quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Orphaned Land - Sahara (1994/2018)


Orphaned Land - Sahara (1994/2018)
(Century Media Records/Shinigami Records - Nacional)


01. The Sahara's Storm
02. Blessed Be Thy Hate
03. Ornaments of Gold
04. Aldiar Al Mukadisa
05. Seasons Unite
06. The Beloved's Cry
07. My Requiem
08. Orphaned Land, the Storm Still Rages Inside…

É indiscutível que os israelenses do Orphaned Land são uma das bandas mais criativas e originais do Heavy Metal nos dias atuais. A sua capacidade ímpar de mesclar o estilo, em suas diversas facetas, com elementos étnicos de sua cultura, a tornaram um nome único no cenário. Mas tudo isso teve um início, mais precisamente no dia 25 de novembro de 1994, quando Sahara, seu debut, saiu pela gravadora francesa Holy Records. Através dele, foi possível termos um pequeno vislumbre do que a banda viria a se tornar com o passar dos anos, mas cabe dizer que essa não é a única qualidade desse trabalho.

Mesclando seu Death/Doom com elementos folclóricos do Oriente Médio, Sahara foi uma lufada de ar fresco dentro da cena do estilo, mostrando que novos caminhos poderiam ser seguidos para evitar uma estagnação. Óbvio que por se tratar de um álbum de estreia, e com uma proposta bem inovadora, fica nítido que arestas precisavam ser aparadas e que a sonoridade precisava ser refinada como um todo, mas a base de tudo que viriam a se tornar estava aqui. Em alguns momentos, temos muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e tudo fica levemente confuso, fora que a forma como misturam todos esses elementos ainda não ocorre perfeitamente. Ainda sim, mesmo com tais falhas, Sahara é um álbum que empolga, já que conta com ótimos vocais de Kobi Farhi, além de um trabalho de guitarras empolgante da dupla formada por Yossi Sassi e Matti Svatizky.


Dá para dizer que o álbum se divide em 2 partes. De início, temos 3 canções inéditas: “The Sahara's Storm”, bem enérgica, com guitarras pesadas e já deixando claro de cara sua vibração oriental, a ótima e sombria “Blessed Be Thy Hate”, que possui até hoje alguns dos melhores riffs da carreira da banda, e a épica “Ornaments of Gold”. Após um interlúdio étnico intitulado “Aldiar Al Mukadisa”, que sinceramente acho meio dispensável, temos 4 canções regravadas da demo The Beloved's Cry. “Seasons Unite” possui riffs fortes, um belo trabalho de guitarras e boas melodias oriundas do teclado, enquanto “The Beloved's Cry” é uma balada triste e melancólica, mas muito bonita. “My Requiem” tem passagens que vão te fazer bater cabeça, e encerrando, “Orphaned Land, the Storm Still Rages Inside” chama a atenção pelas boas harmonias, pelos riffs enérgicos e pelo bom refrão.

A produção, comparada com a demo que precedeu a estreia, é bem superiora. A sonoridade está bem menos crua, dando aquele passo a frente que é esperado, mesmo que esteja um degrau abaixo do que veríamos já no trabalho posterior, El Norra Alila (96). No fim, Sahara cumpre muito bem a função de um álbum de estreia, apresentando o Orphaned Land para o mundo, e colocando as bases futuras de seu desenvolvimento. Só resta agradecer a Shinigami Records por prestar o grande serviço de relançar esse material por aqui e permitir ao fã brasileiro, maior facilidade de acesso ao mesmo. Se é fã da banda, tem a obrigação de ter esse CD em sua coleção.

NOTA: 82

Orphaned Land (gravação):
- Kobi Farhi (vocal);
- Yossi Sassi (guitarra);
- Matti Svatizky (guitarra);
- Uri Zelcha (baixo);
- Sami Bachar (bateria);
- Itzik Levi (teclado).

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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Immortal - Northern Chaos Gods (2018)


Immortal - Northern Chaos Gods (2018)
(Nuclear Blast/Shinigami Records – Nacional)


01. Northern Chaos Gods
02. Into Battle Ride
03. Gates To Blashyrkh
04. Grim And Dark
05. Called To Ice
06. Where Mountains Rise
07. Blacker Of Worlds
08. Mighty Ravendark

Ainda me lembro do primeiro contato que tive com a música do Immortal, na primeira metade dos anos 90. Era uma época em que o Black Metal norueguês estava no centro das atenções, não só pelo lado musical, mas também pelas polêmicas intermináveis que sequer precisam ser citadas aqui. Foi nesse período que escutei pela primeira vez Diabolical Fullmoon Mysticism (92) e Pure Holocaust (93), trabalhos que me causaram grande impacto. Os álbuns que vieram na sequência não foram diferentes, a não acho nada exagerado rotular Battles in the North (95), Blizzard Beasts (97) e At the Heart of Winter (99) como clássicos do Black Metal. Por mais que na sequência da carreira tenham mantido o nível com Damned in Black (00) e principalmente Sons of Northern Darkness (02), algo parecia não estar 100%.

Primeiro veio o fim em 2003, depois o retorno em 2006, seguido de um álbum um tanto quanto inconsistente, All Shall fall (09). Vejam bem, não estou dizendo que é um trabalho fraco, de forma alguma, mas apenas não possui o mesmo brilhantismo de outrora. Os shows continuaram a correr, tudo parecia bem, apesar de não se falar em um novo trabalho de inéditas, até que no final 2014 uma forte turbulência se abateu sobre o Immortal. Abbath entra em uma disputa judicial com Demonaz e Horgh pelo nome, alegando que acreditava que ambos haviam deixado a banda após decidirem por uma pausa nas atividades, e que ele precisava do mesmo para sobreviver, já que era músico profissional e dependia do lançamento de Cd’s e de shows para ter seus ganhos. Alegava inclusive que já tinha um novo álbum gravado, com outros músicos, e que estava apenas na espera da resolução de toda a situação para seu lançamento.


No final todos sabemos o que acabou por ocorrer. Abbath se retirou e formou sua banda solo, lançando com ela o material que havia composto e gravado para ser o 9º trabalho de estúdio do Immortal, enquanto Demonaz, que desde 97 exercia apenas a função de letrista devido a uma forte tendinite, e Horgh, deixaram claro que a banda continuaria viva e que já estavam começando a trabalhar em um novo álbum de inéditas. Tudo isso acabou gerando uma série de incertezas, afinal, o ex-vocalista e guitarrista era o centro criativo do grupo desde At the Heart of Winter. Será que Demonaz, depois de mais de 2 décadas afastado das funções de guitarrista, conseguiria manter o alto nível exigido pelos fãs? Será que o mesmo conseguiria se sair bem como vocalista, mantendo o alto nível dos vocais de Abbath? Conseguiria Northern Chaos Gods superar o trabalho de estreia de Abbath? As perguntas eram muitas, e as respostas finalmente estão ao nosso alcance, na forma das 8 canções que compõem esse álbum.

Bem, os fãs podem respirar aliviados, pois, Northern Chaos Gods é um trabalho que definitivamente honra a carreira do Immortal. Sem inventar, a dupla formada por Demonaz (vocal/guitarra) e Horgh (bateria), contando com o apoio do produtor Peter Tägtgren, responsável pela gravação do baixo, apostou em um Black Metal padrão, simples, direto, e que remete diretamente ao período inicial da banda, principalmente a trabalhos como Battles in the North e Blizzard Beasts. Claro, não negam tudo que veio pós-1997, mas é um álbum que nitidamente soa mais obscuro e sombrio do que a fase que contava com Abbath como cérebro criativo. É um Immortal mais enérgico e revigorado. Os vocais de Demonaz conseguiram manter um bom nível, e ele não tenta soar como uma cópia de seu antecessor. Nesse sentido, é uma ótima estreia. Sua guitarra está simplesmente esmagadora e Horgh faz exatamente o que se espera dele, com um trabalho sobre-humano na bateria. O baixo de Peter está lá, soterrado por uma avalanche de riffs devastadores e de blastbeats, mas você consegue perceber ele uma vez ou outra. Nada diferente de trabalhos anteriores da banda.


