo nesse time, mas o que a Fearless oferece é um Power Metal
de alto nível, viciante e que pode bater de frente com qualquer grande banda do
estilo na atualidade. A criatividade aqui anda tão em alta, que mesmo antes do
lançamento oficial do debut, já estão trabalhando na pré-produção do seu
sucessor. Que Chronicles Of Ancient
Wisdom veja logo a luz do dia, porque pelo que ouvimos aqui, ele promete
muito.
Há algum tempo queria dar um
passo à frente com o a Musica Continua a Mesma e sair apenas do campo das
resenhas. Bem, aqui está ele. A partir de hoje, sempre que
possível (já que convenhamos, meu tempo disponível para tocar o blog não é tão
grande assim), estaremos publicando entrevistas com bandas do Metal Nacional,
resenhadas ou não pelo Blog. E dando o pontapé inicial, a primeira banda
nacional que resenhei por aqui, a juizdeforana Fearless, que pratica um Power
Metal com toques de Folk e Música Clássica, com muita qualidade. Então, vamos
ao que interessa!
Fearless
1
– Pra aqueles que ainda não conhecem a Fearless, fale um pouco sobre a história
e influências da banda.
Daniel Vasconcelos: Bom Leandro, tudo começou em 2009. Eu
(Daniel Vasconcelos) e o Davi sempre curtimos bandas como Sonata Arctica,
Avantasia, Rhapsody of Fire, Blind Guardian... E queríamos montar um projeto de
power metal. Resolvemos juntos compor uma música e saiu a Jericho, que é a
terceira faixa de nosso EP Ancient Wisdom, mas até então não era uma banda. Nem
sequer tinha nome. Foi em 2010 que chamamos nossos amigos de infância e
igualmente fãs de power metal, Giovanni para a batera e o Anjinho para se unir
ao Davi nas guitarras, e demos ao projeto o nome de FEARLESS. Mais tarde
naquele ano encontramos o tecladista Alex e o baixista Pedro para completar a
equipe, e desde então somos como uma família.
Quanto as nossas influências, nos espelhamos muito como músicos em bandas como
Blind Guardian, Turisas, Rhapsody of Fire. Pessoalmente como vocalista, sempre
me inspirei muito nas vozes de Fabio Lione, Tony Kakko e Andre Matos.
2
– Nos últimos anos, a cena Power Metal sofreu uma estagnação. A maioria das
novas bandas se contenta em soar como simples clones de nomes consagrados do
estilo, sem apresentar nada de novo. Qual o diferencial da Fearless para
escapar dessa armadilha e se destacar nesse cenário?
Daniel: Não creio que a cena do power metal
esteja estagnada. Após a ascensão do estilo nos anos 90 ainda surgem grandes
novos nomes como Avantasia, DragonForce, Shaman, Sabaton, Dark Moor, bandas
estas, cuja sonoridade as difere em muito uma da outra, que tiveram seu pico de
popularidade recentemente na década de 2000 ou até mesmo na década atual. Isso
sem falar em bandas de estilos diversos que incorporaram o power metal em sua
sonoridade, como por exemplo o Turisas, banda de folk metal com fortes
influências do power metal.
Mas justamente por estarmos em meio a tantos “titãs” do gênero é que temos que
ser criativos e inovadores. O diferencial do Fearless em relação às outras
bandas é que não tratamos o projeto apenas como música. Trabalhamos no campo
audiovisual da teatralidade, fantasia e em diversas outras áreas. Não posso
adiantar muita coisa por enquanto, mas estamos com umas parcerias muito
interessantes, entre elas produtores literários e até mesmo game designers.
Queremos levar o Fearless a diferentes patamares dos meios de entretenimento.
3
– Como se deu o contato e posterior contrato com a gravadora italiana Heart Of
Steel?
Daniel: Conhecemos a Heart Of Steel através de
nossos amigos da banda Glitter Magic, que inclusive nos auxiliaram muito no
proceder das negociações, especialmente o guitarrista Luqui Di Falco. Mostramos
ao dono da gravadora o nosso EP com a intenção de dar-lhe uma ideia de como
seria o álbum completo, mas aparentemente ele gostou tanto que quis lançar logo
o próprio EP!
4
– E como anda a divulgação do EP “Ancient Wisdow” no Brasil e no exterior? A
resposta tem sido positiva?
