sábado, 29 de julho de 2017

Shows: Tribus Festival Brasil 2017 – Carangola/MG

Tribus Festival Brasil 2017
Granja Regina – Carangola/MG
22 de Julho de 2017
Por Leandro Vianna – Fotos: Leandro Vianna

Decididamente, umas das coisas que mais gosto de fazer é comparecer a Festivais e eventos do nosso underground. São em ocasiões assim que você acaba reencontrando aqueles amigos de outras cidades, em quem você só consegue esbarrar em shows, conhece pessoalmente aquele povo com que você até então só conversava virtualmente, faz novas amizades e mantém um contato direto com as bandas. E claro, tem a música, o mais importante de tudo. Desses eventos, um dos que mais gosto é o Tribus Festival Brasil, que ocorre em Carangola/MG, e tem o diferencial de unir não só música, como cultura em geral, além de possuir a proposta de sustentabilidade. Neste ano, em sua 5º Edição, tinha entre as principais bandas 3 dos principais nomes do nosso cenário na atualidade: os brasilienses do Arandu Arakuaa, tocando pela primeira vez em Minas Gerais, e os paulistas do Torture Squad e do Test.

Mas como eu sempre digo, para apoiar nosso underground, o fã de Metal tem que ter, acima de tudo, disposição para encarar a estrada e as intempéries da vida. Então, lá fui eu na manhã do dia 22, ao lado de minha esposa, encarar uma baldeação e quase 4 horas de viagem para chegar em Carangola, hospedar-me no hotel, almoçar e recarregar minimamente as baterias para a maratona de shows que se seguiria durante as horas seguintes. Como o local escolhido para o evento esse ano era um pouco mais afastado do Centro, a organização, com o apoio da Prefeitura, disponibilizou um micro-ônibus no horário das 13h para levar aqueles que quisessem chegar mais cedo ao local e claro, não perdi a oportunidade. E, devo dizer, não me arrependi nem um pouco.


Assim que cheguei, já me surpreendi com o espaço escolhido, muito agradável e em meio à natureza. Além disso, a estrutura montada estava muito legal. E como tem coisas que só ocorrem no underground, tive a oportunidade de acompanhar toda a passagem de som não só do Arandu Arakuaa como também do Torture Squad, sendo que, no caso dos últimos, pude ainda trocar uma ideia antes dos mesmos voltarem ao Hotel. O problema todo é que isso só ocorreu devido a um imprevisto que acabou afetando de certa forma o andamento normal de todo o Festival. Entre seus apoiadores, o evento contava com a Prefeitura de Carangola, que cedeu o palco utilizado. Contudo, durante o processo de montagem, constatou-se que o mesmo não estava completo, desencadeando assim um efeito dominó: se a montagem do palco atrasa, a montagem do equipamento de som também e, consequentemente, a passagem de som das bandas. E se tudo isso atrasa, automaticamente as apresentações têm o mesmo destino. E isso infelizmente ocorreu, acarretando por exemplo, na alteração da ordem dos shows, com o Dsnort, não tocando antes do Torture Squad, como programado. Mas infelizmente esses são imprevistos aos quais todo Festival está sujeito.