De cara, já temos uma faixa que é a mais pura essência do que é o Immortal, a feroz e selvagem  “Northern Chaos Gods”, que remete diretamente aos primórdios da banda. Na sequência temos um cataclismo em forma de música, “Into Battle Ride”, com toda a sua velocidade, brutalidade e clima gélido. “Gates To Blashyrkh” é desde já uma forte candidata a se tornam um clássico dos noruegueses, mesclando fúria, riffs cortantes e boas passagens atmosféricas. “Grim And Dark” se destaca pelo clima sombrio, pelo peso e pelas guitarras afiadíssimas, e “Called To Ice” é daquelas músicas velozes e devastadoras que poucos além deles conseguem fazer. “Where Mountains Rise” é outro dos pontos altos do trabalho. Tem aquela aura do Bathory, que marcou o começo da carreira do Immortal, um clima absurdamente gélido, um refrão muito bom e elementos atmosféricos que são bem utilizados. “Blacker Of Worlds” é simplesmente implacável, se destacando pela fúria e pelos altos níveis de crueldade com os tímpanos mais delicados. Encerrando, temos a épica, avassaladora e magistral “Mighty Ravendark”, certamente uma das melhores composições da carreira da banda.

Como já dito, a produção ficou a cargo de Peter Tägtgren, algo que já ocorre desde At The Heart Of Winter, tendo ele também sido o responsável pela mixagem. Já a masterização, assim como em All Shall Fall, voltou a ser realizada por Jonas Kjellgren. O equilíbrio encontrado foi perfeito, já que soa audível, mas sem polimento excessivo. Exatamente como deve ser um álbum de Black Metal. Já a capa foi obra da Jannicke Wiese-Hansen, sendo simples, e deixando transparecer com perfeição o que o ouvinte encontrará em Northern Chaos Gods: Black Metal gélido, escuro, feroz, enérgico e esmagador. O Immortal definitivamente voltou e não está para brincadeiras. O Reino de Blashyrkh vive!

NOTA: 88

- Demonaz (vocal/guitarra),
- Horgh (bateria).

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MX - A Circus Called Brazil (2018)


MX - A Circus Called Brazil (2018)
(Shinigami Records - Nacional)


01. Halloween Circus
02. Fleeing Terror
03. Murders
04. Mission
05. Lucky
06. Cure and Disease
07. Toy Soldier
08. Keep Yourself Alive
09. Marching Over Lies
10. Apocalypse Watch
11. A Circus Called Brazil – pesada e agressiva, bem diversificada.
12. Speedfreak (Motörhead cover)

O MX é um dos nomes mais tradicionais do Metal brasileiro. Surgido em Santo André/SP, no ano de 1985, de cara lançou dois trabalhos clássicos quando falamos de Thrash no Brasil, Simoniacal (88) e Mental Slavery (89). Em seguida, tivermos 2 bons álbuns, Again... (97) e The Last File (00), para então entrarem em um hiato que perdurou por 12 anos. Após o retorno, chegaram a lançar um trabalho com regravações, Re-Lapse (14), mas a verdade é que os fãs aguardavam já a algum tempo por material inédito da banda. E finalmente, após uma espera de 18 anos, finalmente temos em mãos A Circus Called Brazil, seu 5º álbum de estúdio.

Aqui não tem muito mistério, e o ouvinte sabe muito bem o que esperar. É Thrash Metal direto, agressivo, vigoroso, e que apesar de remeter ao passado da banda, ainda sim consegue soar atual. É old school, mas sem parecer como se tivesse sido feito 30 anos atrás. Os vocais de Alexandre Cunha estão agressivos e soam melhores do que nunca, e ele continua destruindo tudo na bateria, formando uma ótima parte rítmica com  Alexandre "Morto" Favoretto. A dupla de guitarristas, formada por Alexandre "Dumbo" Gonsalves e Décio Jr., despejam ótimos riffs em nossos ouvidos, além de boas melodias e bom groove. Vale destacar também a qualidade dos refrões, marcantes e fortes. 


Após uma breve introdução, temos a rápida “Fleeing Terror”, que esbanja energia e vigor, dando uma amostra do que encontraremos pela frente. Na sequência vem a ótima “Murders”, com uma boa variação entre partes mais velozes e outras mais cadenciadas, onde a parte rítmica se destaca. “Mission” tem momentos mais cadenciados que dão variedade a canção, enquanto “Lucky” transborda energia e vigor, com ótimas guitarras. “Cure and Disease” tem uma levada mais lenta e possui peso de sobra, e “Toy Soldier” se destaca principalmente pelo ótimo trabalho de bateria.“Keep Yourself Alive” remete mais aos primórdios da banda e apresenta boa técnica. “Marching Over Lies” e “Apocalypse Watch” formam uma sequência com potencial para moer pescoços. Encerrando o álbum, a belíssima faixa título, diversificada, pesada e agressiva, e uma versão muito boa de “Speedfreak”, do Motörhead.

A produção, mixagem e masterização ficaram a cargo de Tiago Hóspede, em parceira com a banda. O resultado conseguiu unir clareza e agressividade, tudo na medida correta e sem certos exageros dos dias atuais. Já a capa, uma das melhores que vi esse ano, foi obra de Cleyton Amorim, e retrata o momento vivido por nosso país. Com um álbum para lá de consistente e conseguindo aliar suas raízes, mas sem soar datado, o MX lançou um dos grandes álbuns nacionais de 2018, e, com certeza, figurará em muitas listas de melhores do ano em dezembro.

NOTA: 86

MX é:
- Alexandre Cunha (vocal e bateria),
- Alexandre "Dumbo" Gonsalves (guitarra e vocal),
- Alexandre "Morto" Favoretto (baixo e vocal),
- Décio Jr. (guitarra).

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Deicide - Overtures Of Blasphemy (2018)


Deicide - Overtures Of Blasphemy (2018)
(Century Media Records - Importado)


01. One With Satan
02. Crawled From The Shadows
03. Seal The Tomb Below
04. Compliments Of Christ
05. All That Is Evil
06. Excommunicated
07. Anointed In Blood
08. Crucified Soul Of Salvation
09. Defying The Sacred
10. Consumed By Hatred
11. Flesh, Power, Dominion
12. Destined To Blasphemy

Partindo do surgimento do Amon, em 1987, não é exagerado dizer que nesses mais de 30 anos, polêmica e Deicide sempre foram sinônimos, sempre andaram de mãos dadas, muito disso pelas atitudes de seu líder, Glen Benton. Ainda sim, é impossível negar a importância da banda para o Death Metal, já que lançaram trabalhos clássicos para o estilo, casos de Deicide (90), Legion (92), Once Upon The Cross (95), Serpents Of The Light (97) e The Stench Of Redemption (06). O problema é que tirando tais álbuns, a discografia do Deicide sempre navegou no mar da inconstância, entre trabalhos bons e outros extremamente burocráticos. Ainda sim, uma coisa é inegável: sempre se mantiveram fiéis ao Death Metal, e nunca procuraram se adaptar aos modismos surgidos com o passar dos anos.

Quando lançaram In The Minds Of Evil (13), vinham de 2 trabalhos onde pareciam estar ligados no piloto automático, Till Death Do Us Part (08) e To Hell with God (11). Isso, somado a estreia do guitarrista Kevin Quirion, que deu um novo gás a banda, fez com que em muitos momentos o Deicide soasse renovado do ponto de vista da inspiração, remetendo ao seu passado. Ainda sim, existiam os momentos em que pareciam estar ali apenas para cumprir horário no estúdio, e isso fez com que o resultado não fosse tão bom quanto poderia. De qualquer forma, isso despertou nos fãs uma boa expectativa de que as coisas poderiam estar novamente entrando nos eixos. Parecia existir futuro para o Deicide. Bem, passado um hiato de 5 anos, finalmente chegou a hora de confirmar tais expectativas, ou de simplesmente se frustrar mais uma vez.