Daniel: O “Ancient Wisdom” nos abriu muitas
portas, tanto no Brasil como no exterior. Reviewers e fãs sempre elogiam muito
e não param de perguntar quando teremos novas músicas. Me rendeu também
participações importantíssimas para a minha carreira em projetos de renome
internacional e tem chamado a atenção de grandes gravadoras muito conhecidas, com
as quais já estamos em negociação. O EP foi um passo importantíssimo, mas não
se compara ao que está por vir.
5
– E um álbum completo? Está a caminho? Existe uma previsão de lançamento? O que
o fã pode esperar dele?
Daniel: Já estamos em estúdio gravando nosso álbum
completo e temos a honra de ter Raphael Lamim, guitarrista do grande Thessera,
coproduzindo o projeto comigo e com o Davi. As músicas estão de arrepiar. Muito
drama, heroísmo e virtuosidade em poderosas melodias muito contagiantes.
Acreditamos que os fãs irão se deliciar! Pretendemos lançar o álbum
mundialmente até o final deste ano e talvez contemos com uma participação
especialíssima que por enquanto vou deixar como surpresa...
6
– Recentemente você, Daniel Vasconcelos, fez uma participação no álbum “The
Omens Of Death”, do ator Christhoper Lee. Como se deu o convite? Como isso
repercutiu para divulgação da banda e como pretendem capitalizar essa
participação em prol de vocês?
Daniel: Bem, um belo dia, abri minha caixa de
emails e lá estava um email de Juan Aneiros, produtor do projeto Charlemagne e
genro de Christopher Lee, perguntando se eu estaria interessado em participar
do “The Omens Of Death”, que já estava em processo de gravação na época. Ele
deixou bem claro que aquilo não era uma audição seletiva e sim um convite, pois
ele já tinha me escutado cantar. No começo achei que era alguma brincadeira de
algum amigo, demorou para a ficha cair.
Desde o lançamento do álbum e com o espalhar da notícia as oportunidades vêm se
multiplicando. Estamos no momento analisando contratos de publishing para o
lançamento de nosso cd e turnês internacionais que chegaram até nós graças ao
reconhecimento que veio desta participação.
7
– Nos dias de hoje, a pirataria digital se tornou uma faca de dois gumes. Ao
mesmo tempo em que afeta bruscamente a venda de Cd’s, acaba permitindo que
bandas novas alcancem um público que a alguns anos atrás seria impensado. Como
vocês da Fearless lidam como esse assunto para lá de espinhoso?
Daniel: É um assunto espinhoso de fato,
Leandro. As opiniões em nosso meio de convívio são diversas. Acreditamos que é
algo inevitável que afeta a todos os músicos positiva e negativamente. E já que
é inevitável, nós do Fearless buscamos usar a nosso favor através da divulgação
de proporções míticas que isso pode proporcionar. E pelos resultados, tem
funcionado. Não vemos como algo de todo ruim. Tentamos também investir pesado
naquilo que não se pode piratear que são as performances ao vivo. Buscamos dar
ao fã uma experiência insubstituível e única o suficiente para que ele queira
estar em nossos shows para nos ver, já que nos escutar, qualquer um no mundo
que quiser pode.
8
– Ainda dentro desse panorama da pirataria digital, ainda vale a pena lançar um
CD físico?
Daniel: Com certeza. Quem compra mp3 pelo
ITunes, games pelo Steam, ou filmes pelo Netflix sabe como faz falta algo que
você possa ter a sensação de desembalar, manusear, expor em uma estante...
Mesmo tendo acesso a mídias virtuais de livros, games, música, filmes, várias
pessoas ainda optam pela mídia física pela satisfação diferenciada que ela
proporciona. É como se desse uma impressão de maior proximidade com o artista,
na minha opinião. Devido a pirataria principalmente, a banalização da mídia
virtual faz com que o cd físico tenha um valor muito maior para o fã que quer
prestigiar o músico.
9
– Como é ser uma banda de Metal no Brasil, um país dominado por modas musicais?
Daniel: É extremamente gratificante. Ver que
você está caminhando bem sucedido, sendo sincero, fazendo o que gosta, sem se
render ao que a mídia brasileira impõe como “arte”, não tem preço. Não devemos
perder as esperanças. Ainda existem brasileiros que não engolem qualquer coisa.
10
– É comum ouvir bandas nacionais reclamando da dificuldade de se fazer shows no
Brasil, tanto pela falta de profissionalismo de produtores, como também pela
falta de apoio do público, que muitas vezes dá mais valor a bandas
estrangeiras, apesar do alto nível de nosso cenário. Como vocês enxergam essa
questão?