Com atraso, o Umanoid, banda da cidade de Carangola, subiu ao palco apresentando sua mistura de Metal e Hip Hop, muito bem-feita por sinal. Apresentando músicas próprias, mostraram um som bem coeso e, com certeza, agradaram aqueles que apreciam esse tipo de junção de estilos. Em seguida foi a vez do White Death, banda de Hard/Heavy do Espirito Santo, que fez um show que agradou bastante os que estavam presentes até aquele momento. Capitaneado pela boa vocalista Priscylla Moreno, mesclaram temas próprios com alguns clássicos do estilo, caindo no gosto de fãs de bandas como Iron Maiden, Saxon e afins. Vale lembrar que já possuem um EP lançado, Reaper Of Corruption, ainda com o vocalista anterior e estão agora em processo de pré-produção para gravar novo material já com Priscylla nos vocais. Em seguida foi a vez do Punk Rock tomar de assalto o Tribus, com os também capixabas do Ravengar. Serei sincero, não é um estilo que faça a minha cabeça, mas seria injustiça criticar o show dos caras por isso, até porque foi nítido o quanto o público curtiu a apresentação do trio formado por Marcelo Capilé (vocal e guitarra), Georgi (baixo) e Cadu Almeida (bateria). No set list, músicas próprias e covers de nomes como Misfits e Ramones, dentre outros. Em seguida, foi a vez do Hardcore do quarteto mineiro Os Capiau. E meu amigo, que porrada! A coisa estava tão violenta que ainda no começo do show, uma das cordas de uma das guitarras foi para o espaço, sendo necessário o empréstimo de um outro instrumento para que a apresentação não parasse por ali e atrasasse ainda mais todo o cronograma. Mas, guitarra emprestada, os caras simplesmente voltaram a quebrar tudo. Se você curte Hardcore, vale a pena correr atrás dos CD’s dos caras. Com o público ainda se recuperando do arregaço que foi o show dos mineiros, os fluminenses do Persecuter subiram ao palco apresentando seu Thrash Metal furioso e divulgando seu primeiro álbum completo de estúdio (possuem também um EP, de 2013) The Hatred Domains (vale uma audição no Bandcamp dos caras), lançado no começo desse ano. Só posso dizer que conseguiram manter a adrenalina lá no alto, algo que naquele momento se fazia muito necessário, já que o frio começava a incomodar os presentes. Um puta show de Thrash Metal, desses bons de se bater cabeça.


Nesse ponto tenho uma ressalva a fazer. Em um evento desse tipo, tem que se tomar muito cuidado ao escolher a ordem das bandas, e aqui tivemos uma falha. Deixo claro que nada tenho contra o Attività Power Trio, banda formada por ótimos músicos, bem técnicos, e que pratica o bom e velho Rock, com músicas próprias que possuem qualidades. Mas nunca, de forma alguma, poderiam ter tocado nesse momento do evento. E, repito, não é por uma questão de qualidade, mas é que de forma alguma conseguiriam manter o pique do público lá no alto, depois de dois shows avassaladores de Hardcore e Thrash Metal, como foram os do Os Capiau e do Persecuter. Por isso, mesmo fazendo uma boa apresentação, acabaram soando “inofensivos” e “esfriando” o público. E não sou eu quem diz isso, foi o que escutei de diversas pessoas durante o show do trio. Certamente, se tivesse sido a segunda ou terceira banda a se apresentar, teriam chamado muito mais a atenção.


Então chegamos ao ponto alto do Tribus, com uma sequência de shows simplesmente fantástica e que nem o frio que apertava cada vez mais foi capaz de atrapalhar. Sinceramente, é difícil até definir o que foi a apresentação do Test. Como apenas 2 caras conseguem alcançar tal nível de extremismo e destruição sonora é algo que merece ser estudado. A coisa estava em um nível tal que, em determinado momento da apresentação, o bumbo simplesmente foi ao chão, e o melhor, Barata não parou de tocar e continuou esmurrando os tons, enquanto João da Kombi massacrava a todos com seus vocais brutais e seus riffs destruidores. Ver o desespero do pessoal de palco para colocar o bumbo no lugar enquanto o massacre continuava só não foi tão divertido quanto o fato de que, dali para frente, tivemos uma pessoa sentada diante do bumbo pelo restante do show, para que nenhum acidente voltasse a acontecer. Simplesmente fantástico, e todo reconhecimento que os caras vêm recebendo nos últimos tempos se mostra mais do que merecido.