Overtures Of Blasphemy é seu 12º álbum, e marca a estreia em estúdio do guitarrista Mark English, substituto de ninguém menos que Jack Owen, que saiu do Deicide em 2016, depois de 12 anos. Bem, o que posso dizer a respeito disso. Se a entrada de Quirion já parecia ter dado um novo gás ao quarteto, a troca de Owen por English parece ter renovado de vez as coisas. Não, o som não se modernizou, continua aquele Death Metal bruto, agressivo e infernal, mas é indiscutível que tais mudanças jogaram a criatividade do grupo lá no alto novamente. Aqui pegaram os melhores momentos de In The Mins of Evil e os potencializaram, gerando assim o melhor trabalho dos americanos desde The Stench Of Redemption.

Os vocais de Benton continuam em plena forma, por mais que raramente variem. Sinceramente, isso nunca foi problema em se tratando de Deicide. Além disso, ele faz uma dupla infernal com Steve Asheim. Seu baixo soa implacável, enquanto o baterista faz um trabalho poderoso e devastador. Quase uma força da natureza. O trabalho das guitarras de Kevin e Mark soa simplesmente diabólico, já que conseguem despejar alguns dos riffs mais caóticos e sombrios da história da banda. Além disso, conseguem inserir boas melodias, que surgem salpicadas aqui e ali. Os solos também soam primorosos e se destacam em diversos momentos. Preciso frisar que quando falo em melodia, não estou falando de algo exagerado, já que o que temos aqui é uma música que prima acima de tudo pela brutalidade, agressividade e rispidez. 


“One With Satan” inaugura os trabalhos de forma bruta e ccontundente, sendo seguida da ótima “Crawled From The Shadows”, violenta, furiosa e com ótimos riffs. Então temos 2 faixas com potencial para se tornarem clássicas, a grudenta “Seal The Tomb Below”, que não dá espaço para o ouvinte respirar e que pode quebrar alguns pescoços por aí, e “Compliments Of Christ”, com um trabalho de guitarra fenomenal e bom groove. “All That Is Evil” e “Excommunicated” são rápidas, opressivas e matadoras, enquanto “Anointed In Blood” se destaca pelos riffs e por algumas boas melodias. “Crucified Soul Of Salvation” é absurdamente agressiva e conta com uma bateria nada menos que explosiva. A agressividade também é o mote de “Defying The Sacred”, com seus ótimos riffs e um solo que traz boas melodias a canção. “Consumed By Hatred” esbanja brutalidade, enquanto a visceralidade dá as caras em “Flesh, Power, Dominion”. “Destined To Blasphemy” encerra o álbum de forma implacável e infernal, um retrato perfeito de tudo que foi escutado nos quase 38 minutos de duração de Overtures Of Blasphemy.

A produção de Jason Suecof (Belphegor, Monstrosity, Death Angel, DevilDriver, The Black Dahlia Murder), e a mixagem e masterização de Alan Douches (Cannibal Corpse, Death, Motörhead, Nile), deram ao álbum uma cara moderna, mas sem exageros, equilibrando bem clareza e agressividade. A belíssima e assustadora capa foi obra de Zbigniew Bielak (Behemoth, Dimmu Borgir, Ghost, Paradise Lost), e é a cara da banda. Soando renovado, mas sem renunciar a qualquer uma de suas convicções musicais, o Deicide lança um álbum de Death Metal puro, brutal, blasfêmico, infernal e caótico, como todo trabalho dentro do estilo deveria ser. Se algum dia alguém vier te perguntar o que é Death Metal, não existe, apresente Overtures Of Blasphemy a ela. Definição melhor, impossível!

NOTA: 89

Deicide é:
- Glen Benton (vocal/baixo);
- Kevin Quirion (guitarra);
- Mark English (guitarra);
- Steve Asheim (bateria).

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Madball - For The Cause (2018)


Madball - For The Cause (2018)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)


01. Smile Now Pay Later
02. Rev Up
03. Freight Train
04. Tempest
05. Old Fashioned
06. Evil Ways (feat. Ice T)
07. Lone Wolf
08. Damaged Goods
09. The Fog (feat. Tim “Timebomb” Armstrong)
10. Es Tu Vida
11. For You – bom groove, ótimo refrão
12. For The Cause
13. Confessions (Bonus Track)

Uma verdadeira lenda do NYHC, essa é a definição perfeita para o Madball, surgido no ano de 1988 como um projeto que unia o vocalista Freddy Cricien a seu meio-irmão Roger Miret (baixo), Vinnie Stigma (guitarra) e Will Shepler (bateria), todos eles membros do icônico Agnostic Front. Ainda em 1992, mais um membro do AF se juntava as fileiras da banda, o guitarrista Matt Henderson. Com o tempo a formação foi se alterando, e Miret saiu antes mesmo do lançamento do debut em 1994, o clássico Set It Off, sendo substituído por outro músico de suma importância para a banda, Jorge "Hoya Roc" Guerra, que acabou por se tornar fiel escudeiro de Freddy nessas últimas 3 décadas. Em 1997, Stigma e Shepler também saíram, mas a tempo de gravarem mais um trabalho clássico, Demonstrating My Style (96). O Madball ainda teve tempo de lançar mais 2 ótimos trabalhos, Look Ly Way (98) e Hold It Down (00), antes de anunciar seu fim, em 2001.

Felizmente, para a alegria dos fãs do estilo, já em 2002 anunciaram seu retorno, e For The Cause é seu 5º álbum desde a volta. Mais uma vez, o Madball faz exatamente o que se espera dele, ou seja, aqui temos aquele típico NYHC que marcou a carreira da banda. Os vocais de Cricien se mantém característicos, flertando com o hip-hop em diversos momentos (para quem não sabe, ele já lançou um trabalho solo nesse estilo, com o nome de Freddy Madball & DJ Stress). A guitarra, que aqui foi gravada por Matt Henderson, pois, Brian "Mitts" Daniels se retirou da banda ano passado (estava desde 2001), continua eficaz, com riffs fortes e que em alguns momentos resvalam no Thrash/Crossover, além de boas melodias. O baixo de Hoya Roc é responsável por aquelas linhas fortes que todos conhecemos, enquanto a bateria de Mike Justian faz muito bem o seu trabalho, soando muito pesada.


De cara, temos uma das melhores músicas de todo álbum, “Smile Now Pay Later”, forte, pesada e com bom groove. “Rev Up” tem tudo para se tornar um hino da banda, soando bem cativante e com boas melodias. “Freight Train” tem uma pegada bem Punk e poderia tocar em qualquer boa rádio rock por aí, pois, tem um bom apelo comercial, o que não faz dela uma canção Pop, faço questão de frisar. “Tempest” é bem pesada, e “Old Fashioned” é uma daquelas típicas canções de NYHC. Devastadora! A furiosa “Evil Ways” conta com a brilhante participação de Ice T, e tem lá seu pé no Thrash. “Lone Wolf” é outro típico NYHC e soa ameaçadora, enquanto “Damaged Goods” traz aquela pegada do hip-hop para os vocais. A empolgante “The Fog” tem participação de Tim Armstrong, do Rancid, e tem um pé bem fincado no Punk. “Es Tu Vida” é o ponto alto do álbum, com sua agressividade, energia e letra cantada em espanhol. Na sequência final, temos o bom groove de “For You” e mais duas típicas canções do NYHC, a bombástica “For The Cause” e a faixa bônus Confessions.

A produção ficou por conta da banda em parceria com Tim Armstrong, com mixagem e masterização de Tue Madsen (Behemoth, Dark Tranquillity, Heaven Shall Burn, Meshuggah, Moonspell). O resultado é bom, já que mesmo com tudo bem claro, não ficou nada exagerado e a agressividade se manteve presente. A parte gráfica ficou nas mãos de Stephen Jakubiak, com resultados simples, mas bem legais. O Madball não apresenta nenhuma novidade em sua música em For The Cause, sendo esse mais um típico álbum da banda, mas convenhamos, não é exatamente isso que todos esperamos de um trabalho deles? Cativante, enérgico e certamente vai fazer a alegria dos fãs de velha data.