Daniel: É aquele velho ditado: “Santo de casa
não faz milagre.” Quando chega uma banda de fora para fazer um show o público
sabe que aquela oportunidade não vai voltar tão cedo, ou pode até mesmo ser
única dependendo da banda. Já bandas nacionais, sabemos que vamos vê-las por
aqui com uma frequência maior. Dependendo de onde mora você até topa com os
caras na rua. O charme vai se perdendo, é um fenômeno normal por parte do
público. Já em relação às bandas, não creio que o nível esteja tão alto assim.
O que acontece a meu ver é o baixo padrão por parte da mídia, dos produtores e
por parte das próprias bandas em relação ao que é considerado de alto nível,
mas o padrão do público continua o mesmo. Sempre vai haver comparações com as
bandas de fora e temos que nos esforçar para fazer jus a essas comparações,
tanto musicalmente quanto visualmente, o que eu acho que não tem acontecido.
11
– O espaço agora é todo de vocês para considerações finais, portanto, sintam-se
a vontade.
Daniel: Gostaria de agradecer a você, Leandro,
pela prazerosa entrevista e a todos os fãs por todo o apoio que chega até nós
como uma força imprescindível para a nossa jornada. Nesse mês estaremos
inaugurando nosso site oficial. Fiquem atentos, pois novidades GRANDES estão
por vir! Um abraço a todos e KEEP ROCKIN’!
É indiscutível que no Brasil temos
excelentes músicos e bandas no cenário do Heavy Metal. Mas ao mesmo tempo, não
podemos negar a falta de apoio latente que o público dá as bandas nacionais,
tanto no que diz respeito a compra de Cd’s quanto a shows. Enquanto bandas
“gringas”, que na Europa ou EUA, em muitos momentos, mal conseguem tocar para
pouco mais de 100 pessoas (em alguns casos até menos), conseguem levar um
público em muitos casos 10 vezes maiores aqui no Brasil, com igressos a preços
absurdos e sendo tratados como estrelas pelos fãs, bandas nacionais que são
extremamente respeitadas (e com mais qualidade musical) no exterior e conseguem
públicos maiores na Europa e na Ásia, mal conseguem colocar 50 pessoas em um
show no Brasil, com um ingresso a preço bem acessível a qualquer um. Mas porque
todo esse discurso?
Sem exageros, sendo fã do estilo
executado pelos juizdeforanos da Fearless, aquele Power Metal Néo-clássico com
influências de Folk, posso dizer que a banda não fica nada a dever a maioria
dos grupos nessa linha espalhados pelo mundo. A principal referência aqui é,
sem sombra de dúvidas, os italianos do Rhapsody (ou Rhapsody Of Fire, se vocês
preferirem), mas e possível ouvir na música da Fearless, ecos de nomes como
Blind Guardian, Grave Digger, Virgin Steele, Avantasia e Turisas. As 4 faixas
desse EP possuem muita qualidade e qualquer fã do estilo e das bandas
supracitadas irá gostar do que temos aqui. A épica “War of Ages” abre o EP com
um som que remeteu de início a Rhapsody e Blind Guardian. “Prayer Of The King”,
faixa seguinte, é simplesmente umas das melhores músicas que escutei nos
últimos anos, em se tratando de Power Metal. Típica faixa do estilo, se destaca
pelos vocais e coros presentes, ótimas guitarras e, principalmente pelo refrão
superbonder que possui. É desses que gruda na sua cabeça e fica por dias e dias
lá. “Jericho”, faixa seguinte, é outra com clima épico e que remete ao trabalho
do Helloween clássico e do Rhapsody. Com riffs pesados e vocais que deram
dramaticidade a música. Já “Ancient Wisdom”, faixa título, fecha o trabalho com
uma pegada mais voltada para o folk.
Muita energia, ótimos refrões recheados
de coros e passagens sinfônicas de muito bom gosto são a tônica aqui. Essa
fusão de Power Metal, neo-clássico e Folk, que resulta em um som bem teatral e
orquestrado, pode não ser nenhuma novidade nos dias de hoje, mas a Fearless
executa isso com grande maestria. Podem não ter reinventado a roda, mas que a
fazem girar com extrema competência, isso eles fazem. Agora é esperar o
lançamento de um CD completo. E que isso não demore muito!