A apresentação seguinte foi de ninguém menos que o Torture Squad, que está lançando seu novo, e com todo respeito, melhor trabalho, Far Beyond Existence. E meus amigos, que show! May Puertas é um fenômeno da natureza em cima do palco, simplesmente destruidora. Tem uma ótima presença, parece ocupar todos os espaços possíveis e ainda destrói tudo com seus vocais. Rene Simionato faz um belo trabalho nas guitarras, com riffs viscerais e também tem boa presença, enquanto a dupla formada pelo baixista Castor e o baterista Amílcar Christófaro mostra ao vivo e a cores porque formam uma das melhores partes rítmicas do Metal brasileiro. Com um repertório muito bem selecionado, mesclando velhos e novos clássicos, fizeram um show que empolgou a todos, fazendo os presentes esquecerem o frio e o cansaço que já se abatia sobre alguns, pois começávamos a entrar madrugada adentro, devido ao atraso inicial. Um show pra ficar na memória.


Eis então que chega a hora do Arandu Arakuaa subir ao palco, divulgando seu 2º álbum de estúdio, o ótimo Wdê Nnãkrda. Confesso que estava bem ansioso pela apresentação, afinal, tenho noção de que não é tão simples para uma banda de Brasília vir tocar no interior de Minas Gerais. Infelizmente, devido ao frio, ao cansaço e o avançar da hora (já eram mais de duas da manhã quando subiram ao palco), parte do público acabou partindo após a apresentação do Torture Squad. Aos que foram embora, lamento, pois perderam um show simplesmente incrível. A mistura de Heavy Metal com música brasileira indígena, e letras que tratam de tradições e lenda dessa tão rica cultura, gera não só o verdadeiro Folk Metal brasileiro, como também uma sonoridade imersiva, que faz quem está diante do palco não conseguir sequer piscar os olhos durante a apresentação. As letras em Tupi, Xavante e Xerente ajudam demais nesse processo de imersão, além da utilização de instrumentos percussivos típicos da cultura indígena, assim como também da viola caipira. Sua música é de uma riqueza instrumental cativante. Karine Aguiar, além de ótima vocalista, tem uma presença marcante, enquanto os talentosos Zândhio Aquino e Pablo Vilela se mostram ótimos guitarristas, além de presenças marcantes no palco. O mesmo vale para o baixista Saulo Lucena, que se mostra bem presente, não só com seu instrumento, como nos vocais mais agressivos (cabe dizer aqui que todos em algum momento cantam, seja nessas partes mais agressivas, seja nos momentos cantados em língua indígena). Realmente um show incrível, que ainda contou com a participação do ativista indígena da etnia Puri, Kapua Lana, que interpretou um cântico do seu povo. Infelizmente, após essa apresentação, o corpo não mais aguentou e acabei indo embora, afinal, já se passava das 3 da manhã e eu e minha esposa ainda teríamos que enfrentar a jornada de volta para casa, tendo apenas umas 5 horas para descansar. Sendo assim, realmente não sei como ficaram as situações das demais apresentações que faltavam.


Agora, vamos a algumas considerações que julgo importantes, nem tão agradáveis de se falar. Vamos ao público. O que mais se escuta no interior é a reclamação pela inexistência de eventos que tenham o Heavy Metal como foco. E, realmente, não é fácil realizá-los, já que existem muitos custos e pouco apoio, por isso, iniciativas como o Tribus devem, sim, ser muito valorizadas. Não que o público presente tenha sido decepcionante, foi razoável, mas é triste constatar que basicamente tínhamos as mesmas pessoas com as quais cruzamos em todos os festivais na região. Qual o problema disso? Nenhum, se eu não soubesse que a quantidade de pessoas que curtem Metal por aqui é bem maior. Mas nessa hora, o comodismo sempre fala mais alto e o sofá de casa sempre vence. Veja por exemplo o caso da minha cidade, Cataguases. Centenas de pessoas dizem curtir Metal, mas sequer uma van foi cogitada para ir ao evento, até porque quando se organiza alguma, dificilmente se consegue fechar a mesma. E isso quando se tem uma banda da cidade tocando no evento (o que não foi o caso do Tribus esse ano). No final, além de mim e minha esposa, apenas mais 3 amigos daqui estavam lá. E isso se repete em todo o entorno. Depois, quando iniciativas como estas deixarem de acontecer, espero que não fiquem choramingando pelos cantos reclamando da falta das mesmas, já que quando elas ocorrem, preferem ignorar.