NOTA: 84

Madball é:
- Freddy Cricien (vocal);
- Jorge "Hoya Roc" Guerra (baixo),
- Mike Justian (bateria).

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Kataklysm - Meditations (2018)


Kataklysm - Meditations (2018)
(Nuclear Blast/Shinigami Records – Nacional)


01. Guillotine
02. Outsider
03. The Last Breath I’ll Take Is Yours
04. Narcissist
05. Born To Kill And Destined To Die
06. In Limbic Resonance a
07. And Then I Saw Blood
08. What Doesn’t Break Doesn’t Heal
09. Bend The Arc, Cut The Cord
10. Achilles Heel

DVD (Faixas em negrito são partes do documentário):
01. Intro
02. In Shadows & Dust
03. Beyond Salvation
04. Why these 2 albums?
05. Illuminati
06. Chronicles of the Damned
07. Bound in Chains
08. Rediscovering These Albums
09. Where the Enemy Sleeps...        
10. Centuries (Beneath the Dark Waters)
11. We Have a Different Drummer Now
12. Face the Face of War
13. Years of Enlightment/Decades in Darkness
14. Intermission
15. The Ambassador of Pain
16. The Resurrected
17. The Fans
18. As I Slither
19. For All Our Sins
20. Generations
21. The Night They Returned
22. Serenity in Fire
23. Drumming on the Different Albums
24. Blood on the Swans
25. 10 Seconds from the End
26. The Tragedy I Preach
27. Meditations
28. Under the Bleeding Sun
29. Credits

Quando falamos de Kataklysm, sempre existe o risco de nos depararmos com viúvas de seus 2 primeiros álbuns, com Sylvain Houde nos vocais. Para esses, não importa que já se tenham passado 20 anos desde a saída do mesmo e que Meditations seja o 11º álbum da banda após Temple of Knowledge (96). Sempre ficarão presos ao saudosismo. Uma pena, porque nessas duas décadas, o quarteto canadense hoje composto por Maurizio Iacono (vocal), Jean-François Dagenais (guitarra), Stéphane Barbe (baixo) e Olivier Beaudoin (bateria), lançou ótimos trabalhos, sendo que alguns deles podem ser considerados clássicos quando falamos de Death Metal em sua vertente mais melódica.

Após anos e mais anos aprimorando seu estilo, Of Ghosts and Gods (15) marcou o desembarque definitivo do Kataklysm no Death Metal Melódico. Nele, nos deparamos com uma música que mantinha o peso e a agressividade, mas recebendo altas doses de melodia e groove, além de uma cara mais moderna. Puristas se incomodaram? Com certeza. O quarteto resolveu mudar sua abordagem por isso? Se o fizessem, não seriam o Kataklysm, e assim, o que temos em Meditations é uma sequência natural de seu trabalho anterior. Os vocais de Iacono estão em sua melhor forma e temos aqui seu melhor desempenho em um álbum da banda. Dagenais nos entrega um trabalho de guitarra primoroso, com ótimos riffs e melodias, além de solos que se destacam. Quanto a parte rítmica, se destacam pela técnica e coesão, com o baixo de Barbe bem pesado, ajudando demais nesse sentido quando as melodias tomam conta das canções, e a bateria de Beaudoin soando sólida e explosiva em muitos momentos.


“Guillotine” abre o trabalho de forma simplesmente furiosa, com uma bateria rápida, ótimos vocais e riffs cortantes. “Outsider” se destaca principalmente pelo ótimo groove e por sua diversidade, além de ter uma pegada bem moderna. A vigorosa “The Last Breath I’ll Take Is Yours” vem em seguida, equilibrando de forma ímpar brutalidade e melodia. A cadenciada “Narcissist” tem um ótimo trabalho da parte rítmica, com a bateria soando muito potente, enquanto “Born To Kill And Destined To Die” é outra carregada de groove, boas melodias e ótimos riffs. Confesso que em alguns momentos me lembrou Amon Amarth. “In Limbic Resonance” é monstruosa, conseguindo esbanjar brutalidade, mas sem abrir mão de ser melódica. Uma das melhores músicas da banda nos últimos anos. “And Then I Saw Blood” é outra que me remeteu ao Amon Amarth, com sua cadência e boas melodias, e “What Doesn’t Break Doesn’t Heal” se destaca principalmente pelo bom groove e por uma brutalidade dosada. “Bend The Arc, Cut The Cord” segue na pegada da antecessora, com destaque para seus ótimos riffs. Finalizando o álbum, temos a intensa e melódica “Achilles Heel”, com trabalho de guitarra primoroso e uma pegada simplesmente infernal.

A produção ficou a cargo de Dagenais e Beaudoin, com mixagem de Jay Ruston (Anthrax, Armored Saint, Sons of Apollo, Adrenaline Mob) e masterização de Paul Logus (Shadows Fall, Cradle of Filth, Satyricon). Ficou tudo bem claro e audível, e nesse sentido ouso dizer que até um pouco polido demais para o meu gosto, mas nada que comprometa, já que tudo soa pesado e agressivo. A bela capa e toda parte gráfica mais uma vez ficou por conta da esposa de Iacono, Surtsey, da Ocvlta Designs. Tudo soa bem uniforme, sem grande variedade de qualidade entre as canções, e isso não deixa de ser positivo, por mais que você sinta falta de mais momentos que grudem em sua cabeça. Isso não tira o mérito de que Meditations é um dos melhores álbuns do Kataklysm nos últimos anos, e que vai agradar em cheio os seus fãs. Vale lembrar que a versão nacional vem com um DVD  bônus, que mescla uma apresentação da banda na Alemanha, onde tocaram na íntegra os álbuns Shadows & Dust (02) e Serenity in Fire (04), com trechos de um documentário. Um material obrigatório!

NOTA: 86

Kataklysm é:
- Maurizio Iacono (vocal);
- Jean-François Dagenais (guitarra);
- Stéphane Barbe (baixo);
- Olivier Beaudoin (bateria).

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Auri - Auri (2018)


Auri - Auri (2018)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)


01. The Space Between
02. I Hope Your World Is Kind
03. Skeleton Tree
04. Desert Flower
05. Night 13
06. See
07. The Name Of The Wind
08. Aphrodite Rising
09. Savant
10. Underthing Solstice
11. Them Thar Chanterelles (feat. Liquor In The Well)

A importância do Nightwish para o cenário do Heavy Metal dos anos 2000, assim como o talento de Tuomas Holopainen, são fatos indiscutíveis, goste você da música dos finlandeses ou não. Mesmo após a saída de Tarja da banda e de toda turbulência dos anos seguintes, a relevância do grupo se manteve intocada. Possivelmente por isso, quando Tuomas anunciou que lançaria um novo projeto ao lado da cantora Johanna Kurkela (que é sua esposa), e de seu companheiro de Nightwish, Troy Donockley, os fãs tenham criado grande expectativa, se perguntando o que surgiria dessa união. Pois bem! O Auri é a resposta que eles esperavam, e de cara já aviso, pode não agradar a todos, já que o material não é de assimilação tão fácil se você for desses com a cabeça mais fechada. Convenhamos, se fosse para soar como a banda principal de Holopainen, não teria o porquê do projeto existir.

De cara já aviso, não esperem aqui um trabalho voltado para o Heavy Metal, pois, a proposta do Auri passa longe disso. O que temos é uma mescla de Folk, com influências celtas e orientais, elementos sinfônicos, eletrônicos, new age, trilhas cinematográficas e certa pitada pop. É um trabalho imersivo, profundo, minimalista e com uma boa dose de melancolia, que certamente vai cativar os que são adeptos de tal proposta. Se você for fã de artistas como Enya ou Loreena McKennitt, ele vai te atingir em cheio. Os vocais de Johanna são de uma beleza ímpar, suaves, etéreos e em muitos momentos, soam mágicos. Troy também se destaca muito, não só na parte instrumental, já que é responsável pelos instrumentos folclóricos, como também fazendo alguns vocais. Quanto a Tuomas, ele soa bem mais contido do que o esperado, já que certamente os fãs esperavam que ele guiasse as canções através da melodia de seus teclados. Isso pode soa decepcionante para alguns, mas para mim se encaixou perfeitamente na proposta musical do trio. O equilíbrio é latente e todos tem seu espaço.


A abertura já se dá com um dos grandes destaques do álbum, “The Space Between”, com um ar mais épico, boas melodias e um refrão cativante. Elementos eletrônicos e folclóricos são bem utilizados nessa canção. Em outras circunstâncias, “I Hope Your World Is Kind” poderia bem ser uma música do Nightwish. Possui certa urgência e um apelo mais dramático, muito por conta de elementos sinfônicos e folk, que estão bem encaixados. Já “Skeleton Tree” tem um ar sombrio, além de influências celtas. As passagens mais sinfônicas também enriquecem muito a canção. Na sequência, duas bonitas baladas, “Desert Flower”, com belos vocais de Johanna e Troy, e “Night 13”, com um ar cinematográfico e belo trabalho vocal. “See” tem elementos orientais e uma melodia simplesmente hipnótica. É bela e envolvente. A segunda metade do álbum soa mais experimental e menos palatável aos ouvintes comuns. “The Name Of The Wind”, com bons elementos sinfônicos, a sombria “Savant” e a dramática “Them Thar Chanterelles”, se encaixariam sem qualquer problema em alguma trilha cinematográfica. “Aphrodite Rising” consegue soar doce e ácida na mesma medida, além de possuir um apelo pop, e a minimalista “Underthing Solstice” se destaca não só pelo ar sombrio, como pela boa utilização de elementos celtas.

Gravado no Paha Pajari Palace e no Corner House Mansion, com produção da banda e de Tero "Teecee" Kinnunen (Amorphis, Nightwish, Delain), mixagem de Tim Oliver (Robert Plant, Pete Townshend) e masterização de Denis Blackham (Whitesnake, Faith no More, Uriah Heep, Demon, Robert Plant), temos aqui um excelente resultado, como já era de se esperar. A parte gráfica é belíssima, e o layout foi obra de Janne "Toxic Angel" Pitkänen (Sonata Arctica, Nightwish, Tuomas Holopainen, Barathrum). Essa proposta musical nunca é simples, e sempre se corre o risco de soar monótono e unidimensional. Não vou mentir dizendo que o Auri conseguiu escapar dessa armadilha 100% do tempo, mas é inegável que na mais parte do tempo, o trio consegue fazer com que sua música soe muito relevante. Por ser um trabalho diferente do que se espera, o ouvinte pode demorar um pouco a entender o mesmo, mas quando isso finalmente acontece, é um possível não se maravilhar com a beleza dessas canções.

NOTA: 81

Auri é:
- Johanna Kurkela (vocal/viola);
- Tuomas Holopainen (teclado);
- Troy Donockley (guitarra/violão/bouzouki/uilleann pipes/low whistles/aerophone/bodhran/teclado /vocal)

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sábado, 8 de setembro de 2018

Krisiun – Scourge Of The Enthroned (2018)


Krisiun – Scourge Of The Enthroned (2018)
(Century Media Records/Shinigami Records – Nacional)

01. Scourge of the Enthroned
02. Demonic III
03. Devouring Faith
04. Slay the Prophet
05. A Thousand Graves
06. Electricide
07. Abysmal Misery (Foretold Destiny)
08. Whirlwind of Immortality

Ainda me lembro da sensação que tive ao escutar Black Force Domain (95) pela primeira vez. O impacto daquele verdadeiro massacre sonoro deixou marcas, além da certeza de que eu estava diante de uma banda que tinha tudo para marcar seu nome a ferro e fogo na história do Death Metal mundial. Mais de 20 anos se passaram e o tempo apenas confirmou minhas impressões iniciais, e hoje os gaúchos do Krisiun podem (e devem) ser colocados entre os maiores nomes do estilo em todos os tempos. O que fizeram para isso? Só alguns clássicos, como Apocalyptic Revelation (98), Conquerors of Armageddon (00), Southern Storm (08) e The Great Execution (11). É pouco? Amigo, quantas bandas de Death Metal por aí podem se gabar de ter 4 álbuns desse porte, de serem citados em listas de melhores do estilo? Poucas, muito poucas. Na verdade, só lendas do estilo podem se dar a esse luxo.

Scourge Of The Enthroned é seu 11º álbum de estúdio, e vem para suceder Forged in Fury (15), um trabalho que apresentava um Krisiun mais maduro e levemente diferente do que havíamos escutado em Southern Storm e The Great Execution. Mesmo que a alma da banda ainda estivesse lá presente, isso gerou certa divisão e tornou o trabalho amado e odiado em partes iguais. Eu particularmente estou no primeiro time, mas entendo quem não o apreciou. Por isso o trio formado por Alex Camargo (vocal/baixo), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) resolveu executar algumas mudanças, e a primeira delas foi chamar novamente Andy Classen para cuidar da produção. A segunda mudança foi olhar para o passado e buscar aquela urgência de seus trabalhos mais antigos. Não estou falando de uma regressão musical de 20 anos, de forma alguma, mas sim de recuperar aquele espírito furioso e implacável que marcou o Krisiun em seu início de carreira.

Essa mudança fica muito evidente quando você se dá conta que Scourge Of The Enthroned possui apenas 8 faixas, e que se passam em pouco mais de 38 minutos. Isso faz deste seu segundo trabalho mais curto, só atrás de Works of Carnage (03). Sem espaço para enrolações, o trio executa um verdadeiro massacre com seu Death Metal veloz, agressivo e esmagador. Soando mais rápido e brutal que em trabalhos anteriores, o que temos aqui é uma aula de intensidade e visceralidade, algo que confesso, sentia certa falta nos últimos anos. Os vocais de Alex continuam transmitindo aquela fúria ímpar, e a cada lançamento ele consegue soar ainda melhor. Fora isso, continua formando uma parte rítmica primorosa ao lado do monstruoso Max Kolesne. Sério, só uma explicação verdadeiramente sobrenatural para justificar a sua técnica e precisão na bateria. Se coloca ao lado de mestres como Gene Hoglan, Pete Sandoval, George Kollias e Paul Mazurkiewicz, quando o assunto é música extrema. Moyses despeja alguns dos riffs mais infernais da história da banda, e que conseguem soar clássicos, mas modernos. E os solos? Quanta insanidade!


De cara já temos esmagadora “Scourge of the Enthroned”, com toda a sua brutalidade, selvageria e guitarras caóticas. Não tinha como começar de melhor forma, do que nos dando a certeza de que temos de volta o nosso bom e velho Krisiun. Sem mostrar nenhuma misericórdia, a sequência se dá com “Demonic III”, veloz e ameaçadora, e com a trituradora de tímpanos intitulada “Devouring Faith”. Saquem o seu solo verdadeiramente doentio! “Slay the Prophet” é uma das canções mais fortes do álbum, com sua explosão de agressividade e peso, e “A Thousand Graves” se destaca não só pelas mudanças de tempo, como também pelos ótimos riffs e por sua ferocidade. Pense em uma música que pode explodir sua cabeça. Essa é “Electricide”, com seu peso, agressividade e energia, que transbordam por todos os lados. “Abysmal Misery (Foretold Destiny)” não só é a canção mais curta de todo álbum, como também uma das mais selvagens. Uma moedora de pescoços alheios. Para finalizar todo esse genocídio musical, temos “Whirlwind of Immortality”, com suas mudanças de tempo e seu ar ameaçador.