Agora, mais duas cutucadas em uma pequena parcela do público, mas nesse caso, nos que estavam presentes. Uma das bandas que se apresentou no festival teve uma iniciativa que achei muito legal. Disponibilizou seu CD pelo preço que a pessoa quisesse pagar. Achei louvável tal iniciativa e só não peguei uma cópia para mim porque realmente não era minha praia sonora e não estava com dinheiro sobrando, afinal, se tivesse que pagar, o faria por um preço justo, pois sei das dificuldades e custos de gravar no Brasil. O problema é que, nitidamente, o fã de música no Brasil não sabe dar valor à obra de um artista que ele diz curtir. Não sei mesmo se a banda se incomodou com tal fato ou não (afinal, quem tá na chuva é para se molhar), mas me emputeceu demais ver algumas pessoas chegando até a banca de CD’s dizendo que haviam curtido muito o show, gostado das músicas, e dando R$ 0,10 pelo material. Isso mesmo, DEZ CENTAVOS. E pior, ainda pedindo autógrafo do vocalista na capa do CD. É esse o valor que vocês dão aos artistas que dizem gostar? Custava abrir mão ao menos do valor de um latão de cerveja e pagar um preço minimamente justo pelo material dos caras? Na minha cabeça não, mas na de outros a ideia parece um tanto absurda.


Outro fato que me incomodou se deu durante a apresentação do Arandu Arakuaa, quando Kapua Lana subiu ao palco para interpretar um cântico de seu povo. Algumas indiretas já havia sido dadas durante a apresentação, em momentos onde os elementos indígenas eram realçados nas canções, mas quando Kapua assumiu o microfone, pude escutar algumas piadas de mau gosto com relação ao mesmo, vindo de duas ou três pessoas que estavam atrás de mim. Aparentemente, para eles, um descendente de indígena deve obrigatoriamente parecer com o que veem em filmes ou no Globo Repórter. Então, se por acaso vocês estiverem lendo aqui, vou lhes passar algumas informações. Os Puris viveram nas regiões que hoje correspondem aos estados de Minas Gerais, Espirito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo (na região da Serra da Mantiqueira), até os séculos XVIII e XIX, quando foram massacrados e miscigenados com os colonizadores luso-brasileiros. Sendo assim, uma pessoa não possuir a mesma aparência de um indígena que vocês viram nos livros escolares ou na TV não significa que o mesmo não tenha ascendência indígena. E vejam só, olhando por esse lado, até mesmo vocês, engraçadinhos, podem ter alguma ascendência indígena e sequer saberem disso. Nunca, de forma algum, desmereçam a luta legítima de alguém por ter seus direitos reconhecidos. NUNCA!

Feito o desabafo, só cabe aqui todos os elogios a iniciativa do Tribus. Além da música, ainda ocorreram a apresentação do Grupo de Capoeira Camaradagem, exposição do artista Thiago Assis, fogueira folk com vivência xamânica, mural com poesias, exposição com artesanato, doação de mudas para serem plantadas pelo público e muitas outras coisas interessantes. Um Festival que realmente abrange não só a música, como a cultura como um todo. Um verdadeiro foco de resistência nos dias cada vez mais difíceis que enfrentamos atualmente. Que mesmo diante de todas as dificuldades, Jozilei Pimenta Costa e os demais que o apoiaram na organização se mantenham firmes e fortes por muitos e muitos anos, pois a cena underground precisa muito desse tipo de iniciativa para se manter viva. E sendo assim, que venha o próximo Tribus Festival Brasil.

Um comentário:

  1. Excelente resenha, com altos ponto para a reflexão para os bangers da região (e de de todos os bangers brasileiros, de uma modo geral). Valeu pelo conteúdo!

    ResponderExcluir