Como já dito, a produção voltou para as mãos de Andy Classen, que já havia produzido  AssassiNation (06), Southern Storm e The Great Execution. Ok, o trabalho de Erik Rutan para Forged in Fury está entre as melhores produções que já escutei em todos os tempos dentro do Heavy Metal, e até hoje me impressiona. Mas olha, devo admitir que essa pegada mais orgânica que Andy dá a banda combina muito mais com um álbum do Krisiun. O melhor de tudo é que você consegue escutar cada detalhe, cada instrumento, sem qualquer problema. Já a arte, com base na mitologia suméria, foi obra de ninguém menos que Eliran Kantor, responsável por algumas das melhores capas dos últimos anos quando falamos de Heavy Metal. Perfeita e impactante. Sem arrefecer um milímetro em sua fúria, Scourge Of The Enthroned é um álbum que não te dá tempo para respirar. É um massacre seguido do outro, e ao final da audição, você se sente surrado de forma impiedosa, mas com um sorriso de orelha a orelha. A mais fina e pura definição do termo brutalidade sonora.

NOTA: 93

Krisiun é:
- Alex Camargo (vocal/baixo);
- Moysés Kolesne (guitarra);
- Max Kolesne (bateria).

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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Lethal Storm - Manipulated Mind (2017)


Lethal Storm - Manipulated Mind (2017)
(Independente - Nacional)


01. Manipulated Mind
02. As Another Day Begins
03. Where’s the Respect
04. Psychopath
05. Chemical Slave
06. Mass Annihilation
07. Disorder
08. Violence
09. Corruptos (Bonus Track)
10. Blood Storm (Bonus Track)
11. Words of Mankind (Bonus Track)

A tendência do brasileiro para sonoridades mais extremas quando o assunto é Heavy Metal, não pode ser negada de forma alguma. E aqui temos mais uma prova disso. O Lethal Storm surgiu na cidade de Campinas/SP, no ano de 2007, e tratou de se enveredar pelos caminhos do Death/Thrash. Lançaram um EP no ano de 2012, Lethal Storm We Are, onde seu potencial pode ser observado, mas após se seguiu um hiato de 5 anos sem lançamentos, onde passaram por mudanças de formação e foram mudando e maturando sua sonoridade. E eis que agora temos em mãos o seu debut, intitulado Manipulated Mind.

Musicalmente não temos aqui um som revolucionário. Seu Death Metal tem aquela pegada mais tradicional e bem técnica de nomes como Cannibal Corpse, Deicide, Vital Remains, Malevolent Creation e afins, com uma bem-vinda dose de Thrash Metal, que não só dá um ar mais atual a música dos campineiros, como também adiciona a ela boas melodias. Cabe dizer que isso em momento algum atenua o peso e a agressividade absurda das composições aqui presentes. Os vocais de Douglas Mota são excelentes, trafegando entre o gutural e o rasgado com uma naturalidade absurda. As guitarras de Diego Mota e Luciano Santos (posto hoje ocupado por Cleber Zeferino) despejam ótimos riffs e solos, enquanto a parte rítmica, com o baixista Haroldo Sanchez e o baterista Fábio Luiz, mostram não só muita coesão, como também muita técnica, além de imprimir um peso absurdo.


O álbum abre com a bruta e técnica “Manipulated Mind”, um dos grandes destaques de todo CD, sendo seguida pelas aceleradas e explosivas “As Another Day Begins”, com seus ótimos riffs, e “Where’s the Respect”, onde a parte rítmica brilha. A densa e cadenciada “Psychopath” é mais puxada para o Thrash, com um trabalho de guitarras que remete ao Slayer, tendo na sua sequência a feroz e agressiva “Chemical Slave”, melhor música de todo o álbum. Aqui vale destacar mais uma vez a parte rítmica. “Mass Annihilation” soa bruta e violenta, enquanto “Disorder” alterna bem velocidade cadência e transborda peso por todos os poros. “Violence” faz jus ao nome e se mostra bem variada, e “Corruptos” apresenta boas melodias e uma letra em português. Funcionou muito bem. Na sequência final temos as melodias marcantes de “Blood Storm”, que pasmem, me remeteu em algumas passagens ao Amon Amarth, e a agressiva “Words of Mankind”.

Gravado no Estúdio RG, o processo de produção fico a cargo da banda, em parceira com Guilherme Malosso e Yuri Camargo (ambos do Motherwood). O resultado é muito bom, já que não só foram felizes na escolha da timbragem, como também conseguiram deixar a gravação bem orgânica, sem abrir mão da clareza e da agressividade. Já a capa e o restante do projeto gráfico foram realizados por Jean Michel, da Designations Artwork, que já trabalhou com nomes como Keep of Kalessin, Skinlepsy e Pagan Throne. Se encaixou com perfeição na proposta lírica e musical da banda. Como já dito, o Lethal Storm não apresenta nada inovador, mas sua música consegue ter uma cara própria durante a maior parte do tempo, além de transbordar energia, peso, agressividade e brutalidade. É Death/Thrash feito sobre medida para triturar tímpanos delicados.

NOTA: 82

Lethal Storm é:
- Douglas Mota (vocal);
- Diego Mota (guitarra);
- Cleber Zeferino (guitarra);
- Haroldo Sanchez (baixo);
- Fábio Luiz (bateria).

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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Sinaya – Maze of Madness (2018)


Sinaya – Maze of Madness (2018)
(Brutal Records – Importado)


01. Life Against Fate
02. Abyss to Death
03. Always Pain
04. Bath of Memories
05. Crowd in Panic
06. Infernal Sight
07. Deep in the Grave
08. Buried by Terror

Eu juro que tento de verdade, mas fazer “textão” em resenha é algo que está no meu sangue. Não consigo deixar de me posicionar sobre temas que muitas vezes são espinhosos, mas necessários de serem abordados. Querendo ou não, quem se propõe a resenhar um álbum se coloca na posição de formar opiniões, e quando você tem tal responsabilidade, mesmo que em uma escala reduzida, não pode simplesmente se calar para certas questões. Sei que às vezes sou chato com essa atitude, mas acredite, ela é realmente necessária. E mais uma vez vamos falar aqui da presença feminina no meio do Heavy Metal. 
O Metal é um meio predominantemente masculino e os fatores para isso são diversos, não cabendo ficar enumerando os mesmos aqui. Isso não exclui de forma alguma, a presença feminina no meio, mas sim realça a necessidade de uma maior representatividade da mulher, seja como fã do estilo, jornalista, fotógrafa, produtora, ou em cima de um palco. Não é nem a questão de termos um mesmo número de homens e mulheres no meio (por mais isso seria algo muito legal), mas sim da mulher se sentir bem em estar envolvida com a música pesada, se fazendo assim presente em uma quantidade maior do que temos hoje. Mas existe um sério entrave para isso, que é a questão do respeito. Sim, a mulher não é tão respeitada assim em nosso meio como alguns por aí parecem acreditar.


Hoje estou com meus 41 anos, e o Heavy Metal faz parte da minha vida desde meus 12. Já são quase 3 décadas nesse meio, e perdi a conta das vezes que escutei frases como “É, até que ela toca bem para uma mulher.”, ou “Só faz sucesso porque é mulher.”. Isso sem contar as abordagens grosseiras em shows de Metal, já que existem aqueles que acreditam que mulher não pode realmente gostar do estilo, e que se está no show, é porque está caçando um “cabeludo” para ela, ou tem um parceiro que curte. Mais de uma vez já tive que intervir em situações onde o cara, ao receber o não de uma mulher, tentou forçar algo mesmo assim. Compreendam uma coisa. Assim como em qualquer área nessa vida, homens e mulheres não diferem em nada quando o assunto é competência. Então sim, elas possuem a mesma capacidade que você de curtir Heavy Metal, de trabalhar no meio, de fazer música de qualidade, e devem sim, serem tratadas de igual para igual. Nem melhor, e nem pior, mas com igualdade. Então, “respeita as mina”, e cobre isso das pessoas a sua volta.

Antes que você desista de continuar a leitura, vou falar do que certamente trouxe você aqui, Maze of Madness, o aguardado debut da Sinaya. Surgida no ano de 2010, a banda já haviam mostrado potencial com o EP Obscure Raids em 2013, e o single Buried by Terror de 2015. Após este último, passaram por algumas mudanças de formação, e hoje o quarteto conta com Mylena Monaco (vocal/guitarra), Renata Petrelli (guitarra), Bruna Melo (baixo) e Cynthia Tsai (bateria). Para quem não conhece sua sonoridade, trafegam entre o Death e o Thrash de uma forma muito equilibrada, sendo que a pegada da banda é mais moderna, se aproximando muito mais dos anos 90 do que daquele som tradicionalmente oitentista.

Os vocais de Mylena são bem agressivos e com uma abordagem típica do Death Metal. E antes que você venha tecer comparações com os vocais de Angela Gossow, algo que parece ser uma tara de muitos quando falamos de vozes femininas nas vertentes mais extremas, eu já digo que o que escutamos aqui se aproxima muito mais de um Chuck Schuldiner ou de um John Tardy. Ou seja, são realmente vocais típicos do estilo. A dupla que ela forma com Renata é responsável por um ótimo trabalho de guitarras, que se aproxima daquele Thrash mais grooveado, com foco nos riffs, que são realmente ótimos, e nas melodias. O baixo soa brutalmente pesado, e foi responsabilidade não só de Bruna, mas também de Camila Toledo, que saiu da banda durante as gravações. A bateria se destaca principalmente pelo belo trabalho de bumbo duplo e foi gravada por Rodrigo Felix, exceto “Buried by Terror”, que por ter sido lançada em 2015, conta com a ex-baterista Aline Dutchi nas baquetas.


De cara, começamos com a bruta  “Life Against Fate”, um retrato perfeito do que você encontrará pela frente. Energia de sobra, riffs marcantes, boas melodias e alternância entre partes mais velozes e cadenciadas. “Abyss to Death” tem uma cadência opressiva que faz ela soar ainda mais pesada do que é, e “Always Pain” possui um belíssimo trabalho de guitarras, além de uma aura obscura e má. “Bath of Memories” tem um groove muito bom vindo das guitarras e é outra que oprime o ouvinte com sua brutalidade. Aliás, nessa altura do jogo fica muito claro que o Sinaya não é dessas bandas que aposta na velocidade pura e simples. “Crowd in Panic” te remete diretamente aos melhores momentos do Obituary, mas não soa como simples emulação. “Infernal Sight” tem ótimos riffs e um trabalho simplesmente brutal da bateria, e “Deep in the Grave” transmite um clima sombrio e raivoso ao ouvinte. Finalizando, a já conhecida e empolgante “Buried by Terror”.

Maze of Madness foi gravado no Mr. Som Studio (São Paulo/SP) e teve sua produção toda a cargo da dupla Marcelo Pompeu e Heros Trench. O resultado é muito bom, já que deixou tudo muito claro, com todos os instrumentos 100% audíveis. A escolha dos timbres também foi muito boa. Já a capa é obra de João Duarte (Circle II Circle, Angra, Nervosa, Metal Church, Torture Squad), e reflete perfeitamente o que é a música do quarteto. O Sinaya pode não apresentar nenhuma grande novidade no que diz respeito a sonoridade musical, mas sua música transborda energia, peso, agressividade e principalmente, honestidade, além de ser feita sobre medida para esmagar vértebras dos pescoços menos acostumados. Básico, muito bem feito, e exatamente por isso, extremamente cativante.

NOTA: 86

Sinaya é:
- Mylena Monaco (vocal/guitarra);
- Renata Petrelli (guitarra);
- Bruna Melo (baixo);
- Cynthia Tsai (bateria).

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Arandu Arakuaa - Mrã Waze (2018)


Arandu Arakuaa - Mrã Waze (2018)
(Independente - Nacional)


01. Sy-gûasu (grande mãe, no idioma Tupi)
02. Gûaîupîá (espírito dos pajés bons, no idioma Tupi)
03. Îasy (lua, no idioma Tupi)
04. Danhõ’re (cantar, no idioma Xavante)
05. Huku Hêmba (espirito da onça, no idioma Akwẽ Xerente)
06. Ko Kri (água fria, no idioma Krahô)
07. Jurupari (deus dos sonhos, no idioma Tupi)
08. Gûaînumby (beijar-flor, no idioma Tupi)
09. Îagûara Kûara (toca da onça, no idioma Tupi)
10. Abaré Angaíba (padre mau, no idioma Tupi)
11. Rowahtu-ze (ensinamento, no idioma Akwẽ Xerente)

Domingo, enquanto retornava de uma viagem, ia definindo em minha cabeça as resenhas dessa semana, e uma delas já estava decidida desde o início: o novo álbum do Arandu Arakuaa. Mal sabia eu que naquele mesmo momento, um dos bastiões da nossa cultura, o Museu Nacional, era consumido por completo pelo fogo. Um retrato do descaso com o qual se trata a questão da cultura nesse país, uma política de Estado que perpassa todos os governos nas últimas décadas. Vocês sabiam que boa parte dos estudos realizados no último século, a respeito das sociedades indígenas em nosso país, se encontravam em suas dependências? A coleção de etnologia indígena brasileira do MN abrangia mais de 30 mil objetos oriundos de mais de 100 grupos indígenas de nosso país. Era o reflexo de toda riqueza e diversidade de nossa cultura nativa. Incluía-se ai, um acervo linguístico, com registros documentais e sonoros, inclusive de línguas que não possuem mais falantes vivos, e as únicas múmias indígenas encontradas no país. Tudo isso se perdeu para sempre.

Cultura nunca foi algo realmente importante para esse país, e o descaso com o assunto sempre foi algo escancarado, e não apenas por parte dos nossos governantes. Sim coleguinha, porque se eles agem de tal forma, é por saberem que não sofrerão consequências de tal fato nas urnas, afinal, a população brasileira, em sua maioria, não dá a mínima para o assunto. Se formos fazer um recorte mais específico e falarmos exclusivamente de nossa cultura nativa, a coisa se torna mais grave. A ignorância de nossa população nesse sentido se torna ainda mais latente quando abordamos a questão indígena. Seja sincero prezado leitor, o que você realmente conhece a respeito da cultura de nossos Índios, que já estavam aqui muito antes de qualquer colonizador europeu colocar os pés em nossas terras. Acredito que, tirando aquelas lendas que aprendemos nas escolas, quando somos crianças, o conhecimento será praticamente nulo.


Só por tudo isso, uma banda como o Arandu Arakuaa já merecia ser muito respeitada. Sua mistura de elementos indígenas e regionais com Heavy Metal, suas músicas cantadas em Tupi, Xavante, Akwẽ Xerente e Krahô, resultam não só em uma das sonoridades mais originais que você vai escutar em matéria de música, mas também é um brado de resistência. Resistência sim, a um projeto de aniquilação que já dura mais de 500 anos, que ainda hoje extermina populações e culturas inteiras, seja através de massacres ordenados por fazendeiros e madeireiros, seja por conversões religiosas — sim, em pleno século XXI, ainda existem aqueles que enxergam os indígenas como primitivos e selvagens que precisam ser catequizados —, seja pela marginalização de sua população, que vivem de forma precária e vistos como cidadãos de segunda classe. Já notaram como os índices de mortalidade infantil, mortes por doenças infecciosas e parasitárias, e taxas de suicídio são muito maiores entre as populações indígenas? É bem provável que não. Mas quer saber, todos deveríamos notar.

Existe um conceito por trás de Mrã Waze, 3º álbum do Arandu Arakuaa, que sinceramente não consegui resumir de uma forma que não perdesse a essência. Sendo assim, vou usar as palavras do release enviado pela banda para um melhor entendimento: “O conceito do disco versa sobre a relação do homem com a natureza, o uso das medicinas de cura nas quais os pajés trabalham com as forças da natureza e os espíritos dos animais, além de toda a mística da lua e do sol. A mensagem central é “todos unidos em matéria e espírito”, assim formando uma grande unidade, onde não há separação entre o plano físico e o espiritual e, consequentemente, se atinge o equilíbrio entre o homem, os animais, a natureza, enfim, todo o cosmos.”. É em cima disso, que o quinteto liderado por Zândhio Huku (vocal, guitarra, viola caipira, instrumentos indígenas) e que conta ainda com Saulo Lucena (baixo, vocal), Lís Carvalho (vocal, pífano), Guilherme Cezario (guitarra) e João Mancha (bateria, percussão) — esses 3 últimos estreantes —, lançou um dos melhores álbuns de 2018.

Mrã Waze é certamente o trabalho mais maduro, diversificado e coeso do grupo brasiliense. As passagens mais pesadas, oriundas do Heavy Metal, se alternam com aquelas mais introspectivas e tribais, vindas das músicas indígena e regional, mas com um equilíbrio que ainda não havia sido presenciado até então. Tudo soa muito harmonioso, porque não, místico. É muito legal ver como esse lado voltado para nossas raízes, aflora cada vez mais na música do Arandu Arakuaa, e a maior presença de elementos de instrumentos indígenas e da viola caipira vão arrancar sorrisos dos fãs. Tudo aqui é de uma riqueza musical e cultural poucas vezes vista. As letras podem ser cantadas em línguas indígenas, mas isso em momento algum te impede de, em muitos momentos, estar cantando junto com a banda. Em vários momentos isso ocorreu comigo. Vale inclusive destacar a diversidade vocal aqui presente, que é simplesmente absurda.


A abertura se dá com “Sy-gûasu”, totalmente voltada para os elementos indígenas e regionais, e que soa quase como um ritual religioso voltado para dar equilíbrio ao ouvinte. Na sequência, temos a agressiva “Gûaîupîá”, que equilibra muito bem esses momentos com as passagens mais melódicas e introspectivas, além de ter ótimos vocais femininos. “Îasy” tem uma pegada mais tribal, além de um ótimo trabalho de guitarra, enquanto em “Danhõ’re” o uso da viola caipira e de elementos percussivos fala mais alto, com um resultado muito legal. “Huku Hêmba” é outra que equilibra muito bem melodias e agressividade, e “Ko Kri” traz novamente a força do lado regional da banda.  “Jurupari” esbanja peso e agressividade, mas sem abrir mão das passagens introspectivas e percussivas. Essa introspecção também é o mote de “Gûaînumby” e suas belíssimas melodias. Aqui o brilho vai para a viola de Zândhio e os vocais de Lís. “Îagûara Kûara” é bem técnica e pesada, algo que podemos observar também em  “Abaré Angaíba”. E para fechar o álbum, a ótima  “Rowahtu-ze”, com seu ótimo trabalho vocal e excelente utilização da viola e dos elementos de percussão indígenas.

Gravado no Broadband Studio, o álbum teve sua produção, mixagem e masterização realizadas por Caio Duarte (Dynahead, Miasthenia, Omfalos), com um resultado muito bom. Ficou muito bem equilibrada e com aquela clareza necessária para você escutar toda a diversidade musical aqui presente, mas sem perder a organicidade. Já a belíssima capa foi obra da artista Anjayra M, e é um retrato perfeito do conteúdo musical do CD. De sonoridade rica e diversificada, o Arandu Arakuaa se torna cada vez mais uma banda única, não só no cenário nacional, como no mundial, e merece a muito um reconhecimento muito maior do que têm. Se tem alguma dúvida a respeito disso, escute Mrã Waze e se depare com um dos melhores álbuns de Metal que você escutará esse ano.

NOTA: 91

Arandu Arakuaa é:
- Zândhio Huku (vocal, guitarra, viola caipira, instrumentos indígenas);
- Lís Carvalho (vocail, pífano);
- Guilherme Cezario (guitarra);
- Saulo Lucena (baixo, vocal);
- João Mancha (bateria, percussão).

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domingo, 2 de setembro de 2018

Melhores álbuns – Agosto de 2018


No primeiro domingo de cada mês o A Música Continua a Mesma fará uma lista com os melhores álbuns do mês anterior. Nela, respeitaremos as datas oficiais de cada lançamento, então sendo assim, não contaremos a data que os mesmos vazaram na internet, mas sim quando efetivamente foi ou será lançado.

Sendo assim, ai vão os melhores lançamentos de agosto na opinião do A Música Continua a Mesma.

1º. Maya - Egophilia


2º. The Vintage Caravan - Gateways 


3º. Lurk - Fringe
 

4º. Brutallian - Reason for Violence


5º. Primal Fear - Apocalypse


6º. Sinaya - Maze of Madness
 

7º. Mob Rules - Beast Reborn


8º. U.D.O. - Steelfactory 


9º. Mad Max - 35


10º. Ian Gillan & The Javelins -  Ian Gillan & The Javelins

 

Menções Honrosas

- Carriage - Visions


- Sinsaenum  - Repulsion for Humanity


- Sixty-Nine Crash - Postcards From The Black Sun


- Parasite Inc. - Dead and Alive

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Heia - Magia Negra (2007/2017)


Heia - Magia Negra (2007/2017)
(Satanics Sounds Records/Campos Metal Distro/Brothers of Metal/Temple Bizarre Cult/Violent Records/Diabolic Records/Holocaust Records/Impaled Records - Nacional)


01. Maldade Infame
02. Karbarah’s
03. Portal
04. Magia Negra
05. Maligna
06. Perversidade Mística da Desgraça
07. Manifesto da Desgraça
08. Ritual
09. Missa Negra

Existiu um tempo onde tudo era mais simples quando o assunto era Heavy Metal e suas vertentes. Quando uma banda recebia o rótulo de Black Metal, você sabia exatamente o que esperar da mesma. Hoje em dia você fica na dúvida, afinal, ela pode receber ao lado do Black, um complemento como Sinfônico, Depressive, Post, Ambient, Melódico, ou algum outro qualquer ao gosto da banda. Nada contra, até gosto de muitos desses estilos, mas a verdade é que nada se compara aquela sonoridade bruta e crua, tantos da primeira geração dos anos 80, como da segunda, que tomou de assalto hà cena no início da década de 90.

Para nos fazer recordar disso, existem hordas como a Heia, surgida em Goiânia no ano de (1999), e que desde então se colocou entre os principais nomes do estilo no Brasil.  O que temos em mãos é o seu debut, originalmente de 2007, e que ano passado ganhou um relançamento em comemoração aos seus 10 anos, através de uma reunião de selos de nosso underground. Bem, aqui não tem espaço para conversa, já que você vai se deparar com aquele Black Metal típico da segunda geração do estilo, e que remete a nomes como Mayhem, Darkthrone, Burzum, Beherit e afins. É cru, agressivo, bruto e primal. É o mal em forma de música.


Na época formada por Místico (guitarra/vocal), Perverso (baixo/vocal) e Desgraça (bateria), a horda goiana nos presenteia com vocais vomitados, letras em português que transbordam blasfêmia e ódio contra o Cristianismo, guitarras que despejam riffs ríspidos, frios e cortantes, e uma parte rítmica que esbanja brutalidade e peso. O trio não tem pena dos ouvidos alheios. A fidelidade ao estilo e gritante e se você não acredita, escute faixas como a bruta “Maldade Infame”, que abre o opus, as cruas “Magia Negra” e “Portal” e as ríspidas “Maligna” e “Perversidade Mística da Desgraça”. De bônus, duas faixas retiradas da demo de 2002, Oráculo, “Ritual” e “Missa Negra”, que possuem uma produção bem inferior as demais, mas valem como registro histórico. Decididamente é material para ouvidos treinados.

Gravado e mixado no Studio Manicomial, o álbum teve a produção a cargo da própria horda, de Luis Maldonale e de Gustavo Vazquez. O resultado se apresenta surpreendente, considerando a proposta sonora da Heia. Tem toda aquela crueza esperada, mas não soa como uma massa sonora disforme, já que você consegue escutar todos os instrumentos. A parte gráfica ficou muito legal, com o CD vindo embalado em um digipack caprichado. Com uma música simples, bruta e impiedosa, Magia Negra é daqueles trabalhos obrigatórios na coleção de qualquer bom apreciador do estilo. O Black Metal vive e resiste!

NOTA: 84

Heia (gravação):
- Místico (guitarra/vocal);
- Perverso (baixo/vocal);
- Desgraça (bateria).

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